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3/14/2011

NOVOS SUBSÍDIOS SÃO CRISTÓVÃO

Análise Critica da pintura mural
Autoria: Círculo SC do Cethomar
(Degraconis, Voltron , Cluny)


No decorrer do presente ano muitos foram os ensaios que dedicámos à presença de São Cristóvão em Tomar, e estando a terminar o ano, ainda em redor deste tema gravitamos, apresentando-se este último texto – se o vier a ser -, a nosso ver, portador de notícias que até à pouco tempo nos eram totalmente desconhecidas, não obstante as várias tentativas que fizemos para as conseguir trazer ao blog na altura. Trata-se da “decifração”, digamos leitura, do texto que faz parte da pintura mural do São Cristóvão que se encontra na Charola, assim como, uma hipótese de datação.

Obviamente, e constatadas as nossas logradas hipóteses de leitura desse texto, tivemos que nos socorrer de terceiros, consubstanciando-se este ensaio nas hipóteses avançadas pelos mesmos. Todavia, outras ideias expressas neste texto, que não se relacionem directamente com a leitura do texto e datação da pintura mural, são ilações dos elementos do Cethomar que têm vindo a desenvolver trabalhos nesta área.

1. DA CRONOLOGIA

A cronologia mais provável para esta pintura deve-se situar entre o período de 1475 e 1500 apesar da maior parte dos investigadores lhe atribuir maior antiguidade, possivelmente iludidos pelo aspecto arcaico de desfigurado da pintura – mais de 90% da pintura perdeu a sua policromia.


Dagoberto Markl julga esta pintura ser dos finais do Séc. XIV e Sílvia Leite propõe uma data de princípios do Séc. XV, todavia o que nos resta ainda da superfície que não perdeu por completo a sua policromia, faz sobressair claramente, ser esta uma obra de grande tratamento e apuro plástico que dificilmente poderia ser alcançado nas datas propostas. A qualidade do trabalho técnico, verificável no curto fragmento da indumentária, junto à inscrição, denota técnica de pintura que ainda não se havia manifestado na pintura em datas anteriores ao último quartil do séc. XV. Repare-se nas diversas tonalidades de vermelho e diversos jogos de luzes e sombras presentes nesse pequeno pedaço da pintura que ainda mantêm as suas policromias de origem, para se ter uma ideia da riqueza da obra original.


Devemos fazer aqui uma justa ressalva; a cronologia proposta pelos dois investigadores atrás referidos remontam a período anterior ao da intervenção de restauro realizado na última década, o que limitaria, de certo, a correcta leitura do fresco, “fazendo com que parecesse não ser mais do que um conjunto de manchas cromáticas desprovidas de modelação e intervaladas por algumas linhas de desenho marcadas com bastante rigidez.”

A data sugerida não decorre somente do estilo e apuro artístico verificável, mas também, do facto de não ser mencionado no documento de 1499 que manda “(…) pintar a charola do convento de dentro e de fora a saber os verdugos desda chave de cima ate baixo e os campo dazul com suas rosas e estrelas de douro (…), ou seja, seria anterior a esta data.

Por outro lado, como algumas das pinturas em tábua realizadas em 1510/1515 vieram tapar as pinturas murais dos mesmo espaços da charola, não poderia o São Cristóvão ser posterior a essa data. Sabe-se que essas tábuas só foram fixadas nas paredes por volta de 1530, pelo que deve ter estado a nossa pintura mural a descoberto durante aproximadamente cinquenta anos se tivermos em conta a cronologia avançada, o que poderia implicar algumas repinturas, estas ainda hoje reconhecíveis. Depreende-se das diversas visitações levadas a cabo em igrejas das ordens militares, que era comum ao fim de duas décadas de existência as pinturas murais estarem necessitadas de repintura ou reavivo de cores.

O facto do referido painel funcionar em estreita ligação com a primitiva porta da entrada da Charola (pela natureza do Santo devia este ser visto de imediato, mesmo ainda antes da Virgem ou de Cristo) situar-se-ia a sua encomenda em período anterior à abertura da porta sul, argumento a anuir a ideia de cronologia avançada de 1475/1500.

2. DAS INSCRIÇÕES OU LADAINHAS - parte I
Da Legenda


Das poucas pinturas murais de São Cristóvão conhecidas, como sejam, a de Adeganha, Évora, Santa Leocádia, Gondar, Outeiro Seco e Serzedelo, a de Tomar é a única que apresenta inscrições, apesar de se encontrar muito esvanecida, é ainda possível identificar o que possivelmente estaria escrito, segundo Luís Urbano Afonso.

Apesar de não se ter conseguido ler a totalidade das treze linhas da legenda que acompanha a imagem, a qual foi claramente retocada em alguns caracteres, pode-se a partir das letras legíveis perceber que estamos diante de duas ladainhas complementares dedicadas ao Santo. A primeira remete para um formulário latino em verso, sobejamente difundido que visava protecção contra a morte súbita, função à qual já tínhamos aludido noutro post, “Christofori sancti speciem quicumque tuetur, illo nempe die nullo languore tenetur”, o qual pode ser lido como “Todo aquele que é visto por São Cristóvão, para os lados de lá seguramente que nesse dia não cairá”, assumindo aqui o “visto” como protegido ou guardado por São Cristóvão.

