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2/24/2010

COMEMORAÇÃO DOS 850 ANOS

A Sociedade Geográfica de Lisboa, a Câmara Municipal de Tomar e o Grupo de Amigos do Convento de Cristo irá realizar no dia 1 de Março de 2010 em Lisboa uma sessão solene para a comemoração dos 850 anos do castelo dos Templários em Tomar (1160 - 2010).



A sessão iniciará às 16hs. Mais informações no site: http://www.socgeografialisboa.pt/ ou no forum tópico de Notícias, Eventos e Divulgação, página 10, onde podem ver em detalhe o programa.
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Há poucas cidades no mundo que se possam orgulhar de saber a data exacta do seu nascimento – Tomar é uma delas. As comemorações vão ter um ponto alto na próxima segunda-feira, onde irá se render uma homenagem a D. Gualdim Pais na igreja de Santa Maria dos Olivais, seguida de recriação da Iniciação de um Templário, entre outras actividades, e prolongam-se até Maio de 2011.
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SSSSSSSSssssSSSSSSSPROGRAMA DETALHADO

2/23/2010

SANTA MARIA DO OLIVAL

DO SUDÁRIO AO TÚMULO DE CRISTO
Este post foi escrito nos primórdios do blog mas devido à sua longa extensão não teve ainda oportunidade de surgir publicado, não obstante ter sido distribuído na altura aos participantes dos encontros em formato de pequeno livro A5. Encontra-se actualmente a ser revisto. Surge o post de São Cristóvão precisamente de um parágrafo deste ensaio que entendi merecer maior desenvolvimento.

2/22/2010

SÃO CRISTOVÃO DA CHAROLA – Parte I

UMA HISTÓRIA COM PÉS E CABEÇA
Encontra-se numa pintura mural da Charola Templária em Tomar um insólito São Cristóvão representado como cinocéfalo, ou seja, com cabeça de canídeo. Pretende este post revelar e dar a conhecer o motivo dessa misteriosa representação. Serve também de complemento ao post anterior quanto à influência que o médio oriente pode ter exercido sobre esse grande mestre Templário Português que foi Gualdim Pais.

Pintura mural na Charola

Dos diversos mistérios que Tomar encerra, a imagem de São Cristóvão com cabeça de canídeo, representada numa pintura mural da Charola, tem sido um dos que mais tem intrigado os que estudam os segredos de Tomar.

Não se conhece a data exacta da pintura mas calcula-se ser anterior ao período Manuelino, situando-a alguns autores no século XIV e outros no tempo de Gualdim Pais. A imagem não está em bom estado de conservação pelo que pode ser subjectiva, senão abusada, a interpretação de São Cristóvão com cabeça de cão, porém é certo tratar-se de um São Cristóvão com todos os seus atributos iconográficos.

Apesar de pessoalmente não conseguir reconhecer tal cabeça na dita imagem, irei partir desse pressuposto para concluir por uma ideia que pode concorrer com algumas das explicações dadas.

As referências literárias tomam-na como "um intrigante São Cristóvão pintado numa das paredes interiores da Charola com cabeça de cão à semelhança do deus egípcio Anúbis, divindade psicopompica ou de passagem entre duas dimensões, dois estados de consciência. É equivalente ao deus lusitano Endóvelicos, a Lug e a Hermes", ou então, “e sendo São Cristóvão o gigante que conduz Cristo, fonte de luz, de uma margem a outra margem de um rio, é evidentemente, uma metáfora do percurso de Orion (também gigante) que guia o Sol no atravessamento da Via Láctea (o rio celeste). Outrora tal fenómeno astronómico era associado à festa da Ascensão, conferindo, assim, a São Cristóvão a função de psicopompa, isto é, de condutor das almas para a sua morada celeste”, segundo literatura diversa que aborda essa pintura.
Ainda citando outra literatura quanto aquela imagem podemos ver que “Cão refere-se à Constelação do hemisfério austral, a Sueste da de Órion. Inicialmente, estava ligada apenas à estrela Sírio, a mais brilhante deste conjunto e até dos Céus. Esta é o Cão Maior; o Cão Menor fica a seu Norte. Ora, aquela fica no fim da Estrada de Santiago, ou seja, o final da Via Láctea. Por isso, temos intimas relações entre os membros da Ordem do Templo e os da Ordem de Santiago, caminho terrestre em sintonia com o do macrocosmo.”
Após esta introdução começaremos aqui a aventura que antecedeu a conclusão que constitui a teoria que nos propomos a defender.

Numa das nossas incursões pela charola, e admirando a imagem em questão numa tentativa de reconhecer os diversos elementos que a compõem, reparo que o menino Jesus transportado nas costas por São Cristóvão parece ter os pés tortos. Tortos? Seria esse detalhe um pé ou uma mão? Estaria mesmo torto ou serão às vicissitudes do tempo, que tanto deteriorou aquela imagem, a levar-me a pensar estar perante um Cristo de pés tortos?
Detalhe da pintura mural
Se assim fosse isso abria-nos uma nova porta para investigar a estranheza da imagem. Era uma pista para tentarmos chegar a outras conclusões quanto aquela imagem.

Obviamente o Cristo de pés tortos gerou comentários em tom jocoso e originou um momento lúdico entre nós, mas na verdade estávamos perante uma possibilidade e nem a percebemos na altura. Teria isso sentido algum?

Para admiração de todos nós, existe entre os Bizantinos a ideia de que Cristo tinha uma perna mais curta que outra, originando representações onde tal se evidencia. Existe também a ideia de que talvez tivesse um pé torto. É portanto, sobejamente conhecida a teoria do Cristo Coxo no mundo Bizantino. Tudo isto está longe do nosso mundo ocidental e estava mais longe ainda da nossa ideia quando abordámos o tema.

Mas donde provém essa ideia de um Cristo coxo? Pode isso levar-nos a outras pistas para entendermos aquela pintura mural onde São Cristóvão se apresenta com cabeça de cão? Sim, sem dúvida, mas antes vamos abordar a primeira questão.

