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5/24/2010

CETHOMAR – CÍRCULO DE ESTUDOS DE THOMAR

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CETHOMAR – CÍRCULO DE ESTUDOS DE THOMAR
MANIFESTO DE UMA IDEIA

Thomar tem sido fonte de inspiração para todos os que têm participado nos eventos trimestrais ou que tem acompanhado os trabalhos que vêm sendo publicados no blog. Desta feita, chegou a hora de dar corpo ao manifesto que alguns participantes têm vindo a reclamar: Ora et Labora.
Surge assim a ideia de criar um núcleo de estudos que designaremos por CETHOMAR – Círculo de Estudos de Thomar, no seio do qual pretendemos incentivar o desenvolvimento de trabalhos relacionados com toda a temática Templária e patrimonial que com ela se relacione de alguma forma, a qual é sobejamente conhecida como bastante diversa.
No actual grupo, se assim o pudermos designar, os participantes são oriundos das mais diversas mas convergentes formações, podendo assim contribuir para a realização da grande obra que se pretendeu com a criação do blog dos Cavaleiros Guardiães de Santa Maria do Olival. Proteger, promover, valorizar e estudar é a causa que deve unir todos os que têm participado nos eventos.
O CETHOMAR tem como objectivo a criação de Círculos de Estudo no seio dos quais, irão criar-se condições privilegiadas para o desenvolvimento de actividades específicas. Qualquer pessoa, participantes nos eventos ou não, poderá ingressar nesses círculos bastando simplesmente que demonstre vontade de colaborar, ou até simplesmente propor a criação de outros.
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Algumas das Estruturas de Apoio 

BIBLIOTECA VIRTUAL
Um vasto acervo de obras digitalizadas que irá ser um potente instrumento de pesquisa para todos os que queiram desenvolver trabalhos sobre as temáticas em questão. Entre as várias centenas de obras digitalizadas encontram-se obras fundamentais, como seja os Anais da UAMOC (digitalizados por artigos), Anais do Município de Tomar (digitalizado por anos), Tratado das Significações das Plantas (pdf), A Ordem de Cristo de Vieira de Guimarães (digitalizado) e mais um conjunto de obras incontornáveis. Trata-se pois de uma biblioteca especializada para a qual já se desenvolveu uma aplicação informática à medida.
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ASPECTOS DESCONHECIDOS DA CHAROLA

Autoria: Voltron
Introdução: Degraconis

Qualquer post publicado no blog pretende ser um registo aberto para a posteridade, uma história sem fim, e para o qual esperamos sempre novos desenvolvimentos. Assim foi com post “São Cristóvão – Uma história com pés e cabeça”, publicado ainda há pouco tempo.

Tendo tal tema, chamado a atenção do Voltron, que se devotou ao estudo do tema abordado, pasme-se, eis que se descobre algo mais. Algo de que, eu próprio, nunca tinha ouvido falar; não obstante, o facto de não ser de meu conhecimento e de não se encontrar publicado, não implica necessariamente, ser desconhecido.

Contudo, infelizmente, as poucas publicações que vêm a luz do dia não permitem que os investigadores possam partir de alicerces já traçados; pelo contrário, obriga-os a partir do ponto zero. Desta perspectiva não podemos então deixar de fazer o registo da descoberta para que outros a possam apreciar e vaticinar sobre a sua importância.

Esperávamos este sábado publicar o post elaborado pelo Voltron com uma introdução minha, mas devido a constantes desenvolvimentos nesta pesquisa, somos obrigados a adiar a sua divulgação, para que não se deixe de dar conhecimento integral do que se tem vindo a descobrir.

Irá este post abordar novamente São Cristóvão, em seus aspectos desconhecidos – isto num contexto Tomarense – e divulgar uma nova teoria relacionada com a origem do nome de Tomar e muito mais. Será apresentado num novo formato, inovador e original.
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4/20/2010

LÁPIDE DE GUALDIM PAIS

O desenterrar do passado
Autoria: Semrosto
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...a campa e respectivo epitáfio...

No seguimento do anterior post, onde se aborda a descoberta da lápide de D. Gualdim Pais, e a pedido do Degraconis, recolhi a informação que venho agora disponibilizar-vos através de um post, o meu primeiro sozinho por sinal. Andava a preparar-me para um outro post sobre uma insólita imagem de Tomar com que deparei-me mas o destino obrigou a minha participação começar pelo Gualdim Pais.

No jornal regional A Verdade de 1895 – ano com múltiplos acontecimentos de bastante interesse – e no mesmo dia em que é dada à estampa a carta de Vieira Guimarães que apela para que se edifique um monumento em memória do fundador da cidade, surge na última página uma notícia de última hora: Descoberta da Lápide de Gualdim Pais.

Remete esse pequeno artigo de última hora para a edição seguinte, na qual então iriam dar conhecimento da importante descoberta. É esta a notícia que publico na integra com muito agrado e que espero que seja legível visto não estarmos com tempo para a colocar em texto. Porém esperamos nos próximos tempos transcrever o texto para uma forma de mais fácil leitura. Caso alguém o faça entretanto agradecemos que nos envie para publicação imediata, e para esse efeito podemos mesmo mandar o jornal.

Antes de deixar-vos na paz do senhor para lerem a notícia, sublinho que a lápide não foi a única descoberta desse mês, e poderão dar conta de uma outra que se encontra no fim do texto e para a qual o Degraconis alerta visto a lápide ser já bem conhecida e a outra ser apenas do conhecimento de alguns. Encontra-se no pórtico e infelizmente não temos foto que permita ver nitidamente o que irá ser descrito. Sabem porque foi descoberta a lápide? Temos resposta mas que não está no texto.
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(ver este texto no tópico)

Deixaremos no entanto aqui uma foto relativa à segunda descoberta que é descrita na parte final do texto. Diz-nos Vieira Guimarães que a data inscrita pode eventualmente ser coeva do tempo em que Gualdim Pais ainda era vivo. Esta incrição tem sido esquecida por todos e vista por poucos, apesar de estar à frente de toda a gente que visita a igreja.

"Na porta principal em duas pedras vêem-se algumas letras, indicando que grande inscrição alli tivesse existido. Do que resta mais nitido só ha a palavra Era e mais 2XIII que parece indicar o ano da fundação daquele templo. (...) somos levados a crer que será a de 1213, nos quais tirando os 38 anos de avanço da Era de César teremos o ano 1175, ano em que o Gualdim ainda era vivo."

