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5/24/2010
CETHOMAR – CÍRCULO DE ESTUDOS DE THOMAR
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ASPECTOS DESCONHECIDOS DA CHAROLA
4/20/2010
LÁPIDE DE GUALDIM PAIS
Autoria: Semrosto
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...a campa e respectivo epitáfio...
No jornal regional A Verdade de 1895 – ano com múltiplos acontecimentos de bastante interesse – e no mesmo dia em que é dada à estampa a carta de Vieira Guimarães que apela para que se edifique um monumento em memória do fundador da cidade, surge na última página uma notícia de última hora: Descoberta da Lápide de Gualdim Pais.
Remete esse pequeno artigo de última hora para a edição seguinte, na qual então iriam dar conhecimento da importante descoberta. É esta a notícia que publico na integra com muito agrado e que espero que seja legível visto não estarmos com tempo para a colocar em texto. Porém esperamos nos próximos tempos transcrever o texto para uma forma de mais fácil leitura. Caso alguém o faça entretanto agradecemos que nos envie para publicação imediata, e para esse efeito podemos mesmo mandar o jornal.
Antes de deixar-vos na paz do senhor para lerem a notícia, sublinho que a lápide não foi a única descoberta desse mês, e poderão dar conta de uma outra que se encontra no fim do texto e para a qual o Degraconis alerta visto a lápide ser já bem conhecida e a outra ser apenas do conhecimento de alguns. Encontra-se no pórtico e infelizmente não temos foto que permita ver nitidamente o que irá ser descrito. Sabem porque foi descoberta a lápide? Temos resposta mas que não está no texto.
(ver este texto no tópico)
Deixaremos no entanto aqui uma foto relativa à segunda descoberta que é descrita na parte final do texto. Diz-nos Vieira Guimarães que a data inscrita pode eventualmente ser coeva do tempo em que Gualdim Pais ainda era vivo. Esta incrição tem sido esquecida por todos e vista por poucos, apesar de estar à frente de toda a gente que visita a igreja.

"Na porta principal em duas pedras vêem-se algumas letras, indicando que grande inscrição alli tivesse existido. Do que resta mais nitido só ha a palavra Era e mais 2XIII que parece indicar o ano da fundação daquele templo. (...) somos levados a crer que será a de 1213, nos quais tirando os 38 anos de avanço da Era de César teremos o ano 1175, ano em que o Gualdim ainda era vivo."
No meu próximo post, ainda antes da publicação da insólita foto de Tomar antigo, irei tentar transcrever a carta do Vieira Guimarães que culminou na edificação da estátua que tentei proteger com o Voltron à duas semana.
COMENTARIOS NO TÓPICO "DO TEMPLO DE SANTA MARIA" DO FORUM
(pag 7)
4/13/2010
MENTIRA TEMPLÁRIA
Co-autoria: Voltron, SemRosto e Degraconis
Não resisto a narrar um episódio caricato que teve acontecimento na semana transacta e que envolve alguns dos assíduos Cavaleiros Guardiões de Santa Maria do Olival. Comecemos então pelo início.Nas minhas incursões pela Serra de Sintra no âmbito de um post em elaboração sobre Sintra Templária e o mistério dos míticos túneis deste Éden terreal, tive um percalço na minha robusta saúde. Precisamente após, ter passado mais uma tarde na companhia dos estranhos Deuses que habitam todo aquele promontório lunar, por ventura a da Páscoa.
O Guardião do Parque da Pena e um dos túneis que não é simplesmente uma mina de águaErguido das ruínas como um homem novo sou de imediato contactado por um dos Guardiões mais activos destes últimos tempos. Agitado, transtornado e revoltado deu-me notícias que ia-me colocando mais uns quantos dias na horizontal.
“Querem retirar o Mestre Gualdim da praça da República para novo local. Foi aprovado pela edilidade camarária com excepção dos independentes”
“Tás-te a passar? – retorqui eu”
“Não meu. Querem-no levar para a rotunda nova. Os tipos devem-se andar a picar.”
“Achas? Com quê”
“Com insanidade, só pode”
Estátua de Gualdim Pais na antiga Praça D. Manuel O apelo a uma nova Cruzada imponha-se. Não iríamos ficar de braços cruzados. Ainda naquela noite – debilitado – iria escrever uma denúncia pública para enviar para os meios de comunicação e demais. No dia seguinte iríamos entrar em contacto com os partidos que votaram desfavoravelmente. Os Cavaleiros activos em Tomar por sua vez também já tinham um plano secreto.
