OS DEMÓNIOS DO CONVENTO DE CRISTO
Os mundos subterrâneos
(imagem recolhida pela Marta Marques Lopes durante o Seminário)
A escolha de Santa Bárbara como orago dessa Capela, que veio a substituir o local da forca, após a permanência de uma imagem do Cristo Crucificado na mesma durante alguns anos, não deve ter sido destituída de intenção. Santa Bárbara, pelas vicissitudes da sua biografia e taumaturgia, é a Santa das Trovoadas, “salve-nos Santa Bárbara dos Trovões”, devendo-se a essa atribuição, a sua colocação a encimar colinas situadas perto de povoados, num sentido profiláctico e de protecção. A força tenebrosa das tempestades e consequentes trovoadas, à qual está sujeita, tornam-na por essa via, numa poderosa Santa, capaz de enfrentar terríveis e demoníacas tempestades.
O local da forca, obviamente seria encarado, numa visão medieval, como um local “infestado” de espíritos malfadados e temíveis, tal como a Golgota onde Cristo foi “Cruzado”, local onde se teriam consumado mortes violentas de malfeitores. Santa Bárbara, além de os proteger das nefastas e sobrenaturais trovadas, apresenta todas as características necessárias para aplacar e dominar os maus espíritos do lugar, tal como São Miguel, visto a trovoada enquanto força destruidora e caótica, seja considerada também como expressão demoníaca. O facto de ser “advogada” das mortes repentinas é de considerar na ideia enunciada.
A acção de Santa Bárbara consistirá em deslocar os efeitos de um agente destruidor, a trovoada, para o monte: o monte maninho, a barreira, longe, mar a marinho, lugares estéreis onde só a Serpente (figura do demónio) amamenta os filhos com água do trovão (leite da maldição).
Talvez seja em virtude destas ideias, que o Claustro de Santa Bárbara no Convento de Cristo, apresente a maior concentração de Baphométicas criaturas esculpidas. Santa Bárbara domina-as, como que aprisioná-las no espaço claustral, que só por si, muito fechado sobre si próprio e rebaixado, é propício a encarcerar estranhas forças sobrenaturais. Não existe uma oração a Santa Bárbara: Bênção de exorcismo? Sobrepõe-se a Janela do Capítulo a este espaço, como se das profundezas da terra emergisse a salvação do Mundo, mensagem críptica que a Árvore da Vida encerra, todavia numa leitura anacrónica, é o claustro posterior à Janela.
Claustro de Santa Bárbara abaixo da janela do Capítulo
Algumas das imagens dos capitéis do Claustro de Santa Bárbara no Convento
Insólitas gárgulas
(Repara-se na imagem superior à direita – Esperamos publicar um post só dedicado a este tema)
Das profundezas também Santa Bárbara é “Rainha”, visto ser invocada como padroeira dos mineiros e de todos aqueles que trabalham com o fogo. A alquimia apropria-se desta para descrever algumas das suas práticas.
A adoração da Santa Bárbara por parte dos mineiros, ao ponto de a elegerem como Padroeira, poderá encontrar-se na sua história lendária. Para além de relações possíveis, que podem ser consideradas menores, do refúgio de Bárbara no interior da terra, quando perseguida pelo pai, parece fora de dúvida que o motivo essencial da adoração se encontre na súplica, feita pela Santa a Jesus, para que, quando em situações de morte iminente, todos os que implorassem a Deus, por seu intermédio, a Extrema Unção, a obtivessem, ficando absolvidos de todos os seus pecados. Tais situações de morte iminente tê-las-iam sempre os mineiros diante dos olhos quando no seu trabalho no subsolo.
Este também é o motivo pelo qual Santa Bárbara é também venerada, como Padroeira, por outras profissões (artilheiros, pirotécnicos, bombeiros, etc.); outras profissões, relacionáveis com a torre, tanto quanto à respectiva construção (cabouqueiros, pedreiros, arquitectos) como quanto à respectiva utilização como prisão (presidiários, se tal se pode considerar uma profissão, e guardas de prisão), têm igualmente a Santa como Padroeira. No mundo inteiro, Santa Bárbara mantém-se Padroeira dos mineiros.
Esta ideia leva-nos de imediato a pensar nos lendários túneis de Tomar, e curiosamente, um dos “pastores” deste Círculo de Estudos do Cethomar que se perdeu na mata junto à ruína, deparou-se com o que pareceu ser os rebordos de um antigo poço, mas que pelas vicissitudes do tempo a que esteve vinculado, não permitiu ao “pastor” ter certezas iniludíveis quanto a isso. Será uma das “Sete Fontes”?
Próximo Capítulo
UMA APARIÇÃO NA MATA DOS SETE MONTES
Dos Anjos a Santa Bárbara
