No meu próximo post, ainda antes da publicação da insólita foto de Tomar antigo, irei tentar transcrever a carta do Vieira Guimarães que culminou na edificação da estátua que tentei proteger com o Voltron à duas semana.

COMENTARIOS NO TÓPICO "DO TEMPLO DE SANTA MARIA" DO FORUM

(pag 7)

4/13/2010

MENTIRA TEMPLÁRIA

Uma Páscoa atribulada (História Verídica)
Co-autoria: Voltron, SemRosto e Degraconis
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Não resisto a narrar um episódio caricato que teve acontecimento na semana transacta e que envolve alguns dos assíduos Cavaleiros Guardiões de Santa Maria do Olival. Comecemos então pelo início.

Nas minhas incursões pela Serra de Sintra no âmbito de um post em elaboração sobre Sintra Templária e o mistério dos míticos túneis deste Éden terreal, tive um percalço na minha robusta saúde. Precisamente após, ter passado mais uma tarde na companhia dos estranhos Deuses que habitam todo aquele promontório lunar, por ventura a da Páscoa.

O Guardião do Parque da Pena e um dos túneis que não é simplesmente uma mina de água

É certo que não era dia de crucificação – tinha-o sido a sexta feira - mas era dia de Ressurreição. A minha só se deu três dias após ter estado ausente do mundo dos mortais e completamente incontactável – o que gerou alguma agitação entre participantes do blog.

Erguido das ruínas como um homem novo sou de imediato contactado por um dos Guardiões mais activos destes últimos tempos. Agitado, transtornado e revoltado deu-me notícias que ia-me colocando mais uns quantos dias na horizontal.

“Querem retirar o Mestre Gualdim da praça da República para novo local. Foi aprovado pela edilidade camarária com excepção dos independentes”
“Tás-te a passar? – retorqui eu”
“Não meu. Querem-no levar para a rotunda nova. Os tipos devem-se andar a picar.”
“Achas? Com quê”
“Com insanidade, só pode”
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Estátua de Gualdim Pais na antiga Praça D. Manuel
e anteriormente D. João. Hoje Praça da República.

O apelo a uma nova Cruzada imponha-se. Não iríamos ficar de braços cruzados. Ainda naquela noite – debilitado – iria escrever uma denúncia pública para enviar para os meios de comunicação e demais. No dia seguinte iríamos entrar em contacto com os partidos que votaram desfavoravelmente. Os Cavaleiros activos em Tomar por sua vez também já tinham um plano secreto.

Ainda nessa mesma noite após contactos para Tomar tive conhecimento de que devia tratar-se apenas de uma brincadeira – a notícia vinha no jornal O Templário do dia 01 de Abril.

A hora ia avançada e não voltei a contactar os nossos amigos de Tomar. Calculei que no dia seguinte, senão mesmo na própria noite, iriam ler no fórum de que se tratava de uma mentira de muito mau gosto mas com muita piada.

Logo após a estrela matutina ter desaparecido do horizonte é a câmara invadida por dois indivíduos – quem seriam? – que apressadamente e atabalhoadamente na passada, se lançam aos funcionários de primeira linha da Câmara de Tomar.

A confusão estava montada. Os funcionários não sabiam explicar em concreto o que se passava. De gabinete em gabinete acabam por falar com alguém que tinha estado na última reunião camarária e que não se lembrava do assunto ter sido discutido.

Os Cavaleiros são então informados timidamente por transeunte que por ali estava. Era a partida do dia das mentiras!!! - informou. Contudo o assunto era sério. Os dois homens misteriosos que escusaram-se a puxar das divisas, não podiam arriscar sair da fortaleza camarária agora que já tinham assentado arraiais. Tudo teria que ser devidamente esclarecido sob pena de terem que brandir as espadas que escondiam secretamente debaixo das suas vestimentas negras e nas quais se conseguia vagamente perceber uma estranha cruz vermelha que não se mostrava por completo por debaixo daquelas estranhas vestes.

Para pacificar e acalmar os ânimos teve-se que ligar para o Jornal – afinal de contas por ali ninguém estava a perceber o episódio - o qual tinha publicado a notícia, pelo que devia este então a assumir ser uma partida do dia das mentiras.


Tudo esclarecido. A história teria acabado em bem mas… saiu ontem no jornal O Templário a seguintes notícia “Principal rotunda de Tomar vai entrar em obras”


Rotunda da Fonte Cibernética também conhecida como rotunda nova

E esta hein! Ainda existirá quem acredite…

A ESTÁTUA DE D. GUALDIM PAIS
Breves apontamentos


Jornal A Verdade - Ano de 1895 - Um agradecimento especial
aos familiares do Semrosto que facultaram o jornal

O ilustre Dr. José Vieira Guimarães – um dos autores mais profícuos sobre a história de Tomar – em 24 de Março de 1895, ainda estudante, alvitrou no jornal A Verdade que se lhe erigisse um monumento, visto estarem próximas as comemorações do VII centenário de Gualdim Pais.

Arco na Corredoura - Comemorações do ano de 1895

Curiosamente, logo após a ideia de Vieira Guimarães foi descoberta na Igreja de Santa Maria dos Olivais – 21 de Abril – a lápide funerária de Gualdim Pais, tendo sido o próprio e o Pintor Manuel Henriques Pinto, director da Jacome Ratton os autores desse desenterrar do passado e que hoje se encontra na parede da segunda capela da igreja.

Lápide de Gualdim Pais

Constituída a comissão de festas para as comemorações de 13 de Outubro – VII centenário – a câmara aprova a quantia de 100 escudos para erigir o tal monumento. Às dez horas de dia 13 de Outubro é então lançada a primeira pedra para o monumento que se havia de erigir à memória do fundador da cidade.

Infelizmente devido a várias vicissitudes só em 1938 são cumpridas as resoluções do VII Centenário de Gualdim Pais, no entanto pelo que percebemos só foi a estátua inaugurada no dia 9 de Julho de 1940, não obstante ser a primeira data, a gravada com as outras duas importantes datas da cidade.