Como já vimos no post anterior, o Santo Sudário deve ter sido anteriormente conhecido como Mandylion, assim designado desde o século I e em posse do mundo Bizantino e como Sudário a partir do desaparecimento do Mandylion de Constantinopla em 1204 e já na posse da igreja ocidental em meados do séc. XIV. A resposta para o Cristo Coxo parece encontra-se precisamente nesta relíquia.
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Sudário e Mandyliom

No Sudário, Nosso Senhor parece ter uma perna mais curta que a outra, a esquerda, que permaneceu encurvada na cruz por causa da sobreposição do pé esquerdo pregado sobre o direito, e assim ficou fixada mesmo depois da deposição da cruz devido à rigidez cadavérica. Desse pormenor nasceu a lenda do “Jesus claudicante” ou “Cristo Coxo” que influenciou a cruz ortodoxa: ela é feita com o supedâneo (apoio dos pés) inclinado, como se idealmente estivesse na cruz um homem com uma perna mais curta.
Cruz ortodoxa

Muitos ícones de Nossa Senhora, especialmente os mais antigos e célebres, representam-na com o filho nos braços, com os pés fora das vestes, um normal e outro torto e mais curto. Mais ainda, outras vezes está com uma perna sobre a outra, com a planta do pé virada e aparecendo, sendo o outro pé visto sempre de perfil, como evidente alusão ao Sudário. O pé defeituoso lembra a forma e a posição do pé esquerdo no Sudário.

Poderia esta imagem de São Cristóvão no Convento de Cristo estar influenciada por essa ideia Bizantina? Pode essa pintura mural ser coeva do tempo de Gualdim Pais e reflectir influências importadas pelo mesmo, visto este ter estado em contacto com essa cultura religiosa? Acredito que sim mas ainda estamos longe da questão central: Porque está São Cristóvão representado como cinocéfalo?
Cinocéfalo (do grego kunoképhalos: "que tem cabeça ou face de cão") é na mitologia greco-romana um ser com corpo de homem e cabeça de cão. Esta forma é bastante comum nas inscrições do Antigo Egipto e a mais conhecida talvez seja a de Anúbis, o Deus com cabeça de Chacal.

Contudo, e para que se possa entender o quanto pode constituir uma ideia errada a associação de Anúbis e o Santo, ou mesmo uma associação astronómica, temos que perceber o que a mentalidade da época pensava sobre os cinocéfalos, relegando para outras discussões o que podem as recentes teorias herméticas ver nessas criaturas.
Obrigatoriamente temos que, sucintamente, remeter para o imaginário europeu e as visões sobre os “Novos Mundos” e suas gentes, não se confinando a designação de novos mundos aos recentes territórios descobertos nos séculos XV e XVI, quando ocorreram as grandes viagens marítimas e que de igual forma deram origem a informações povoadas de mitos e superstições.

Essas informações míticas e supersticiosas pertenciam quase todas à tradição grega: Ctésias de Cnido em 398 antes de Cristo, já escrevia sobre a existência de raças fantásticas como os ciápodas que possuíam um único e grande pé, os homens peludos, sem cabeça, e que tinham os olhos nos ombros, etc; Plínio, em 77 depois de Cristo, também escrevia sobre os monstros e maravilhas que foram avistadas na Índia, como seres antropófagos (que comiam carne humana), seres andróginos (que possuíam os dois sexos), etc.



E tais informações foram sendo adaptadas ao longo do tempo. Porém, em geral, mantiveram-se quase sem alterações até o século XVI. Dessa forma pode-se entender o facto de os navegadores europeus terem visto sereias, antípodas (criaturas com os pés virados para trás), cinocéfalos (criaturas com corpo humano e cabeça de cão que comiam carne humana), ciclopes (monstro caracterizado por ter um único olho no meio da testa), e outras tantas criaturas monstruosas e maravilhosas, quando viajaram por regiões desconhecidas. Atente-se que estas ideias aplicavam-se não somente a todos que viviam para lá do oceano mas a todos aqueles que viviam à margem do mundo europeu.

"Alguns destes etíopes são mouros ou indianos/ outros habitam no deserto/ outros alimentam-se de toda a espécie de serpentes/ e simulam mais uma linguagem do que propriamente consigam falar/ alguns não têm cabeça/ mas antes os olhos e a boca no peito". E prossegue o autor descrevendo cinocéfalos como gente que vive quatrocentos anos; na Etiópia existiriam pessoas com quatro-olhos e "No sul da Etiópia haveria gentes que tem um só pé, muito largo, mas que são tão rápidos que assim podem perseguir os animais selvagens; e, com os pés grandes, podem-se proteger optimamente do calor do sol".

A galeria de seres já conhecidos seria agora completada e confirmada com um dado das viagens dos Descobrimentos, por exemplo, no novo mundo "o rei de Portugal, através das suas navegações, descobriu gente rude com cabeça de cão e longas orelhas de burro; o corpo é de gente com braços e mãos, as ancas e as coxas como um cavalo; e ruminam como uma vaca". O fantástico e o real coexistiam numa dinâmica e surda subordinação; e levará o seu tempo até que a galeria de maravilhas seja determinantemente eliminada pela ciência empírica.


Portanto, pode agora o leitor perceber que o comum europeu via nos designados cinocéfalos somente personagens oriundas de regiões menos conhecidas, seja a América, sejam as Índias ou mesmo África.
E de que forma se relaciona a lenda de São Cristóvão com estas criaturas que habitavam zonas distantes do centro do mundo civilizado?
Pelo que conhecemos da sua lenda, São Cristóvão era natural do antigo reino de Canaã, sendo por conseguinte um Cananeu. Os Cananeus eram os habitantes do reino antigo de Canaã, situado no Oriente Médio, correspondendo aproximadamente ao território de Israel nos dias de hoje.
Iconografia latina de São Cristovão
Porém, a história do pé torto ou do Cristo coxo levou-nos a procurar São Cristóvão no seio da cultura Bizantina. Segundo a mais antiga lenda conhecida da literatura grega (bizantina) e latina, São Cristóvão não era oriundo de Canaã mas sim, e surpreendentemente, membro da tribo norte africana de Marmaritae. Foi capturado por forças romanas durante a campanha do imperador Diocleciano contra os Marmaritae e foi transportado para prestar serviço numa guarnição romana perto de Antioquia, na Síria, baptizado pelo bispo refugiado Pedro de Alexandria foi martirizado em 9 de Julho 308.
A lenda latina de São Cristóvão sofreu ao longo dos tempos uma tremenda evolução e logo em data muito precoce se distancia da lenda bizantina. É importante ressaltar que existem consideráveis diferenças de pormenor entre elas e a latina (católica) representa um ramo separado da evolução do texto original grego.
A identificação de São Cristóvão como um membro da tribo dos Marmaritae é vital para o correcto entendimento de uma passagem que tem causado mais problemas do que a maioria, a descrição da terra natal do santo, presente em todos os relatos mais antigos que sobreviveram do seu martírio, tanto em grego e latim, segundo o qual ele veio de uma terra de canibais e de seres com cabeças em forma de cão.