Ainda nessa mesma noite após contactos para Tomar tive conhecimento de que devia tratar-se apenas de uma brincadeira – a notícia vinha no jornal O Templário do dia 01 de Abril.
A hora ia avançada e não voltei a contactar os nossos amigos de Tomar. Calculei que no dia seguinte, senão mesmo na própria noite, iriam ler no fórum de que se tratava de uma mentira de muito mau gosto mas com muita piada.
Logo após a estrela matutina ter desaparecido do horizonte é a câmara invadida por dois indivíduos – quem seriam? – que apressadamente e atabalhoadamente na passada, se lançam aos funcionários de primeira linha da Câmara de Tomar.

A confusão estava montada. Os funcionários não sabiam explicar em concreto o que se passava. De gabinete em gabinete acabam por falar com alguém que tinha estado na última reunião camarária e que não se lembrava do assunto ter sido discutido.
Para pacificar e acalmar os ânimos teve-se que ligar para o Jornal – afinal de contas por ali ninguém estava a perceber o episódio - o qual tinha publicado a notícia, pelo que devia este então a assumir ser uma partida do dia das mentiras.

Tudo esclarecido. A história teria acabado em bem mas… saiu ontem no jornal O Templário a seguintes notícia “Principal rotunda de Tomar vai entrar em obras”

Rotunda da Fonte Cibernética também conhecida como rotunda nova
E esta hein! Ainda existirá quem acredite…
A ESTÁTUA DE D. GUALDIM PAIS
Breves apontamentos
Arco na Corredoura - Comemorações do ano de 1895
Curiosamente, logo após a ideia de Vieira Guimarães foi descoberta na Igreja de Santa Maria dos Olivais – 21 de Abril – a lápide funerária de Gualdim Pais, tendo sido o próprio e o Pintor Manuel Henriques Pinto, director da Jacome Ratton os autores desse desenterrar do passado e que hoje se encontra na parede da segunda capela da igreja.

Lápide de Gualdim Pais
Constituída a comissão de festas para as comemorações de 13 de Outubro – VII centenário – a câmara aprova a quantia de 100 escudos para erigir o tal monumento. Às dez horas de dia 13 de Outubro é então lançada a primeira pedra para o monumento que se havia de erigir à memória do fundador da cidade.
Infelizmente devido a várias vicissitudes só em 1938 são cumpridas as resoluções do VII Centenário de Gualdim Pais, no entanto pelo que percebemos só foi a estátua inaugurada no dia 9 de Julho de 1940, não obstante ser a primeira data, a gravada com as outras duas importantes datas da cidade.
Infelizmente o grande entusiasta da ideia e promotor dos festejos de 1895, já não se encontrava presente, tendo-o Deus chamado pouco tempo antes. 3/19/2010
O SONHO DE UMA COISA: THOMAR
NOTÍCIA NO JORNAL "O TEMPLÁRIO"
DIA 18 DE MARÇO 2010
A cidade de Tomar comemora este mês de Março os 850 anos da fundação do Castelo dos Templários, conforme inscrição lapidar na torre de menagem que invoca o dia 1 de Março de 1160 como data de início da construção. Como não poderia deixar de ser, o Blog Cavaleiros Guardiões de Santa Maria do Olival (http://blog.thomar.org), também se associa às festividades promovendo mais um encontro entre os participantes do blog e demais interessados, tendo escolhido este fim de semana em virtude de corresponder ao dia 1 de Março do anterior calendário Juliano usado na época medieval. Com efeito, que local poderia ser mais privilegiado para servir de palco a mais um encontro do que o Castelo?
Muitos são os que já tiveram a oportunidade de contemplar a Janela do Capítulo no Convento de Cristo, mas tantos não serão os que possam invocar tê-la visto com o contorno preto de um céu cheio de estrelas. Assim foi este evento.
João Fiandeiro da APTC Associação Portuguesa de Turismo Cultural – afinal de conta era de turismo cultural que se tratava este evento – o Prof. Doutor Fernando Larcher, presidente do GACC – Grupo de Amigos do Convento de Cristo – também o grupo é de certa forma “amigo” deste monumento – a sua esposa Prof. Doutora Madalena Larcher que iria apresentar um inédito da Ordem de Cristo, o Mestre Rui Gonçalves, também do IPT – Instituto Politécnico de Tomar – e por fim mas não menos desconsiderados, o Luís de Matos e Sérgio Veloso, o primeiro para fazer uma Resenha Histórica das Ressurreições Templárias dos últimos séculos e o segundo para dar a conhecer uma banda desenhada sobre a biografia de Gualdim Pais que se espera publicada no decorrer deste ano.