A Praça com estátua e sem estátua - Na foto pequena podem v
er que a igreja tem algo diferente de hoje em dia

A estátua de autoria do escultor Portalegrense Macário Dias apresenta Gualdim Pais em atitude pacífica, de espada embainhada – aqui esconde-se um segredo que qualquer Tomarense conhece – e com o pergaminho do foral numa mão, em atitude de quem vai entregar à Câmara a Vila.


Infelizmente o grande entusiasta da ideia e promotor dos festejos de 1895, já não se encontrava presente, tendo-o Deus chamado pouco tempo antes.

Nota de rodapé: Segundo nos consta esteve a estátua ainda em outro local antes de se fixar no actual.

3/19/2010

O SONHO DE UMA COISA: THOMAR

CRÓNICA DO EVENTO
NOTÍCIA NO JORNAL "O TEMPLÁRIO"
DIA 18 DE MARÇO 2010

(carregar na imagem para ler)

A cidade de Tomar comemora este mês de Março os 850 anos da fundação do Castelo dos Templários, conforme inscrição lapidar na torre de menagem que invoca o dia 1 de Março de 1160 como data de início da construção. Como não poderia deixar de ser, o Blog Cavaleiros Guardiões de Santa Maria do Olival (http://blog.thomar.org), também se associa às festividades promovendo mais um encontro entre os participantes do blog e demais interessados, tendo escolhido este fim de semana em virtude de corresponder ao dia 1 de Março do anterior calendário Juliano usado na época medieval. Com efeito, que local poderia ser mais privilegiado para servir de palco a mais um encontro do que o Castelo?
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Muitos são os que já tiveram a oportunidade de contemplar a Janela do Capítulo no Convento de Cristo, mas tantos não serão os que possam invocar tê-la visto com o contorno preto de um céu cheio de estrelas. Assim foi este evento.

Recebidos pelo Frei Expedito – o fantástico João Patrício - monge conventual que reside naquele espaço monacal desde tempos imemoriais, foi o grupo sujeito aos dardos do Cúpido que se esconde na aduela superior que fecha o arco do pórtico principal. Iniciados então na “doutrina do Amor” começou a vista guiada pela amabilíssima Maria da Luz, que levou o grupo por uma viagem nocturna pela história de Tomar. História essa, que se confunde com a própria história de Portugal, senão mesmo com a do mundo, não tivesse sido aquele local, berço do “sonho de uma coisa”: os Descobrimentos.
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A luz era parca mas suficiente para iluminar o caminho daqueles que marcaram presença neste encontro com o passado, da qual emergiram para espanto de todos, estadista e figuras a quem indubitavelmente se deve parte da história de Tomar. João de Castilho vagueava pelos dormitórios do Convento quando se encontra com o grupo, e após contar a sua história de forma eloquente reúne o grupo numa das salas com o próprio Gualdim Pais, fundador do Castelo Templário. Sem dúvida que se tratava de uma teatralização, mas a julgar pelas expressões dos participantes diríamos que tínhamos recuado até ao século XII. De figura herculeana e modos rudes – quantos não se assustaram com a sua voz altiva – desvendou-nos o quanto ardil teve que ser nas suas aventuras e desventuras contra os sarracenos. E como nestas coisas dos Templários e das Cruzadas há que sentir o que era ser cavaleiro, Gualdim Pais investiu as crianças participantes com a espada que serve para combater o fanatismo e a ignorância. Coragem e Honra foram os valores que transmitiu aqueles que virão a ser os protectores do património quando se tornarem homens. Um dos momentos altos da noite para todos nós e principalmente para os pequenos.
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Longa já ia a viagem quando soou a hora de recolher junto ao Claustro dos Corvos para se iniciar o banquete anunciado. Após o brandir da espada de Gualdim Pais chegou a vez dos garfos e das facas. Arroz Conventual e Fatias de Tomar adornaram o espírito Templário que inevitavelmente se entranha mas não se estranha em tão sublime lugar, uma espécie de preparação para o momento tão desejado da noite, as apresentações por parte dos especiais convidados para o evento.

João Fiandeiro da APTC Associação Portuguesa de Turismo Cultural – afinal de conta era de turismo cultural que se tratava este evento – o Prof. Doutor Fernando Larcher, presidente do GACC – Grupo de Amigos do Convento de Cristo – também o grupo é de certa forma “amigo” deste monumento – a sua esposa Prof. Doutora Madalena Larcher que iria apresentar um inédito da Ordem de Cristo, o Mestre Rui Gonçalves, também do IPT – Instituto Politécnico de Tomar – e por fim mas não menos desconsiderados, o Luís de Matos e Sérgio Veloso, o primeiro para fazer uma Resenha Histórica das Ressurreições Templárias dos últimos séculos e o segundo para dar a conhecer uma banda desenhada sobre a biografia de Gualdim Pais que se espera publicada no decorrer deste ano.

Diversas são as lendas que rodeiam inúmeros factos relativos a Tomar, dos quais o mais sobejamente conhecido é a ideia de que existiria – ou existe – um túnel que ligaria a Igreja de Santa Maria do Olival ao Castelo Templário. Dá-nos conta dessa lenda oral que corre por tradição entre o povo, os ilustres, J.M.Sousa no livro “Noticia Descriptiva e Histórica da cidade de Thomar” de 1903 e Amorim Rosa no livro “História de Tomar” de 1965, por exemplo. De certo trata-se de uma efabulação criada a partir das histórias recambulescas dos mistérios Templários, mas não deixa de fazer parte do “sonho de uma coisa”: Thomar.

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Muitos dos participantes partilham da mítica que rodeia a figura dos Templários mas não se coadunam com fantasias que se olvidem de tentar comprovar a verdade que se possa esconder por detrás dessas suposições. Imbuídos desse espírito científico tiveram então a honra de contar com o Mestre Rui Gonçalves para divulgar os resultados das primeiras Investigações Georadar na Igreja de Santa Maria dos Olivais e com o Prof. Larcher para nos enquadrar historicamente perante os resultados e abordar a história de Tomar. Apesar de serem ainda as primeiras investigações com esse aparelho, a requerer ainda mais intervenções e estudos, pode-se quase concluir que existem ainda vestígios soterrados de anteriores edificações, fundações essas que corresponderiam à igreja ou convento Beneditino do século VIII que as crónicas dão notícias, motivo pelo qual Gualdim Pais teria escolhido aquele lugar para erigir um templo dedicado à Nossa Senhora de Anunciação e que serviu de Bailia, Convento e Panteão aos mestres da Ordem Templária.