A tradição grega chegou a interpretar essa passagem literalmente, e é por isso que muitas vezes o vemos representado em ícones bizantinos com uma cabeça de cão. Em tempos, é claro, isso levou a uma reacção contra o São Cristóvão. A tradição latina no início da tradução do grego para o latim chegou a traduzir literalmente o termo grego original "cabeça de cão" (kunokephalos), usando a palavra canineus (cabeça de cão). Entretanto foi alterado para se ler "cananeu" (Cananeus), e daí contar a lenda latina que ele era de Canãa.



Iconografia bizantina (ortodoxa) de São Cristovão
É importante neste momento ressaltar que a descrição de Cristóvão, a partir da terra dos cabeças de cão não tem absolutamente nada a ver com o culto egípcio da cabeça de chacal, Anúbis Deus. A explicação real é bem mais prosaica e remete-nos para o que anteriormente tínhamos descrito: os habitantes civilizados do mundo greco-romano há muito habituados a descrever aqueles que vivem à margem de seu mundo como seres fantásticos, canibais, cabeças de cão e pior.
Assim, quando o autor do original relata o martírio de São Cristóvão, descreveu a sua origem na terra dos canibais e cabeça de cães, o que significa apenas que ele veio da borda do mundo civilizado Não sabia ele que as gerações mais tarde viriam a interpretar mal esta metáfora cultural de uma forma completamente literal.

De que forma pode ter esta história sido reflectida na Charola em Tomar, terra tão distante desse mundo?
Como ressalta da história de São Cristóvão, foi este martirizado em Antioquia, tendo se iniciado nessa mesma região o culto ao Santo. Por sua vez, Gualdim Pais quando esteve no médio horizonte, rezam as crónicas, esteve precisamente em Antioquia. Fica esta junto à região de Edessa, local que também já referimos como estando ligada directamente à história do Sudário, designado ai como Mandylion. Edessa, na Turquia, local também muito ligado a São Tomé. (ver post anterior)

Portanto, não será de todo despiciente encontrar a representação de São Cristóvão como cinocéfalo nesta pintura mural, não como Anúbis ou como uma alusão astronómica de Orion, Sírios ou constelação de Cão, como afirma alguma literatura, mas sim como representação de uma imagem com a qual deve ter estado Gualdim Pais em contacto na região de Antioquia.
Talvez não seja este ensaio mais que uma fantasia que toma como ponto de partida uma ilusão derivada do estado em que se encontra a dita pintura, todavia, começa esta história nos pés e acaba na cabeça, o que pode levar-me a concluir ser esta uma história com pés e cabeça.
Icone Bizantino - Cristo a pregar a povos não convertidos - Estes povos não falavam a língua de Deus. São Cristovão pertencia a este tipo de povos, os quais eram selvagens e animalescos. O facto de se ter convertido significou que começou a falar a lingua de Deus. Daí algumas imagens associarem os cinócelafos ao pentecostes.


Pentecostes, momento em que os apóstolos sob influência das chamas do Espírito Santo começaram a falar linguas diversas e estranhas, por forma a que tivessem capacitados a converter os pagões. Esta foto representa a pregação a cinócefalos.
Nota de rodapé: Apesar desta história fazer a exploração de uma ideia generalizada na literatura mistérica das últimas décadas, deve ser encarada com muita ponderação. Não é vista pelos criticos da arte como um São Cristovão com cabeça de canídeo, tão somente uma ilusão da deterioração da imagem em virtude da sua antiguidade. Repare-se que é uma pintura mural a qual está sujeita às vicissitudes inerentes a esse suporte. Não é díficil de encontrar semelhantes imagens onde podemos imaginar as mais bizarras representações.
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SÃO CRISTOVÃO DA PONTE
O SANTO QUE NÃO SE AGUENTOU NAS PERNAS  -
Parte II
Se anteriormente falámos de pés e de cabeças, neste post daremos notícias das pernas do Santo. O culto a São Cristóvão em Portugal manteve-se, contrariamente às decisões tridentinas, até período bastante tardio. Em Tomar, na ponte velha, existiu outrora uma estátua de São Cristóvão que se apresentava de uma forma bastante invulgar. Encontra-se actualmente no Convento de Cristo, quiçá, por motivos de reforma compulsiva em virtude de desgaste de pernas. Posteriormente publicar-se-á foto da imagem.



Imagens antigas da ponte velha de Tomar

Com os humanistas, e depois com a Reforma e Contra-Reforma, as representações artísticas de São Cristóvão passaram a ser muito criticadas pela falta de historicidade da biografia do mártir, quer na versão Latina quer na distante visão Bizantina, cujo desfecho se deu em 1960 com a remoção do dia deste santo do calendário da igreja católica apostólica romana.

A lenda latina que descreve a aventura conhecida como a travessia de um rio por São Cristóvão, o gigante, com o menino Jesus nos ombros não tem qualquer base histórica e deriva do nome do Santo, Cristophoros, que significa “aquele que transporta Cristo”. De inicio a palavra usou-se metaforicamente, no sentido de “o que traz Cristo no seu coração”; passou depois a ser tomada em concreto e daí a invenção da estatura gigantesca e herculeana do santo e do episódio da dolorosa travessia fluvial, visto aquele menino ter o peso do mundo em si próprio.

Nos últimos séculos da idade média as tradições hagiográficas respeitantes a São Cristóvão – que a Legenda Dourada espalhara, entretanto, por todo o lado – tornaram-se muito populares. Concorreu para isso a crença, então difusamente difundida, de quem visse uma imagem do santo já não morreria nesse dia de morte súbita, sem confissão. Por tal motivo cresceu exponencialmente as representações plásticas do santo, ora pintadas ora esculpidas nas fachadas e naves das igrejas. A bem do povo convinha que essas imagens fossem bem visíveis, e assim além de colocadas em locais públicos, possuíam geralmente dimensões dignas do gigante que o santo tinha sido.

Em Portugal, ao contrário do que aconteceu nos outros países sujeitos às directrizes emanadas do concílio de Trento, existem ainda diversas imagens. Aliás, em contra ciclo com o desaparecimento e destruição das imagens do santo pela Europa fora, Portugal não afrouxou na tradição das colossais representações do Santo.
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Uma das imagens espalhadas por Portugal. Repare-se nas dimensões do santo

Teria sido por estarmos longe dos centros oficiais da Contra-Reforma? Indícios de uma prática heterodoxa tínhamos já pressentido no post sobre a Romã nas pinturas da Morte da Virgem pelas oficinas dos grandes Mestres Portugueses.
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Tomar, pelos vistos, filia-se nessa tradição logo nos primórdios da nacionalidade, independentemente de o encarar como cinocéfalo ou não, e em 1710 quando o Rei D. João V manda construir guardas na ponte velha sobre o Nabão coloca-se uma estátua em Pedra de São Cristóvão, hoje no Claustro da Lavagem do Convento de Cristo, e tanto quanto se houve dizer trata-se de uma figura trajada à romana com indícios de ter tido os "pés dentro de água". Alguns entendem tratar-se de uma figura originalmente romana que depois foi transfigurada em são Cristóvão, cujos atributos são o menino ao colo ou cavalitas atravessando as águas, e, não há vestígios de cabeça de cão neste São Cristovão.