Diversas são as lendas que rodeiam inúmeros factos relativos a Tomar, dos quais o mais sobejamente conhecido é a ideia de que existiria – ou existe – um túnel que ligaria a Igreja de Santa Maria do Olival ao Castelo Templário. Dá-nos conta dessa lenda oral que corre por tradição entre o povo, os ilustres, J.M.Sousa no livro “Noticia Descriptiva e Histórica da cidade de Thomar” de 1903 e Amorim Rosa no livro “História de Tomar” de 1965, por exemplo. De certo trata-se de uma efabulação criada a partir das histórias recambulescas dos mistérios Templários, mas não deixa de fazer parte do “sonho de uma coisa”: Thomar.
Serão estes resultados, após estudos mais detalhados e minuciosos, alvo de publicação segundo indicação dos promotores dessa investigação, que alias não procuravam através dessa prospecção concluir pela existência ou não de criptas ou subterrâneos, tão só comprovar o que os documentos do Arquivo da Torre do Tombo relatavam quanto ao original templo de monges “negrados”.
A hora avançada, e com muita pena, não permitiu que se realizassem as restantes apresentações, mas nem por isso sentiu o grupo que a “cruzada” não tivesse comprida. Sentiram os participantes muita honra em ter contado com a presença de pessoas de grande credibilidade nestes assuntos históricos e muito honrado ficou também com a presença da Dra. Iria Caetano – directora do Convento de Cristo – que na qualidade de zeladora desse monumento presenteou-nos com uma visita para conhecer então quem eram os Cavaleiros Guardiões que trimestralmente fazem uma incursão pelo concelho.
Para terminar esta história só nos resta glosar uma das frases da intervenção do Prof. Doutor Larcher que diz algo semelhante a isto: “muitos podem procurar o tesouro templário e pensá-lo como algo material ou escondido, mas o verdadeiro tesouro da Ordem do Templo ou da Ordem de Cristo, como sucedânea da primeira, está à vista de todos. É o património legado à humanidade e a sua grandiosa história”.
Foi neste tesouro que passámos a noite em prol da salvaguarda, protecção e promoção da cidade de Tomar. Divulgar e viver os monumentos e a sua história é garantir que os pequenos "iniciados" pela espada de Gualdim Pais os poderão dar a conhecer aos seus netos…. Que a memória deste evento seja digna dos poemas com que o João Patrício nos deleitou durante a noite no seio da poesia que João Castilho lavrou em Pedra.
ENTREVISTA
NO JORNAL "O TEMPLÁRIO"
DIA 18 DE MARÇO 2010
Acho que essa resposta deveria ser dada pelos seus fundadores, não obstante terem contado com a minha acerradíssima participação desde os primórdios do Blog. Talvez este facto legitime-me a responder-lhe que tudo parte da ideia de criar um veículo que permitisse dar a conhecer a história de Tomar e os seus mistérios. Não existe em Tomar nenhum outro blog que tenha tanto enfoque nos intrigantes factos que rodeiam esta cidade Templária. Inevitavelmente, e visto um dos seus fundadores ser das áreas do restauro e conservação, foi o blog o meio usado para fazer denuncias sobre atentados ao património. Hoje mantêm a mesma filosofia e procura através da divulgação do património Nabantino protegê-lo das negligências de algumas entidades para com este.
E o Tesouro Templário?
Estamos aqui na Igreja de Santa Maria, pelo que posso revelar-lhe que o Tesouro Templário esconde-se aqui mesmo. Aqui, mas também ali no cimo daquela colina. Se no entanto fechar os olhos e pensar na história dos Templários também lhe poderei dizer que esse Tesouro está em si. Não me leve a mal mas o que quero dizer é que apesar de existir muita gente ávida de encontrar esse tesouro escondido algures numa comenda ou num castelo, na verdade maior tesouro não poderá ser do que os feitos da Ordem. A sua história, o seu património e também a mítica que tem preenchido o sonho de muitos dos que aqui vem.
Os responsáveis do blog hoje não são por inteiro os fundadores. A determinada altura o Ricardo Azul retirou-se. Tem alguma coisa a dizer disso?