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Segundo os mesmos, não se verificou a existência de qualquer cripta ou túnel, mas nem por isso o sonho morreu, tão somente deu a conhecer – possivelmente – os restos mortais dos mestres do passado. Apesar de conhecida a localização onde D. João III e Frei António de Lisboa teriam depositado os ditos ossários no século XVI, outrora em Mausoléus, não se podia no entanto, com certezas, saber se ali estariam ou mesmo de que forma. Apontou o goeradar a existência de umas “caixas”, não obstante carecer de confirmação, que possivelmente serão cofres onde se lhes deu o descanso eterno.

Serão estes resultados, após estudos mais detalhados e minuciosos, alvo de publicação segundo indicação dos promotores dessa investigação, que alias não procuravam através dessa prospecção concluir pela existência ou não de criptas ou subterrâneos, tão só comprovar o que os documentos do Arquivo da Torre do Tombo relatavam quanto ao original templo de monges “negrados”.

A hora avançada, e com muita pena, não permitiu que se realizassem as restantes apresentações, mas nem por isso sentiu o grupo que a “cruzada” não tivesse comprida. Sentiram os participantes muita honra em ter contado com a presença de pessoas de grande credibilidade nestes assuntos históricos e muito honrado ficou também com a presença da Dra. Iria Caetano – directora do Convento de Cristo – que na qualidade de zeladora desse monumento presenteou-nos com uma visita para conhecer então quem eram os Cavaleiros Guardiões que trimestralmente fazem uma incursão pelo concelho.


Para terminar esta história só nos resta glosar uma das frases da intervenção do Prof. Doutor Larcher que diz algo semelhante a isto: “muitos podem procurar o tesouro templário e pensá-lo como algo material ou escondido, mas o verdadeiro tesouro da Ordem do Templo ou da Ordem de Cristo, como sucedânea da primeira, está à vista de todos. É o património legado à humanidade e a sua grandiosa história”.



Foi neste tesouro que passámos a noite em prol da salvaguarda, protecção e promoção da cidade de Tomar. Divulgar e viver os monumentos e a sua história é garantir que os pequenos "iniciados" pela espada de Gualdim Pais os poderão dar a conhecer aos seus netos…. Que a memória deste evento seja digna dos poemas com que o João Patrício nos deleitou durante a noite no seio da poesia que João Castilho lavrou em Pedra.

(Texto dedicado a Maria da Luz, João Patrício e Isabel Nogueira)

ENTREVISTA
NO JORNAL "O TEMPLÁRIO"
DIA 18 DE MARÇO 2010

De onde nasce a ideia do Blog dos Cavaleiros Guardiões?

Acho que essa resposta deveria ser dada pelos seus fundadores, não obstante terem contado com a minha acerradíssima participação desde os primórdios do Blog. Talvez este facto legitime-me a responder-lhe que tudo parte da ideia de criar um veículo que permitisse dar a conhecer a história de Tomar e os seus mistérios. Não existe em Tomar nenhum outro blog que tenha tanto enfoque nos intrigantes factos que rodeiam esta cidade Templária. Inevitavelmente, e visto um dos seus fundadores ser das áreas do restauro e conservação, foi o blog o meio usado para fazer denuncias sobre atentados ao património. Hoje mantêm a mesma filosofia e procura através da divulgação do património Nabantino protegê-lo das negligências de algumas entidades para com este.

E o Tesouro Templário?

Estamos aqui na Igreja de Santa Maria, pelo que posso revelar-lhe que o Tesouro Templário esconde-se aqui mesmo. Aqui, mas também ali no cimo daquela colina. Se no entanto fechar os olhos e pensar na história dos Templários também lhe poderei dizer que esse Tesouro está em si. Não me leve a mal mas o que quero dizer é que apesar de existir muita gente ávida de encontrar esse tesouro escondido algures numa comenda ou num castelo, na verdade maior tesouro não poderá ser do que os feitos da Ordem. A sua história, o seu património e também a mítica que tem preenchido o sonho de muitos dos que aqui vem.

Os responsáveis do blog hoje não são por inteiro os fundadores. A determinada altura o Ricardo Azul retirou-se. Tem alguma coisa a dizer disso?

A minha entrada é posterior à sua saída e tardia em relação a esse momento. Posso no entanto adiantar que não se tratou de nenhuma querela entre os responsáveis na altura, tão só a indisponibilidade do Ricardo para continuar o árduo trabalho que vinha desenvolvendo em redor do Blog, não obstante nem sempre as opiniões entre eles convergirem. Podemos dizer que essencialmente foram motivos profissionais que estiveram envolvidos. Hoje é um jovem com o seu próprio negócio. Saliento no entanto que foi incansável no trabalho que desenvolveu, foram dezenas e dezenas de postes colocados no blog no seu tempo. Os postes de Santa Iria são um exemplo disso.

Que futuro para o Blog e para o grupo que hoje reúne à sua volta?

Antes de mais quero inscrever nesta entrevista algo que nos entristece a todos: A representação ou participação de Tomarenses nestes eventos e no próprio blog é escassa. Não sei se será de estranhar mas é um facto que não conseguimos explicar. Quanto ao futuro não o consigo prever. Adivinho que o crescimento que tem sido exponencial de evento para evento em termos de participação poderá vir a trazer alguns condicionamentos quanto à organização dos encontros. Como poderemos levar cem pessoas a visitar a torre de menagem? Como poderemos instalar cem pessoas na Quinta da Anunciada Velha? Desta vez tivemos mesmo que ocupar mais do que uma residencial. Entende? Designamo-nos muitas vezes como grupo, o que deve dar ideia de uma hierarquia ou organização, mas em boa verdade somos um grupo bastante informal, e por ventura bastante jovem. Tocam as trombetas para reunir em Tomar para um evento e lá se encontram todos em Tomar. É engraçado. Tal é a força que atrai tanta gente. Julgo que o nosso papel será o de continuar a divulgar o património de Tomar, assim como denunciar através do blog, do jornal ou através de carta às entidades competentes, eventuais problemas ou atentados ao que hoje se pode considerar o tesouro templário que se encontra à vista de todos. Todavia talvez exista umas ideias para o futuro mas será precoce falar delas por agora.