Trajado à romana? Se lerem a biografia de São Cristóvão na Legenda Áurea (ou Dourada), livro medieval onde os artistas plásticos se inspiravam para as suas obras, não encontram qualquer referência ao santo relacionado com os romanos, nem se conhece no mundo ocidental representações do santo trajado dessa forma. Todavia, curiosamente se consultarmos as fontes mais antigas, nomeadamente a história do santo no mundo bizantino encontramos São Cristóvão como tendo servido numa guarnição romana perto de Antioquia.
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Poderia ainda existir reminiscências relativas ao mundo sírio-bizantino em período tão distante do tempo de Gualdim Pais. Julgo que não, caso tenham chegado mesmo a existir, mas é de facto curiosa esta descrição de São Cristóvão. Primeiro como cinocéfalo, e agora como trajado à romana.

Esse São Cristóvão colocado na ponte quando D. João mandou reparar a ponte D. Manuel conjuntamente com as reparações dos moinhos e lagares da Ribeira da Vila, estava virado a sul, logo à entrada, vindo do além ponte e era em tamanho natural. O povo crendo que o pó das suas pernas curava as sezões, então endémicas em Tomar, raspava-lhes, a ponto de quando substituíram as grades de alvenaria por grades de ferro, no final do século XIX para alargar a faixa de rodagem, o Santo mal se tinha de pé. É caso para dizer que não se aguentou nas pernas e tomou refúgio no claustro da lavagem do convento junto a tantos outros objectos reformados.

Esquecido no período oitocentista, a iconografia do santo só ressurgirá no século XX depois de os automobilistas terem eleito para seu patrono o gigante barqueiro.
SÃO CRISTOVÃO DA PONTE
UM INSÓLITO SÃO CRISTÓVÃO - Parte III
Já o tínhamos anunciado e conforme prometido, vimos por meio deste pequeno post dá-lo a conhecer. Optámos por colocá-lo em separado do post anterior mas deverá ser entendido no seguimento do que já tinha sido referido.
De facto, parece tratar-se de uma figura trajada à romana, distanciando-se das imagens vulgarmente conhecidas deste Santo, quer na pintura quer mesmo na escultura.
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“Alguns entendem tratar-se de uma figura originalmente romana que depois foi transfigurada em são Cristóvão, cujos atributos são o menino ao colo ou às cavalitas atravessando as águas, e, não há vestígios de cabeça de cão neste São Cristóvão”.
Todavia, curiosamente, está desprovido dessa parte do corpo, o que poderia levar-nos a especular sobre a sua cinocéfilidade. Apesar de não termos indicações se “perdeu a cabeça” algures nos últimos séculos, ou se assim já se encontrava quando estava na ponte no séc. XIX, a verdade é que, concluímos que devia estar integral, por falta de qualquer referência a esse respeito nas suas descrições. Certamente haveria notícias sobre essa estranha peculiaridade se assim fosse.
Quanto à questão de ter sido uma adaptação de uma figura anterior, talvez coeva à ocupação romana, julgamo-la infundada, em virtude de ser fácilmente verificável que tem representado os pés dentro de água, ou seja, só se poderia adaptar se fosse uma situação inversa.
Devida à estranheza da sua representação contactámos quem do assunto muito conhece. Referiu-nos que, de facto, São Cristóvão terá sido um centurião romano ou, eventualmente, terá servido os propósitos imperiais romanos na versão bizantina, o que justificaria os seus trajes. De facto assim é, mas a hagiografia e iconografia ocidental de São Cristóvão não o consideram assim, pelo que, se mantém como insólita representação, até porque nos ícones do mundo bizantino é representado como cinocéfalo.
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Habitualmente as representações ocidentais do Santo, ao contrário das do mundo oriental, colocam-no com umas longas vestes esvoaçantes, o que não se verifica minimamente na figura em questão, quer na pintura, gravura ou escultura.
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Porém, existem algumas representações em que lhe despem as vestes e o colocam em semelhança com as representações de São Sebastião.
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Seja como for, a intenção principal deste post era dar a conhecer a imagem que não se encontra na internet. Poderão agora os leitores imaginá-lo na ponte, em tempos idos. Muita gente se serviu das pernas do Santo como podem verificar, e não foi para fazer a travessia do rio Nabão.






12/11/2009

QT DA ANUNCIADA VELHA - O EVENTO

Parte III (de IV)
No Jornal "O Templário"
Edição de 10/12/2009
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Quinta da Anunciada Velha
Mistérios por Revelar


O caminho é sinuoso a partir de determinada altura. O casario esconde-se por detrás de uma densa cortina de neblina que adensa o mistério da Anunciação. O local de encontro é um insólito obelisco cujas lendas inflamam a imaginação dos participantes que estão a chegar.”

A Quinta da Anunciada Velha, situada a 3 kms de Tomar, serviu de palco, o fim-de-semana passado, ao 10º Encontro promovido pelo Blog Cavaleiros Guardiães de Santa Maria do Olival (http://blog.thomar.org/). Devido às nascentes naturais existentes na quinta e às aguas discretas que vêem da fonte perene que jorra junto a um tanque envolto em histórias fantasmagóricas é conhecida a sua existência desde 1192, altura em que a Ordem dos Templários, recentemente instalada na zona, adquiriu por escritura a dita propriedade.


Essas fontes, apesar de ainda hoje perdurarem, não foram a presença mais sentida mas sim as águas verticais que assolaram a permanência do grupo durante quase todo o fim-de-semana. Miraculosamente, durante a visita guiada pelo Exmo. Sr. Embaixador António Pinto da França – um dos proprietários – deixaram-se de fazer sentir, permitindo sob a densa bruma de um dia cinzento, conhecer os diversos testemunhos da história da Quinta que acabam por se entrelaçar com os destinos de Portugal. Tal é a diversidade dos monumentos que a visita acabou por ter uma duração de mais de duas horas e meia, ficando para o pequeno-almoço do dia seguinte a continuação da história propriamente dita.