A minha entrada é posterior à sua saída e tardia em relação a esse momento. Posso no entanto adiantar que não se tratou de nenhuma querela entre os responsáveis na altura, tão só a indisponibilidade do Ricardo para continuar o árduo trabalho que vinha desenvolvendo em redor do Blog, não obstante nem sempre as opiniões entre eles convergirem. Podemos dizer que essencialmente foram motivos profissionais que estiveram envolvidos. Hoje é um jovem com o seu próprio negócio. Saliento no entanto que foi incansável no trabalho que desenvolveu, foram dezenas e dezenas de postes colocados no blog no seu tempo. Os postes de Santa Iria são um exemplo disso.
Que futuro para o Blog e para o grupo que hoje reúne à sua volta?
Antes de mais quero inscrever nesta entrevista algo que nos entristece a todos: A representação ou participação de Tomarenses nestes eventos e no próprio blog é escassa. Não sei se será de estranhar mas é um facto que não conseguimos explicar. Quanto ao futuro não o consigo prever. Adivinho que o crescimento que tem sido exponencial de evento para evento em termos de participação poderá vir a trazer alguns condicionamentos quanto à organização dos encontros. Como poderemos levar cem pessoas a visitar a torre de menagem? Como poderemos instalar cem pessoas na Quinta da Anunciada Velha? Desta vez tivemos mesmo que ocupar mais do que uma residencial. Entende? Designamo-nos muitas vezes como grupo, o que deve dar ideia de uma hierarquia ou organização, mas em boa verdade somos um grupo bastante informal, e por ventura bastante jovem. Tocam as trombetas para reunir em Tomar para um evento e lá se encontram todos em Tomar. É engraçado. Tal é a força que atrai tanta gente. Julgo que o nosso papel será o de continuar a divulgar o património de Tomar, assim como denunciar através do blog, do jornal ou através de carta às entidades competentes, eventuais problemas ou atentados ao que hoje se pode considerar o tesouro templário que se encontra à vista de todos. Todavia talvez exista umas ideias para o futuro mas será precoce falar delas por agora.
Que papel pensa ter no seio do Blog visto ser o que tem mais visibilidade?
Simplesmente sou um dos elementos organizadores destas coisas. O que anda de picareta na mão e cabeça na Charola.
2/24/2010
COMEMORAÇÃO DOS 850 ANOS

A sessão iniciará às 16hs. Mais informações no site: http://www.socgeografialisboa.pt/ ou no forum tópico de Notícias, Eventos e Divulgação, página 10, onde podem ver em detalhe o programa.
2/23/2010
SANTA MARIA DO OLIVAL
Este post foi escrito nos primórdios do blog mas devido à sua longa extensão não teve ainda oportunidade de surgir publicado, não obstante ter sido distribuído na altura aos participantes dos encontros em formato de pequeno livro A5. Encontra-se actualmente a ser revisto. Surge o post de São Cristóvão precisamente de um parágrafo deste ensaio que entendi merecer maior desenvolvimento.
2/22/2010
SÃO CRISTOVÃO DA CHAROLA – Parte I
Encontra-se numa pintura mural da Charola Templária em Tomar um insólito São Cristóvão representado como cinocéfalo, ou seja, com cabeça de canídeo. Pretende este post revelar e dar a conhecer o motivo dessa misteriosa representação. Serve também de complemento ao post anterior quanto à influência que o médio oriente pode ter exercido sobre esse grande mestre Templário Português que foi Gualdim Pais.
Pintura mural na Charola Não se conhece a data exacta da pintura mas calcula-se ser anterior ao período Manuelino, situando-a alguns autores no século XIV e outros no tempo de Gualdim Pais. A imagem não está em bom estado de conservação pelo que pode ser subjectiva, senão abusada, a interpretação de São Cristóvão com cabeça de cão, porém é certo tratar-se de um São Cristóvão com todos os seus atributos iconográficos.
Apesar de pessoalmente não conseguir reconhecer tal cabeça na dita imagem, irei partir desse pressuposto para concluir por uma ideia que pode concorrer com algumas das explicações dadas.
As referências literárias tomam-na como "um intrigante São Cristóvão pintado numa das paredes interiores da Charola com cabeça de cão à semelhança do deus egípcio Anúbis, divindade psicopompica ou de passagem entre duas dimensões, dois estados de consciência. É equivalente ao deus lusitano Endóvelicos, a Lug e a Hermes", ou então, “e sendo São Cristóvão o gigante que conduz Cristo, fonte de luz, de uma margem a outra margem de um rio, é evidentemente, uma metáfora do percurso de Orion (também gigante) que guia o Sol no atravessamento da Via Láctea (o rio celeste). Outrora tal fenómeno astronómico era associado à festa da Ascensão, conferindo, assim, a São Cristóvão a função de psicopompa, isto é, de condutor das almas para a sua morada celeste”, segundo literatura diversa que aborda essa pintura.