Que papel pensa ter no seio do Blog visto ser o que tem mais visibilidade?

Simplesmente sou um dos elementos organizadores destas coisas. O que anda de picareta na mão e cabeça na Charola.
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2/24/2010

COMEMORAÇÃO DOS 850 ANOS

A Sociedade Geográfica de Lisboa, a Câmara Municipal de Tomar e o Grupo de Amigos do Convento de Cristo irá realizar no dia 1 de Março de 2010 em Lisboa uma sessão solene para a comemoração dos 850 anos do castelo dos Templários em Tomar (1160 - 2010).



A sessão iniciará às 16hs. Mais informações no site: http://www.socgeografialisboa.pt/ ou no forum tópico de Notícias, Eventos e Divulgação, página 10, onde podem ver em detalhe o programa.
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Há poucas cidades no mundo que se possam orgulhar de saber a data exacta do seu nascimento – Tomar é uma delas. As comemorações vão ter um ponto alto na próxima segunda-feira, onde irá se render uma homenagem a D. Gualdim Pais na igreja de Santa Maria dos Olivais, seguida de recriação da Iniciação de um Templário, entre outras actividades, e prolongam-se até Maio de 2011.
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SSSSSSSSssssSSSSSSSPROGRAMA DETALHADO

2/23/2010

SANTA MARIA DO OLIVAL

DO SUDÁRIO AO TÚMULO DE CRISTO
Este post foi escrito nos primórdios do blog mas devido à sua longa extensão não teve ainda oportunidade de surgir publicado, não obstante ter sido distribuído na altura aos participantes dos encontros em formato de pequeno livro A5. Encontra-se actualmente a ser revisto. Surge o post de São Cristóvão precisamente de um parágrafo deste ensaio que entendi merecer maior desenvolvimento.

2/22/2010

SÃO CRISTOVÃO DA CHAROLA – Parte I

UMA HISTÓRIA COM PÉS E CABEÇA
Encontra-se numa pintura mural da Charola Templária em Tomar um insólito São Cristóvão representado como cinocéfalo, ou seja, com cabeça de canídeo. Pretende este post revelar e dar a conhecer o motivo dessa misteriosa representação. Serve também de complemento ao post anterior quanto à influência que o médio oriente pode ter exercido sobre esse grande mestre Templário Português que foi Gualdim Pais.

Pintura mural na Charola

Dos diversos mistérios que Tomar encerra, a imagem de São Cristóvão com cabeça de canídeo, representada numa pintura mural da Charola, tem sido um dos que mais tem intrigado os que estudam os segredos de Tomar.

Não se conhece a data exacta da pintura mas calcula-se ser anterior ao período Manuelino, situando-a alguns autores no século XIV e outros no tempo de Gualdim Pais. A imagem não está em bom estado de conservação pelo que pode ser subjectiva, senão abusada, a interpretação de São Cristóvão com cabeça de cão, porém é certo tratar-se de um São Cristóvão com todos os seus atributos iconográficos.

Apesar de pessoalmente não conseguir reconhecer tal cabeça na dita imagem, irei partir desse pressuposto para concluir por uma ideia que pode concorrer com algumas das explicações dadas.

As referências literárias tomam-na como "um intrigante São Cristóvão pintado numa das paredes interiores da Charola com cabeça de cão à semelhança do deus egípcio Anúbis, divindade psicopompica ou de passagem entre duas dimensões, dois estados de consciência. É equivalente ao deus lusitano Endóvelicos, a Lug e a Hermes", ou então, “e sendo São Cristóvão o gigante que conduz Cristo, fonte de luz, de uma margem a outra margem de um rio, é evidentemente, uma metáfora do percurso de Orion (também gigante) que guia o Sol no atravessamento da Via Láctea (o rio celeste). Outrora tal fenómeno astronómico era associado à festa da Ascensão, conferindo, assim, a São Cristóvão a função de psicopompa, isto é, de condutor das almas para a sua morada celeste”, segundo literatura diversa que aborda essa pintura.
Ainda citando outra literatura quanto aquela imagem podemos ver que “Cão refere-se à Constelação do hemisfério austral, a Sueste da de Órion. Inicialmente, estava ligada apenas à estrela Sírio, a mais brilhante deste conjunto e até dos Céus. Esta é o Cão Maior; o Cão Menor fica a seu Norte. Ora, aquela fica no fim da Estrada de Santiago, ou seja, o final da Via Láctea. Por isso, temos intimas relações entre os membros da Ordem do Templo e os da Ordem de Santiago, caminho terrestre em sintonia com o do macrocosmo.”
Após esta introdução começaremos aqui a aventura que antecedeu a conclusão que constitui a teoria que nos propomos a defender.

Numa das nossas incursões pela charola, e admirando a imagem em questão numa tentativa de reconhecer os diversos elementos que a compõem, reparo que o menino Jesus transportado nas costas por São Cristóvão parece ter os pés tortos. Tortos? Seria esse detalhe um pé ou uma mão? Estaria mesmo torto ou serão às vicissitudes do tempo, que tanto deteriorou aquela imagem, a levar-me a pensar estar perante um Cristo de pés tortos?
Detalhe da pintura mural
Se assim fosse isso abria-nos uma nova porta para investigar a estranheza da imagem. Era uma pista para tentarmos chegar a outras conclusões quanto aquela imagem.

Obviamente o Cristo de pés tortos gerou comentários em tom jocoso e originou um momento lúdico entre nós, mas na verdade estávamos perante uma possibilidade e nem a percebemos na altura. Teria isso sentido algum?

Para admiração de todos nós, existe entre os Bizantinos a ideia de que Cristo tinha uma perna mais curta que outra, originando representações onde tal se evidencia. Existe também a ideia de que talvez tivesse um pé torto. É portanto, sobejamente conhecida a teoria do Cristo Coxo no mundo Bizantino. Tudo isto está longe do nosso mundo ocidental e estava mais longe ainda da nossa ideia quando abordámos o tema.