A “peregrinação” aos diversos locais transportou os participantes aos tempos da ocupação romana, da qual ainda hoje é visível uma pequena ponte sobre o ribeiro designado de Cerzedo. Desses tempos imperiais dá-se um salto temporal para a história da pré-nacionalidade lusitana e para a qual contribuiu o lagar moçárabe recentemente descoberto onde se produziu outrora azeite. O enigmático oratório piramidal, lugar sacro, “coração do sítio”, datado possivelmente da época Manuelina, testemunha mais uma das histórias da Quinta; a permanência da Ordem dos Capuchos durante um século e que no seio da modéstia Franciscana recebeu honras régias da parte de Filipe II de Espanha quando veio a Tomar para ser aclamado como Filipe I de Portugal que não deixou de ir visitar humilde lugar. Entre estas histórias acompanhadas dos respectivos testemunhos lavrados em “livros de pedra” chegou a hora de jantar.


Foi o jantar servido na outrora Capela da Anunciação, padroeira da Quinta desde tempos medievais, onde se organizou também uma exposição de livros sobre Tomar e os Templários. Designava-se a dita exposição “Tesouros da Literatura Templária” a qual estava complementada por uma outra exposição – Memórias do Convento de Cristo – que dava a conhecer através de fotografias inéditas a vivência dos Condes de Tomar numa das alas do Convento. Por volta da meia-noite revisitou-se o oratório Manuelino numa tentativa de sentir as energias telúricas que dizem sentir-se nesse local e que possivelmente se interligam com o insólito Obelisco na entrada da Quinta.


No dia seguinte após o pequeno-almoço, e no qual se voltou a conviver com as inúmeras experiências de vida dos proprietários da Quinta, dispersou o grupo pelos diversos monumentos de Tomar tendo-se dado por encerrado o “Retiro Templário
” tendo no entanto ficado a Quinta da Anunciada com muitos mistérios por revelar. "

Brevemente iremos colocar as filmagens da visita



11/30/2009

QTª DA ANUNCIADA VELHA - MISTÉRIOS POR REVELAR

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S Jornal O Templário - edição de 26/11/2009
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Autoria: Degraconis e Bandarra
Parte II (de III)
Quinta da Anunciada Velha em Thomar (cont.)
Para complementar o filme que agora apresentamos sobre a Quinta juntámos um dos textos que foi enviados por email aos que estão na mailing list.

Se a Arte de Contar e ouvir histórias é por natureza um oceano de palavras, a que se pode contar da Quinta da Anunciada Velha, ainda hoje, é Arte de (Re)viver. E se a Arte é um dos meios que une os Homens, propomos desta vez, que o próximo evento se concretize em antigas possessões Templárias, ou seja, numa Quinta que celebrou outrora o Mistério da Anunciação. S



Todas as quintas felizes escondem um segredo e esta esconde vários. O Obelisco mendicante que anuncia a entrada da quinta é já um prenúncio de quantos mistérios esfíngicos se ocultam neste verde vale. Na verdade nada se sabe em concreto do que seria essa construção cónica e para que fins foi ali colocada, nas não são poucos os “peregrinos” que pernoitam na quinta, que não lhe conheçam o segredo. Vestígios de antigos cultos druídicos que utilizavam agulhas de pedra para controlar as telúricas forças da terra? Reminiscência de uma cultura misteriosa como foi a do Megalitismo que no dizer de Mendes Correia foi iniciada pelo arcaico homem lusitano? Chaminé não se sabe de que forno ou de que Athanor, não obstante ser maciço? Túmulo de um Bispo conta o povo. Mais, antigo símbolo fálico que nestes terrenos, longe da vista humana, seria consentido? Todavia, não será despiciente este último propósito tão pouco ortodoxo e tão alheio a uma Ordem que se separou da original numa tentativa de restaurar precisamente valores mais ascéticos e modestos? De facto, o tosco Obelisco data do séc. XVI, é obra dos monges da Ordem dos Capuchos e talvez não seja mais do que um Padrão anunciador da proximidade dos portões do convento. Uma espécie de cruzeiro na ideia de muitos que o estudaram.



Tanto mistério e ainda nem alcançámos os portões da quinta. Que mistérios esfíngicos? Que histórias se guardam dentro da antiga cerca que abrigava uma comunidade de místicos franciscanos?



Como intróito às escassas palavras que se podem por agora despender vamos já dedicar-nos ao ex-líbris da quinta. A intrigante Torre coroada por coruchéu piramidal octogonal e na qual ainda se consegue vislumbrar antiga arte manuelina e rosas semelhantes a que João de Castilho tanto gostava de usar no Convento de Cristo e usou na designada adega da iniciação, no dizer do Umberto Eco.


Não é esta menos inspiradora para tais estranhas práticas, senão mesmo idealizada num sentido próximo a esse, como seja a da transcendência da morte, tão cara aos exercícios espirituais dos monges franciscanos. Exemplo disso encontramos na singular capela dosossos em Évora ou mesmo nas capelas escondidas que esta Ordem espalhou pela serra da Arrábida.

Mas escondida no seio de um cenário edénico está também a enigmática construção piramidal que aproveitaremos para tertúlia noite fora, não fosse este local – contou-me o proprietário – propicio para o aparecimento de espectros que só a alguns é dado o privilégio de os ver. E se isso não passa de delírios fantasmagóricos de alguns, certo é, terem sido estranhas as circunstâncias relacionadas com a construção de uma piscina junto a este local. De tal forma estranhas que não passou essa construção de uma tentativa pois acabou-se por ceder aos misteriosos desígnios da natureza (sobre)natural.




Esta quinta é de habitação antiga. Conhecida a escritura que em 1192 a transfere para o domínio da Ordem dos Templários, e não por pouca monta – o que deixa perceber já a sua importância – acaba mais tarde por ser transferida para a Ordem de Cristo. Cala-se o tempo de notícias durante uma centena e meia de anos para surgir novas referências documentais à quinta no séc. XV, desta vez, na posse de fidalgos que logo a transferem para a Ordem dos Capuchos. Muitas são as voltas que esta quinta anuncia, e lá volta mais tarde às mãos dos freires da Ordem de Cristo até esta se extinguir com o “Mata Frades “ Joaquim António de Aguiar em 1834.