Numa das nossas incursões pela charola, e admirando a imagem em questão numa tentativa de reconhecer os diversos elementos que a compõem, reparo que o menino Jesus transportado nas costas por São Cristóvão parece ter os pés tortos. Tortos? Seria esse detalhe um pé ou uma mão? Estaria mesmo torto ou serão às vicissitudes do tempo, que tanto deteriorou aquela imagem, a levar-me a pensar estar perante um Cristo de pés tortos?
Detalhe da pintura muralObviamente o Cristo de pés tortos gerou comentários em tom jocoso e originou um momento lúdico entre nós, mas na verdade estávamos perante uma possibilidade e nem a percebemos na altura. Teria isso sentido algum?
Para admiração de todos nós, existe entre os Bizantinos a ideia de que Cristo tinha uma perna mais curta que outra, originando representações onde tal se evidencia. Existe também a ideia de que talvez tivesse um pé torto. É portanto, sobejamente conhecida a teoria do Cristo Coxo no mundo Bizantino. Tudo isto está longe do nosso mundo ocidental e estava mais longe ainda da nossa ideia quando abordámos o tema.
Mas donde provém essa ideia de um Cristo coxo? Pode isso levar-nos a outras pistas para entendermos aquela pintura mural onde São Cristóvão se apresenta com cabeça de cão? Sim, sem dúvida, mas antes vamos abordar a primeira questão.
Como já vimos no post anterior, o Santo Sudário deve ter sido anteriormente conhecido como Mandylion, assim designado desde o século I e em posse do mundo Bizantino e como Sudário a partir do desaparecimento do Mandylion de Constantinopla em 1204 e já na posse da igreja ocidental em meados do séc. XIV. A resposta para o Cristo Coxo parece encontra-se precisamente nesta relíquia.


Poderia esta imagem de São Cristóvão no Convento de Cristo estar influenciada por essa ideia Bizantina? Pode essa pintura mural ser coeva do tempo de Gualdim Pais e reflectir influências importadas pelo mesmo, visto este ter estado em contacto com essa cultura religiosa? Acredito que sim mas ainda estamos longe da questão central: Porque está São Cristóvão representado como cinocéfalo?
Contudo, e para que se possa entender o quanto pode constituir uma ideia errada a associação de Anúbis e o Santo, ou mesmo uma associação astronómica, temos que perceber o que a mentalidade da época pensava sobre os cinocéfalos, relegando para outras discussões o que podem as recentes teorias herméticas ver nessas criaturas.
Essas informações míticas e supersticiosas pertenciam quase todas à tradição grega: Ctésias de Cnido em 398 antes de Cristo, já escrevia sobre a existência de raças fantásticas como os ciápodas que possuíam um único e grande pé, os homens peludos, sem cabeça, e que tinham os olhos nos ombros, etc; Plínio, em 77 depois de Cristo, também escrevia sobre os monstros e maravilhas que foram avistadas na Índia, como seres antropófagos (que comiam carne humana), seres andróginos (que possuíam os dois sexos), etc.
Portanto, pode agora o leitor perceber que o comum europeu via nos designados cinocéfalos somente personagens oriundas de regiões menos conhecidas, seja a América, sejam as Índias ou mesmo África.
A tradição grega chegou a interpretar essa passagem literalmente, e é por isso que muitas vezes o vemos representado em ícones bizantinos com uma cabeça de cão. Em tempos, é claro, isso levou a uma reacção contra o São Cristóvão. A tradição latina no início da tradução do grego para o latim chegou a traduzir literalmente o termo grego original "cabeça de cão" (kunokephalos), usando a palavra canineus (cabeça de cão). Entretanto foi alterado para se ler "cananeu" (Cananeus), e daí contar a lenda latina que ele era de Canãa.
De que forma pode ter esta história sido reflectida na Charola em Tomar, terra tão distante desse mundo?
Portanto, não será de todo despiciente encontrar a representação de São Cristóvão como cinocéfalo nesta pintura mural, não como Anúbis ou como uma alusão astronómica de Orion, Sírios ou constelação de Cão, como afirma alguma literatura, mas sim como representação de uma imagem com a qual deve ter estado Gualdim Pais em contacto na região de Antioquia.