Mas donde provém essa ideia de um Cristo coxo? Pode isso levar-nos a outras pistas para entendermos aquela pintura mural onde São Cristóvão se apresenta com cabeça de cão? Sim, sem dúvida, mas antes vamos abordar a primeira questão.

Como já vimos no post anterior, o Santo Sudário deve ter sido anteriormente conhecido como Mandylion, assim designado desde o século I e em posse do mundo Bizantino e como Sudário a partir do desaparecimento do Mandylion de Constantinopla em 1204 e já na posse da igreja ocidental em meados do séc. XIV. A resposta para o Cristo Coxo parece encontra-se precisamente nesta relíquia.
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Sudário e Mandyliom

No Sudário, Nosso Senhor parece ter uma perna mais curta que a outra, a esquerda, que permaneceu encurvada na cruz por causa da sobreposição do pé esquerdo pregado sobre o direito, e assim ficou fixada mesmo depois da deposição da cruz devido à rigidez cadavérica. Desse pormenor nasceu a lenda do “Jesus claudicante” ou “Cristo Coxo” que influenciou a cruz ortodoxa: ela é feita com o supedâneo (apoio dos pés) inclinado, como se idealmente estivesse na cruz um homem com uma perna mais curta.
Cruz ortodoxa

Muitos ícones de Nossa Senhora, especialmente os mais antigos e célebres, representam-na com o filho nos braços, com os pés fora das vestes, um normal e outro torto e mais curto. Mais ainda, outras vezes está com uma perna sobre a outra, com a planta do pé virada e aparecendo, sendo o outro pé visto sempre de perfil, como evidente alusão ao Sudário. O pé defeituoso lembra a forma e a posição do pé esquerdo no Sudário.

Poderia esta imagem de São Cristóvão no Convento de Cristo estar influenciada por essa ideia Bizantina? Pode essa pintura mural ser coeva do tempo de Gualdim Pais e reflectir influências importadas pelo mesmo, visto este ter estado em contacto com essa cultura religiosa? Acredito que sim mas ainda estamos longe da questão central: Porque está São Cristóvão representado como cinocéfalo?
Cinocéfalo (do grego kunoképhalos: "que tem cabeça ou face de cão") é na mitologia greco-romana um ser com corpo de homem e cabeça de cão. Esta forma é bastante comum nas inscrições do Antigo Egipto e a mais conhecida talvez seja a de Anúbis, o Deus com cabeça de Chacal.

Contudo, e para que se possa entender o quanto pode constituir uma ideia errada a associação de Anúbis e o Santo, ou mesmo uma associação astronómica, temos que perceber o que a mentalidade da época pensava sobre os cinocéfalos, relegando para outras discussões o que podem as recentes teorias herméticas ver nessas criaturas.
Obrigatoriamente temos que, sucintamente, remeter para o imaginário europeu e as visões sobre os “Novos Mundos” e suas gentes, não se confinando a designação de novos mundos aos recentes territórios descobertos nos séculos XV e XVI, quando ocorreram as grandes viagens marítimas e que de igual forma deram origem a informações povoadas de mitos e superstições.

Essas informações míticas e supersticiosas pertenciam quase todas à tradição grega: Ctésias de Cnido em 398 antes de Cristo, já escrevia sobre a existência de raças fantásticas como os ciápodas que possuíam um único e grande pé, os homens peludos, sem cabeça, e que tinham os olhos nos ombros, etc; Plínio, em 77 depois de Cristo, também escrevia sobre os monstros e maravilhas que foram avistadas na Índia, como seres antropófagos (que comiam carne humana), seres andróginos (que possuíam os dois sexos), etc.



E tais informações foram sendo adaptadas ao longo do tempo. Porém, em geral, mantiveram-se quase sem alterações até o século XVI. Dessa forma pode-se entender o facto de os navegadores europeus terem visto sereias, antípodas (criaturas com os pés virados para trás), cinocéfalos (criaturas com corpo humano e cabeça de cão que comiam carne humana), ciclopes (monstro caracterizado por ter um único olho no meio da testa), e outras tantas criaturas monstruosas e maravilhosas, quando viajaram por regiões desconhecidas. Atente-se que estas ideias aplicavam-se não somente a todos que viviam para lá do oceano mas a todos aqueles que viviam à margem do mundo europeu.

"Alguns destes etíopes são mouros ou indianos/ outros habitam no deserto/ outros alimentam-se de toda a espécie de serpentes/ e simulam mais uma linguagem do que propriamente consigam falar/ alguns não têm cabeça/ mas antes os olhos e a boca no peito". E prossegue o autor descrevendo cinocéfalos como gente que vive quatrocentos anos; na Etiópia existiriam pessoas com quatro-olhos e "No sul da Etiópia haveria gentes que tem um só pé, muito largo, mas que são tão rápidos que assim podem perseguir os animais selvagens; e, com os pés grandes, podem-se proteger optimamente do calor do sol".

A galeria de seres já conhecidos seria agora completada e confirmada com um dado das viagens dos Descobrimentos, por exemplo, no novo mundo "o rei de Portugal, através das suas navegações, descobriu gente rude com cabeça de cão e longas orelhas de burro; o corpo é de gente com braços e mãos, as ancas e as coxas como um cavalo; e ruminam como uma vaca". O fantástico e o real coexistiam numa dinâmica e surda subordinação; e levará o seu tempo até que a galeria de maravilhas seja determinantemente eliminada pela ciência empírica.