Chegados aqui podemos falar agora de história viva. Viva porque corre essa história nas veias dos seus actuais Guardiães. Está a quinta ainda na posse de descendentes do estadista Costa Cabral – primeiro Conde de Tomar que adquiriu parte do Convento de Cristo. Acerradíssimo defensor de valores que hoje constituem a base da nossa Constituição da República, António Bernardo da Costa Cabral adquiriu a quinta após os freires conventuais da Ordem de Cristo se terem extinguido.
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À semelhança da visão que deve ter tido quando inesperadamente se propôs adquirir os bens anteriormente pertença dessa nobre Ordem Portuguesa que deu mundos ao mundo, Costa Cabral, possivelmente conhecedor da antiquíssima história desta quinta, acabou por arrolá-la nos bens que vinha acumular neste concelho. E se conhecia a sua história e talvez a filiasse em tempos primitivos da nossa nação, não saberia concerteza que ainda mais antiga seria a quinta. Existe uma pequena ponte de pedra que ainda à poucos anos se julgava ser obra dos Capuchos, mas para surpresa de todos recuou nas origens em mil anos de história quando a arqueologia a descobre como sendo de engenharia Romana.


Para terminar porque já vai longo o texto da apresentação, e não por falta de história para contar – fica essa para a vivência no encontro – só quero acrescentar que na década de oitenta iniciou-se umas remodelações nos edifícios, no decorrer da qual se descobriu um antigo lagar moçárabe – hoje visitável – junto à fachada que dá para o vale da vinha. Num outro recanto do pátio das habitações e por debaixo destas – que se localizam sobre as antigas, pois sempre foi naquele local que se construiu desde a idade média – descobriu-se um insólito túnel que atravessa subterraneamente as habitações e que poderemos depois percorrer sob inspiração das iniciações dionisíacas, visto ter inicio na adega.

Densa é a bruma que não deixa adivinhar fácilmente de forma positivista o porque de cada um dos testemunhos arqueológicos da tradição portuguesa encontrados no seio desta quinta, mas pode o visitante dilatar a sua imaginação e pelo caminho da subjectividade alcançar a dimensão espiritual e axiológica da história de Portugal que fazem parte da Arte de Contar a história da Quinta da Anunciada Velha em Thomar.


Podem agora pensar que inadvertidamente esquecemo-nos de referir a Capela, mas se escusamo-nos a referi-la detalhadamente é porque a essa caber-lhe-á a Anunciação, pois é essa a razão da designação da Quinta. O Mistério da Anunciação é interior e da experiência que o Degraconis teve da sua estadia só se pode dizer que este evento é a Não Perder.

Não temos disponível fotografias da ponte romana, do lagar moçárabe e do subterrâneo por onde surge a água, mas logo que possível as colocaremos.

10/28/2009

O CÚPIDO DA ANUNCIAÇÃO

Autoria: Degraconis e João
Parte I (de III)
Introdução à Quinta da Anunciada Velha em Thomar

Apesar de ainda não se ter anunciado em cartaz o próximo evento que ocorrerá em Dezembro, inicia-se desde já por partes uma série de posts dedicados ao local onde este irá ter lugar. Tal é a força do lugar que nos impele a tanta revelação.
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Expressões como “quem puder entender que entenda” ou “quem tiver ouvidos que oiça” não são de todo estranhas à literatura místico-religiosa de cariz hermético, as quais deixam antever que o grau de entendimento da obra depende do nível de sapiência de quem as lê.

Aludem essas advertências para a razão do homem ou para um dos órgãos dos sentidos, como sejam os ouvidos ou para os olhos no caso da expressão “quem tiver olhos que veja”. Decerto são expressões alegóricas, contudo, numa literatura de diferente espécie ou estilo, encontramos uma outra que sem rodeios e metáforas se dirige como uma seta ao que se torna imprescindível “ter” para entendimento da obra: Amor, simplesmente Amor. Refiro-me à expressão Camoniana inserida nos Lusíadas, como que a glosar a obra, “E sabei que, segundo o amor tiverdes, / tereis o entendimento de meus versos!” Dessa forma declara Camões que a épica obra que narra e enaltece a aventura dos Lusitanos só pode-se revelar totalmente segundo o Amor que tiverdes.
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Não será abusar se insistir que algumas das grandes obras portuguesas só são susceptíveis de acesso total através desse mesmo Amor que os Lusíadas exigem, e não me refiro à literatura somente. Também outros épicos, talhados em pedra, o evocam. Não é possível entrar no convento de Cristo – pelo pórtico principal – sem que não seja o visitante atingido pelas setas que uma criança alada, que se esconde na aduela superior que fecha o arco, segura na mão direita como que pronta a lançar sobre quem se atreva a transpor o pórtico. Trata-se de uma representação, como há poucas, de um cupido que sinaliza a entrada naquele espaço como o início de um circuito espiritual ou iniciático que obriga ao despertar do Amor. Caso quiséssemos ir mais longe na interpretação dessa alegoria, e na visão da tradição oitocentista dos escritores herméticos, como Sampaio Bruno, Rosseti ou Grasset d’Orcet, para os quais, desde o século XIV, o amor enquanto conceito equivale a “Anti-Roma”, sendo que Amor é anagrama invertido de Roma, poderíamos concluir que aquele local que foi outrora templário foi então sede dos “Fieis do Amor”, ou seja, infiéis de Roma.

Estaríamos assim, perante um enunciado heterodoxo nos seus preceitos secretos, o enunciado cifrado de uma entrada numa igreja “interior” ou “joânica” – António Quadros refere tal conceito a respeito da religião Templária - que se oporia à igreja papal. Seria o enunciado da igreja dos “Cavaleiros do Amor”, entendido como amor iniciático.

O destaque dado a essa figura, em lugar privilegiado no seio desse pórtico, é deveras interessante e intrigante, que aliás podemos referir como aparentemente desadequado num contexto monástico, visto o cúpido quinhentista ser iminentemente profano. Porém trata-se de um cupido sem venda, o que pode explicar e até justificar a falta de pudor em sujeitar todos os que entram nesse convento aos dardos ou setas dessa criaturazinha. Este amor não é cego e sabe bem o que faz. De igual modo surge no púlpito do refeitório do Convento duas crianças aladas inspiradas no modelo do Eros clássico – putti – uma com a aljava e outra com a tocha do Amor. De facto, muito segredo esconde a Arte Manuelina ainda nos dias de hoje.

O símbolo por excelência do nascimento espiritual é o ovo, elemento que encontramos logo após transpormos o pórtico. Os ovos alinhados numa fieira fecham a alegoria que se inicia na parte exterior com o cúpido. Estamos perante um novo homem – usando palavras de São Paulo - o homem que morreu para o mundo profano e que se inicia na religião que une (re-liga) como um Nó o domínio terrestre e o domínio celeste.


Mas não é esta alegoria exclusiva do Convento de Cristo pois podemos encontrar semelhante motivo no mosteiro dos Jerónimos, também este de lavra Manuelina. Tal é o Amor nesses monumentos que chegam a ser considerados poesia talhada em pedra.