Icone Bizantino - Cristo a pregar a povos não convertidos - Estes povos não falavam a língua de Deus. São Cristovão pertencia a este tipo de povos, os quais eram selvagens e animalescos. O facto de se ter convertido significou que começou a falar a lingua de Deus. Daí algumas imagens associarem os cinócelafos ao pentecostes.
Pentecostes, momento em que os apóstolos sob influência das chamas do Espírito Santo começaram a falar linguas diversas e estranhas, por forma a que tivessem capacitados a converter os pagões. Esta foto representa a pregação a cinócefalos. O SANTO QUE NÃO SE AGUENTOU NAS PERNAS - Parte II
Se anteriormente falámos de pés e de cabeças, neste post daremos notícias das pernas do Santo. O culto a São Cristóvão em Portugal manteve-se, contrariamente às decisões tridentinas, até período bastante tardio. Em Tomar, na ponte velha, existiu outrora uma estátua de São Cristóvão que se apresentava de uma forma bastante invulgar. Encontra-se actualmente no Convento de Cristo, quiçá, por motivos de reforma compulsiva em virtude de desgaste de pernas. Posteriormente publicar-se-á foto da imagem.
A lenda latina que descreve a aventura conhecida como a travessia de um rio por São Cristóvão, o gigante, com o menino Jesus nos ombros não tem qualquer base histórica e deriva do nome do Santo, Cristophoros, que significa “aquele que transporta Cristo”. De inicio a palavra usou-se metaforicamente, no sentido de “o que traz Cristo no seu coração”; passou depois a ser tomada em concreto e daí a invenção da estatura gigantesca e herculeana do santo e do episódio da dolorosa travessia fluvial, visto aquele menino ter o peso do mundo em si próprio.
Nos últimos séculos da idade média as tradições hagiográficas respeitantes a São Cristóvão – que a Legenda Dourada espalhara, entretanto, por todo o lado – tornaram-se muito populares. Concorreu para isso a crença, então difusamente difundida, de quem visse uma imagem do santo já não morreria nesse dia de morte súbita, sem confissão. Por tal motivo cresceu exponencialmente as representações plásticas do santo, ora pintadas ora esculpidas nas fachadas e naves das igrejas. A bem do povo convinha que essas imagens fossem bem visíveis, e assim além de colocadas em locais públicos, possuíam geralmente dimensões dignas do gigante que o santo tinha sido.
Em Portugal, ao contrário do que aconteceu nos outros países sujeitos às directrizes emanadas do concílio de Trento, existem ainda diversas imagens. Aliás, em contra ciclo com o desaparecimento e destruição das imagens do santo pela Europa fora, Portugal não afrouxou na tradição das colossais representações do Santo.
Teria sido por estarmos longe dos centros oficiais da Contra-Reforma? Indícios de uma prática heterodoxa tínhamos já pressentido no post sobre a Romã nas pinturas da Morte da Virgem pelas oficinas dos grandes Mestres Portugueses.
Trajado à romana? Se lerem a biografia de São Cristóvão na Legenda Áurea (ou Dourada), livro medieval onde os artistas plásticos se inspiravam para as suas obras, não encontram qualquer referência ao santo relacionado com os romanos, nem se conhece no mundo ocidental representações do santo trajado dessa forma. Todavia, curiosamente se consultarmos as fontes mais antigas, nomeadamente a história do santo no mundo bizantino encontramos São Cristóvão como tendo servido numa guarnição romana perto de Antioquia.
Esse São Cristóvão colocado na ponte quando D. João mandou reparar a ponte D. Manuel conjuntamente com as reparações dos moinhos e lagares da Ribeira da Vila, estava virado a sul, logo à entrada, vindo do além ponte e era em tamanho natural. O povo crendo que o pó das suas pernas curava as sezões, então endémicas em Tomar, raspava-lhes, a ponto de quando substituíram as grades de alvenaria por grades de ferro, no final do século XIX para alargar a faixa de rodagem, o Santo mal se tinha de pé. É caso para dizer que não se aguentou nas pernas e tomou refúgio no claustro da lavagem do convento junto a tantos outros objectos reformados.
Esquecido no período oitocentista, a iconografia do santo só ressurgirá no século XX depois de os automobilistas terem eleito para seu patrono o gigante barqueiro.
UM INSÓLITO SÃO CRISTÓVÃO - Parte III