Portanto, pode agora o leitor perceber que o comum europeu via nos designados cinocéfalos somente personagens oriundas de regiões menos conhecidas, seja a América, sejam as Índias ou mesmo África.
E de que forma se relaciona a lenda de São Cristóvão com estas criaturas que habitavam zonas distantes do centro do mundo civilizado?
Pelo que conhecemos da sua lenda, São Cristóvão era natural do antigo reino de Canaã, sendo por conseguinte um Cananeu. Os Cananeus eram os habitantes do reino antigo de Canaã, situado no Oriente Médio, correspondendo aproximadamente ao território de Israel nos dias de hoje.
Iconografia latina de São Cristovão
Porém, a história do pé torto ou do Cristo coxo levou-nos a procurar São Cristóvão no seio da cultura Bizantina. Segundo a mais antiga lenda conhecida da literatura grega (bizantina) e latina, São Cristóvão não era oriundo de Canaã mas sim, e surpreendentemente, membro da tribo norte africana de Marmaritae. Foi capturado por forças romanas durante a campanha do imperador Diocleciano contra os Marmaritae e foi transportado para prestar serviço numa guarnição romana perto de Antioquia, na Síria, baptizado pelo bispo refugiado Pedro de Alexandria foi martirizado em 9 de Julho 308.
A lenda latina de São Cristóvão sofreu ao longo dos tempos uma tremenda evolução e logo em data muito precoce se distancia da lenda bizantina. É importante ressaltar que existem consideráveis diferenças de pormenor entre elas e a latina (católica) representa um ramo separado da evolução do texto original grego.
A identificação de São Cristóvão como um membro da tribo dos Marmaritae é vital para o correcto entendimento de uma passagem que tem causado mais problemas do que a maioria, a descrição da terra natal do santo, presente em todos os relatos mais antigos que sobreviveram do seu martírio, tanto em grego e latim, segundo o qual ele veio de uma terra de canibais e de seres com cabeças em forma de cão.

A tradição grega chegou a interpretar essa passagem literalmente, e é por isso que muitas vezes o vemos representado em ícones bizantinos com uma cabeça de cão. Em tempos, é claro, isso levou a uma reacção contra o São Cristóvão. A tradição latina no início da tradução do grego para o latim chegou a traduzir literalmente o termo grego original "cabeça de cão" (kunokephalos), usando a palavra canineus (cabeça de cão). Entretanto foi alterado para se ler "cananeu" (Cananeus), e daí contar a lenda latina que ele era de Canãa.



Iconografia bizantina (ortodoxa) de São Cristovão
É importante neste momento ressaltar que a descrição de Cristóvão, a partir da terra dos cabeças de cão não tem absolutamente nada a ver com o culto egípcio da cabeça de chacal, Anúbis Deus. A explicação real é bem mais prosaica e remete-nos para o que anteriormente tínhamos descrito: os habitantes civilizados do mundo greco-romano há muito habituados a descrever aqueles que vivem à margem de seu mundo como seres fantásticos, canibais, cabeças de cão e pior.
Assim, quando o autor do original relata o martírio de São Cristóvão, descreveu a sua origem na terra dos canibais e cabeça de cães, o que significa apenas que ele veio da borda do mundo civilizado Não sabia ele que as gerações mais tarde viriam a interpretar mal esta metáfora cultural de uma forma completamente literal.

De que forma pode ter esta história sido reflectida na Charola em Tomar, terra tão distante desse mundo?
Como ressalta da história de São Cristóvão, foi este martirizado em Antioquia, tendo se iniciado nessa mesma região o culto ao Santo. Por sua vez, Gualdim Pais quando esteve no médio horizonte, rezam as crónicas, esteve precisamente em Antioquia. Fica esta junto à região de Edessa, local que também já referimos como estando ligada directamente à história do Sudário, designado ai como Mandylion. Edessa, na Turquia, local também muito ligado a São Tomé. (ver post anterior)

Portanto, não será de todo despiciente encontrar a representação de São Cristóvão como cinocéfalo nesta pintura mural, não como Anúbis ou como uma alusão astronómica de Orion, Sírios ou constelação de Cão, como afirma alguma literatura, mas sim como representação de uma imagem com a qual deve ter estado Gualdim Pais em contacto na região de Antioquia.
Talvez não seja este ensaio mais que uma fantasia que toma como ponto de partida uma ilusão derivada do estado em que se encontra a dita pintura, todavia, começa esta história nos pés e acaba na cabeça, o que pode levar-me a concluir ser esta uma história com pés e cabeça.
Icone Bizantino - Cristo a pregar a povos não convertidos - Estes povos não falavam a língua de Deus. São Cristovão pertencia a este tipo de povos, os quais eram selvagens e animalescos. O facto de se ter convertido significou que começou a falar a lingua de Deus. Daí algumas imagens associarem os cinócelafos ao pentecostes.


Pentecostes, momento em que os apóstolos sob influência das chamas do Espírito Santo começaram a falar linguas diversas e estranhas, por forma a que tivessem capacitados a converter os pagões. Esta foto representa a pregação a cinócefalos.
Nota de rodapé: Apesar desta história fazer a exploração de uma ideia generalizada na literatura mistérica das últimas décadas, deve ser encarada com muita ponderação. Não é vista pelos criticos da arte como um São Cristovão com cabeça de canídeo, tão somente uma ilusão da deterioração da imagem em virtude da sua antiguidade. Repare-se que é uma pintura mural a qual está sujeita às vicissitudes inerentes a esse suporte. Não é díficil de encontrar semelhantes imagens onde podemos imaginar as mais bizarras representações.
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SÃO CRISTOVÃO DA PONTE
O SANTO QUE NÃO SE AGUENTOU NAS PERNAS  -
Parte II
Se anteriormente falámos de pés e de cabeças, neste post daremos notícias das pernas do Santo. O culto a São Cristóvão em Portugal manteve-se, contrariamente às decisões tridentinas, até período bastante tardio. Em Tomar, na ponte velha, existiu outrora uma estátua de São Cristóvão que se apresentava de uma forma bastante invulgar. Encontra-se actualmente no Convento de Cristo, quiçá, por motivos de reforma compulsiva em virtude de desgaste de pernas. Posteriormente publicar-se-á foto da imagem.



Imagens antigas da ponte velha de Tomar

Com os humanistas, e depois com a Reforma e Contra-Reforma, as representações artísticas de São Cristóvão passaram a ser muito criticadas pela falta de historicidade da biografia do mártir, quer na versão Latina quer na distante visão Bizantina, cujo desfecho se deu em 1960 com a remoção do dia deste santo do calendário da igreja católica apostólica romana.

A lenda latina que descreve a aventura conhecida como a travessia de um rio por São Cristóvão, o gigante, com o menino Jesus nos ombros não tem qualquer base histórica e deriva do nome do Santo, Cristophoros, que significa “aquele que transporta Cristo”. De inicio a palavra usou-se metaforicamente, no sentido de “o que traz Cristo no seu coração”; passou depois a ser tomada em concreto e daí a invenção da estatura gigantesca e herculeana do santo e do episódio da dolorosa travessia fluvial, visto aquele menino ter o peso do mundo em si próprio.