Mosteiro dos Jerónimos – Os ovos entre os quais se intercalam as setas cupidianas
Impõe-se assim que a única chave hermenêutica que o poeta e os arquitectos do Manuelino consideram susceptíveis de nos permitir o acesso ao sentido da sua obra é o Amor. A compreensão real desse discurso amoroso que permeia todas estas obras só é possível a partir de uma real vivência ou potência do mesmo amor, que possa iluminar afectivamente um entendimento baseado na razão só por si impotente para abarcar o que o excede.

Já que anteriormente referi alegoricamente a ideia de “Nó”, e não foi ingenuamente, convirá atender ao seu significada sucintamente, já que se liga aos demais que temos vindo a referir, ocupando algumas vezes o lugar que o cúpido tem no Convento. É o caso do pórtico da Capela da Santíssima Trindade da Regaleira, tornando-se assim prova inequívoca do seu simbolismo sagrado, afastando a teoria que o remete para uma função de motivo ornamental puramente de significado marítimo.

Laço do Amor no arco do pórtico debaixo do Deus Pai que abençoa quem entra
Carece ainda hoje de plena explicação a profusão com que surgem na arquitectura Manuelina, mas a sua colocação em locais tão primorosos só podem levar à conclusão de que estão sob influência do sistema hermético do neoplatónico Marcílio Ficino, onde o Nó é concebido como reflexo do amor que garante a mediação entre os componentes universais: “amor nodus perpetus er copula mundi”, “o amor é nó e vínculo perpétuo do mundo”. O laço ou nó opera a ligação através do espírito, entre o corpo e a alma e simboliza o atingir da Graça Divina – não é esta o que a igreja pretende? – e atribui aos seus portadores ou que nela se embrulhem o título de Iniciados.

“Amor é fogo que arde que não se vê” mas também, sublinhe-se, que arde e não se extingue quando se refere a um amor na linha de Platão – amor divino – e prova dessa teimosia em não se consumir encontramos precisamente na Quinta da Anunciada Velha em Thomar. Passados séculos e apesar das vicissitudes do tempo desenterrou-se há poucos anos um prato no qual surge um peculiar Cúpido que vê, tal como o do Convento de Cristo. Portanto não expressará este o Amor cego ou o Cúpido que na idade média se associava a amores carnais e terrenos mas sim um amor divino e celestial que sabe bem o que faz. Aliás as inúmeras representações de Cupido (Eros) na arte helenística e romana nunca mostram o tema de venda cobrindo os olhos desse jovem alado.

De data incerta mas balizável entre o séc. 16/17, talvez obra da
Ordem de Cristo ou mesmo da Ordem dos Capuchos (?)
É tarefa ingrata tentar conciliar as diversas representações do cupido e será expor o assunto de forma ligeira se dissermos que o cupido com a venda, ou seja cego, seja a representação do amor sensual, e que a sua ausência significaria o amor divino ou o “amor que Deus ou os Deuses nos têm”. Todavia talvez nos sirva para os efeitos pretendidos. Sobre esta base podemos então ver o cupido do pórtico do convento como causador de um amor que só nos pode aproximar da divindade; não é este cego e só se faz portador de uma seta que tomaremos como sendo a de ouro, a que desperta ou inflama amores. Não é atípico vê-lo munido de duas setas, uma de ouro e a outra de chumbo, esta última antítese da primeira, ou seja, lançada para extinguir o amor ou eventualmente para despertar rancor ao amor, mas desta não se faz detentor.

Na ideia do proprietário esta representação do Cupido que vê, não obstante ser dotado de venda embora transparente e deixando transparecer os olhos, é prova inequívoca de que afinal não é o amor assim tão cego quanto às suas “diabruras” Contudo julgo que, e não desconsiderando tal opinião, ser uma alusão quanto ao tipo de amor que traz na ponta das suas flechas, ou seja, uma amor igual ao que encontramos no Convento e nos Jerónimos em Belém, um amor sagrado.

Iniciámo-nos deste modo no Amor com esta extensa introdução, o qual evoco para nos guiar ao longo dos posts seguintes, tal como Vénus e uma legião de Cúpidos guiou os Portugueses nos Lusíadas até à ilha dos Amores.
Edificação Manuelina na Quinta onde se verifica restos de Corda Manuelina


Notas de rodapé:
1. A ideia deste ensaio era debruçarmo-nos unicamente sobre o Cúpido da Quinta da Anunciada, até porque a análise iconográfica e interpretativa só por si dava para tecer substanciais considerações, mas como sempre acabámos por ser chamados pelo Convento e para não abusar na extensão do post, infelizmente, não lhe demos o destaque merecido. Requer este um debate mais profundo pois levanta alguma problemática a nível da interpretação visto ser uma mulher representada – os cabelos só por si denunciam essa intenção – e isso poder ser uma alusão directa ao amor sensual. Apesar de algumas vezes o Cúpido ser representado como do sexo feminino é mais usual vê-lo na figura de como uma criança, um andrógino ou mesmo um jovem adolescente, excepção de se faça à arte alemã onde possivelmente devido ao facto de as palavras “Liebe” e “Minne” serem ambas do género feminino, verifica-se uma forte tendência para personificar o Cúpido cego como uma mulher. Na Alemanha a figura da mulher nua conservou-se – com ou sem venda – em inúmeras representações tardo medievais do amor puramente sensual, representações essas semelhantes à que vemos no prato. A inclusão de um coração talvez reforce a ideia de um amor menos celestial do que enunciei no texto. Estas considerações levam-nos a pensar como poderíamos conciliar a existência desse prato no seio dos preceitos da Ordem dos Capuchos ou até dos da Ordem de Cristo. Contudo o tema do Cúpido cego foi também um tema moralizante, uma forma de mostrar que o Cúpido símbolo do amor sensual está nu e cego porque priva os homens das suas roupas, dos seus haveres, do seu bom senso e sensatez. Ainda numa mitografia moralizante podemos dizer que está cego porque cega as pessoas e leva-as a perder o discernimento guiando-se estas unicamente pela pura paixão. Deixaremos este debate para o evento na Quinta.
2. A influência de Marsilio Ficino (1433-1499) na história do pensamento ocidental é impressionante. Além de ter traduzido para o latim textos importantes da tradição neoplatônica, nomeadamente Platão, Ficino presidiu a Academia de Careggi, reunindo importantes humanistas no auge do Renascimento, tendo sido um protegido dos Medicis. Os seus tratados sobre amor, beleza, luz, magia e imortalidade da alma influenciaram marcantemente a produção de outros pensadores.