Nos últimos séculos da idade média as tradições hagiográficas respeitantes a São Cristóvão – que a Legenda Dourada espalhara, entretanto, por todo o lado – tornaram-se muito populares. Concorreu para isso a crença, então difusamente difundida, de quem visse uma imagem do santo já não morreria nesse dia de morte súbita, sem confissão. Por tal motivo cresceu exponencialmente as representações plásticas do santo, ora pintadas ora esculpidas nas fachadas e naves das igrejas. A bem do povo convinha que essas imagens fossem bem visíveis, e assim além de colocadas em locais públicos, possuíam geralmente dimensões dignas do gigante que o santo tinha sido.

Em Portugal, ao contrário do que aconteceu nos outros países sujeitos às directrizes emanadas do concílio de Trento, existem ainda diversas imagens. Aliás, em contra ciclo com o desaparecimento e destruição das imagens do santo pela Europa fora, Portugal não afrouxou na tradição das colossais representações do Santo.
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Uma das imagens espalhadas por Portugal. Repare-se nas dimensões do santo

Teria sido por estarmos longe dos centros oficiais da Contra-Reforma? Indícios de uma prática heterodoxa tínhamos já pressentido no post sobre a Romã nas pinturas da Morte da Virgem pelas oficinas dos grandes Mestres Portugueses.
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Tomar, pelos vistos, filia-se nessa tradição logo nos primórdios da nacionalidade, independentemente de o encarar como cinocéfalo ou não, e em 1710 quando o Rei D. João V manda construir guardas na ponte velha sobre o Nabão coloca-se uma estátua em Pedra de São Cristóvão, hoje no Claustro da Lavagem do Convento de Cristo, e tanto quanto se houve dizer trata-se de uma figura trajada à romana com indícios de ter tido os "pés dentro de água". Alguns entendem tratar-se de uma figura originalmente romana que depois foi transfigurada em são Cristóvão, cujos atributos são o menino ao colo ou cavalitas atravessando as águas, e, não há vestígios de cabeça de cão neste São Cristovão.

Trajado à romana? Se lerem a biografia de São Cristóvão na Legenda Áurea (ou Dourada), livro medieval onde os artistas plásticos se inspiravam para as suas obras, não encontram qualquer referência ao santo relacionado com os romanos, nem se conhece no mundo ocidental representações do santo trajado dessa forma. Todavia, curiosamente se consultarmos as fontes mais antigas, nomeadamente a história do santo no mundo bizantino encontramos São Cristóvão como tendo servido numa guarnição romana perto de Antioquia.
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Poderia ainda existir reminiscências relativas ao mundo sírio-bizantino em período tão distante do tempo de Gualdim Pais. Julgo que não, caso tenham chegado mesmo a existir, mas é de facto curiosa esta descrição de São Cristóvão. Primeiro como cinocéfalo, e agora como trajado à romana.

Esse São Cristóvão colocado na ponte quando D. João mandou reparar a ponte D. Manuel conjuntamente com as reparações dos moinhos e lagares da Ribeira da Vila, estava virado a sul, logo à entrada, vindo do além ponte e era em tamanho natural. O povo crendo que o pó das suas pernas curava as sezões, então endémicas em Tomar, raspava-lhes, a ponto de quando substituíram as grades de alvenaria por grades de ferro, no final do século XIX para alargar a faixa de rodagem, o Santo mal se tinha de pé. É caso para dizer que não se aguentou nas pernas e tomou refúgio no claustro da lavagem do convento junto a tantos outros objectos reformados.

Esquecido no período oitocentista, a iconografia do santo só ressurgirá no século XX depois de os automobilistas terem eleito para seu patrono o gigante barqueiro.
SÃO CRISTOVÃO DA PONTE
UM INSÓLITO SÃO CRISTÓVÃO - Parte III
Já o tínhamos anunciado e conforme prometido, vimos por meio deste pequeno post dá-lo a conhecer. Optámos por colocá-lo em separado do post anterior mas deverá ser entendido no seguimento do que já tinha sido referido.
De facto, parece tratar-se de uma figura trajada à romana, distanciando-se das imagens vulgarmente conhecidas deste Santo, quer na pintura quer mesmo na escultura.
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“Alguns entendem tratar-se de uma figura originalmente romana que depois foi transfigurada em são Cristóvão, cujos atributos são o menino ao colo ou às cavalitas atravessando as águas, e, não há vestígios de cabeça de cão neste São Cristóvão”.
Todavia, curiosamente, está desprovido dessa parte do corpo, o que poderia levar-nos a especular sobre a sua cinocéfilidade. Apesar de não termos indicações se “perdeu a cabeça” algures nos últimos séculos, ou se assim já se encontrava quando estava na ponte no séc. XIX, a verdade é que, concluímos que devia estar integral, por falta de qualquer referência a esse respeito nas suas descrições. Certamente haveria notícias sobre essa estranha peculiaridade se assim fosse.
Quanto à questão de ter sido uma adaptação de uma figura anterior, talvez coeva à ocupação romana, julgamo-la infundada, em virtude de ser fácilmente verificável que tem representado os pés dentro de água, ou seja, só se poderia adaptar se fosse uma situação inversa.
Devida à estranheza da sua representação contactámos quem do assunto muito conhece. Referiu-nos que, de facto, São Cristóvão terá sido um centurião romano ou, eventualmente, terá servido os propósitos imperiais romanos na versão bizantina, o que justificaria os seus trajes. De facto assim é, mas a hagiografia e iconografia ocidental de São Cristóvão não o consideram assim, pelo que, se mantém como insólita representação, até porque nos ícones do mundo bizantino é representado como cinocéfalo.
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Habitualmente as representações ocidentais do Santo, ao contrário das do mundo oriental, colocam-no com umas longas vestes esvoaçantes, o que não se verifica minimamente na figura em questão, quer na pintura, gravura ou escultura.
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Porém, existem algumas representações em que lhe despem as vestes e o colocam em semelhança com as representações de São Sebastião.
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Seja como for, a intenção principal deste post era dar a conhecer a imagem que não se encontra na internet. Poderão agora os leitores imaginá-lo na ponte, em tempos idos. Muita gente se serviu das pernas do Santo como podem verificar, e não foi para fazer a travessia do rio Nabão.