10/08/2009

NAS ENTRANHAS DO CONVENTO

Notícia do jornal "O Templário"



(clicar na imagem)
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NAS ENTRANHAS DO CONVENTO

A mística templária voltou a reunir este fim-de-semana em Tomar os leitores do http://blog.thomar.org/. Com um programa repartido por dois dias, contou com a presença de algumas dezenas de pessoas oriundas dos mais diversos pontos do país.

Fundado nos primórdios da nacionalidade e sujeito a uma prática quase ininterrupta de mais de 500 anos de construção onde não falta a presença de qualquer estilo arquitectónico, o Convento de Cristo é uma espécie de portal para o entendimento do sentimento Português. Mas quantas portas não foram ainda abertas? Quantos corredores não foram ainda percorridos? Quantas peças do puzzle da história de Portugal se escondem para lá dos percursos do Convento hoje visitáveis pelos turistas?
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Nas últimas décadas temos assistido à abertura de muitas zonas que durante anos estiveram vedadas por falta de reabilitação e segurança, ou mesmo por falta de recursos humanos. Todavia, o Convento de Cristo é um complexo militar medieval e conventual de considerável dimensão – nove claustros – que ainda hoje não permite a desocultação a todos os seus segredos. Desta feita, e por consideração ao interesse que o http://blog.thomar.org/ tem vindo a demonstrar pela história e património de Tomar, foi possível por meio do Excelentíssimo Rui Ferreira – do Convento de Cristo – conhecer o que se encontra por detrás de certas portas fechadas que intrigam qualquer visitante.

Se em eventos anteriores privilegiou-se a vista a locais ligados com a permanência da Ordem Templária no castelo, desta vez optou-se pela desejável visita aos espaços ocupados no séc. XIX pelo hospital militar. Construção de uma época tardia – séc. XVII – esta zona do Convento esconde vestígios Templários, talvez o único elemento pertencente à antiga muralha que açambarcava os aposentos da Ordem do Templo. No piso inferior do local atravessou-se um extenso corredor de dependências que ainda só à 40 anos foram postas a descoberto, findo o qual alcança-se uma porta, ligeiramente elevada em relação ao solo, e atrás da qual se esconde então os restos da muralha ou do um antigo Torreão Templário, que entretanto tinha ficado ocultado pela construção deste edifício.

A curiosidade em visitar a designada Sala dos Cavaleiros, situada numa das pontas deste antigo hospital Militar, anteriormente enfermarias do Convento, foi desta vez sanada. Curioso foi também saber que em tempos esta sala serviu de enfermaria onde era usual os enfermos, deitados nas suas camas, lançarem o seu calçado contra o belíssimo tecto de caixotão que maravilhou os visitantes e onde se inscrevia uma frase em latim não decifrada completamente.
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Mas se alguns “dão com os pés” no património e outros satisfazem-se pela visita aos sítios mais emblemáticos deste magnificente monumento, outros exigem ir mais longe, onde outros não se atrevem a ir. Poderíamos dizer em bom Português que fomos “mandados para a merda”. De facto foi o grupo levado às "entranhas" do Convento; visitou-se uma galeria semi-subterrânea, à qual se acede através de um escuro túnel descendente e que nos leva a um cenário cinematográfico digno de um Indiano Jones ou Lara Croft, não obstante ter este como função a recolha das necessidades dos monges conventuais em tempos idos. Desta sala com um pé direito elevadíssimo sai um outro túnel que atravessa toda a horta dos frades e encontra a luz do dia na Mata dos Sete Montes, onde serviria para efeitos de adubagem. Para demonstrar o quanto diverso é o grupo basta dizer que um dos seus elementos avançou de imediato com uma possível solução para a resolução dos problemas relacionados com os odores oriundos do túnel que ainda hoje, e por ter sido bloqueado incorrectamente à bastantes anos, esconde necessidades antigas libertando odores difíceis.
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Difícil é também o entendimento da torre D. Catarina, sobre a qual recai algumas das lendas que a tomam como entrada – ou saída – do mítico túnel que ligaria o Castelo à Igreja de Santa Maria dos Olivais. O amontoado de construções e as tentativas logradas no seio desta torre para se encontrar esse intrigante túnel, torna este local ainda hoje indecifrável em termos de funções que teria desempenhado no passado. Não obstante o Rui Ferreira dar argumentos que de certa forma tornam a ideia de uma passagem secreta nesta torre um tanto ao pouco inverosímil, foi este local um dos pontos altos da visita pela aura de mistério que o rodeia.
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Muitas aventuras mais se viveram, não fosse o cartaz do programa do evento ter anunciado à meia-noite uma Grande Aventura Templária. Após o jantar de confraternização – já o nono – o grupo reviveu o ataque que esta cidade sofreu em 1190 da parte do Ya'qub al-Mansur com os seus 400 mil cavaleiros, e ao qual resistiu o “duro” Gualdim Pães. Segredos, confissões, batalhas e recompensas fizeram deste jogo uma arrebatadora aventura onde não faltou que um Quiz Show que testou os conhecimentos dos elementos do grupo, e no qual se inseriu alguns jogos tradicionais Portugueses, e como não poderia deixar de ser nesta cidade mágica de Tomar, tudo muito regado com magias e maldições.
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No dia seguinte rumou o grupo para a Vila de Dornes, onde se encontra uma Torre Templária, quiçá, talvez de tempos ainda mais recuados. Foi o grupo surpreendido pelo o acolhimento que teve pela senhora responsável pela igreja adossada à torre.
Desvendou-se o ouro que os habitantes de Dornes encobriram com uma pintura apressada do órgão – era este forrado com folha de ouro - em virtude das invasões francesas e que apenas à dez anos se voltou a descobrir quando do restauro desse órgão que tem trazido a esta vila gente de vários locais da Europa para nele tocarem.

O blog reúne informalmente um grupo de pessoas que tem vindo a crescer e como tal, espera num próximo evento instalar-se na Quinta da Anunciada Velha, como forma de promover o convívio entre os participantes, não fosse este uma antiga possessão da Ordem de Cristo. “Esta é a minha praia”, assim se referia um dos participantes no fim do encontro sobre o que tinha encontrado no seio deste grupo e evento. De facto são muitos os “marinheiros” que tem vindo desaguar ao Mouchão e que têm repetido a presença nos eventos. Que as águas Santas ou as atormentadas águas do Adamastor tragam mais navegadores a estes eventos, é o desejo do Blog. E que juntos embarquem na defesa, promoção e valorização do património de Tomar. Um bem-haja a todos.
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