No que diz respeito à segunda frase, é esta de mais fácil apreensão, mas em todo o caso, segundo Luís Urbano Afonso, talvez se consiga reconhecer algumas palavras, como seja, “CORPUS”, “CHRISTO (X~), “FUSTI”, “(M)ANNOS” e “DOLORE, as quais curiosamente integravam um outra ladainha associada ao Santo, “CHRISTO VISA FORI MANUS EST INIMICA DOLORI”, o que leva a concluir que a segunda frase da legenda deve-se aproximar muito desta formula apotropaica.

3. DAS INSCRIÇÕES OU LADAINHAS II
Da Filactéria


Filactéria junto à mão do Cristo

Além da legenda, já abordada sumáriamente, encontra-se na pintura, duas filactérias, uma junto à mão direita de Cristo, e outra junto ao designado ermitã. Da segunda nada se poderá dizer, em virtude do seu excessivo desgaste, mas da primeira, apesar de bastante esvanecida, deveria o texto corresponder à tradicional frase colocada na “boca” de Cristo neste tipo de iconografia: “EGO SUM LUX MUNDI” ou, na versão mais longa, “EGO SUM LUX MUNDI, VIA, VERITAS ET VITA”, contudo, não se consegue identificar qualquer umas destas palavras no texto, o que leva a pensar, ser esse insólito texto diferente do habitualmente gravado em cenários idênticos.


Filactéria junto à mão do ermitã


4. DA ICONOGRAFIA
Pequeno reparo

Embora só dediquemos aqui umas curtas linhas à iconografia associada ao episódio retratado, não é tema que se esgote neste espaço, e visto já o termos abordado noutro post, e ser tema bastante convidativo a elucubrações, desviar-nos-ia dos objectivos deste artigo tecer substanciais considerações acerca do mesmo.

Da leitura da tese a que tivemos acesso, refere o autor, a presença de uma palmeira reverdecida. De facto, reverdecida é imagem que não levanta dúvidas, mas de uma árvore que não uma palmeira. Todavia julgamos ser apenas um equivoco derivado do pouco enfoque que o autor deve ter dado a esse detalhe, interpretando a imagem a partir dos típicos elementos cénicos que costumam fazer parte da maioria das pinturas do tema que reflectem a lenda.

São Cristóvão além de ser o santo da “boa morte”, poder salvífico atribuído à visualização da sua imagem, não permitindo o fiel nesse dia morrer sem bênção, razão pela qual era a sua localização privilegiada ou desmesuradamente representado, era também invocado para a recuperação de tesouros perdidos e protecção das árvores de fruto - segundo Louis Réau - sendo então no caso de Tomar, protector das Laranjeiras, árvore que julgamos estar ali representada, e sendo a palavra Laranja – ver anteriores postes – traduzida em diversas línguas como “Portugal”, numa lógica dedutiva, mas não menos fantasiosa da nossa parte, assume-se nesta pintura, como protector da nossa nação. Nesta lógica, e para a qual pedimos as maiores reservas, podemos contextualizar a ideia prematura do Cluny, que viu naquela representação uma alusão à missão dos Portugueses no âmbito da epopeia dos Descobrimentos, visto estar representado no mais importante bastião da Ordem de Cristo, responsável por levar o mundo europeu, nas suas caravelas, à outra margem do grande “rio” que é o mar Atlântico.

De facto, está essa imagem representada em lugar de destaque na sede da mais importante instituição religiosa e política de Portugal do século XV, o que lhe confere importância suficiente para não descurar-mos agora a ideia do Cluny, para mais se virmos que a imagem de São Cristóvão aparecia muitas vezes associada aos mapas de navegação do século XIV/XV, como se pode ver no capitulo das Considerações Finais e onde avançamos com uma datação alternativa para a pintura.

São Cristóvão no topo do mapa

Também não podemos deixar de sublinhar o facto de estar inserida na Charola, possivelmente o local mais sagrado e reservado do Convento de Cristo, porventura interdito aos profanos segundo alguns autores, colocando assim em causa, essa mesma interdição aos leigos, ou a ideia, de que a sua invoção para a morte súbita, ser apenas uma superstição popular de iletrados, visto a sua representação ser elucidativa a respeito do reconhecimento oficial que era conferida a este santo.

A ave que o Voltron descobriu entre o emaranhado dos ramos da árvore que constitui o bastão florido – atente-se na rapidez dessa transformação que até já atraiu um pássaro – foi alvo de muitas ideias controversas entre nós. Identificada como abutre, pomba, andorinha, ou mesmo como Fénix segundo o Cluny, visto a Palmeira ser designada também como Fénix, significando neste caso o renascimento da alma de São Cristóvão, concluímos que à margem destas ideias, ter-lhe-iamos que conferir um sentido mais geral por via das más ou forçadas interpretações que podíamos estar a fazer, ou seja, significaria simplesmente a alma do homem do ponto de vista simbólico, se lhe quisermos conferir algum significado a nível do símbolo.


Curiosamente no decurso das nossas pesquisas verificámos que no calendário litúrgico e no tempo cíclico, os santos do dia-a-dia, dividem-se em função da sua invocação. Teríamos assim os Santos associados à protecção do corpo (São Sebastião, Santo Antão, São Roque, etc), os santos curandeiros (São Brás, São Mauro), os milagreiros (Santo António, São Martinho, etc), os institucionais (São Pedro, São Paulo, São Bento, etc) e os da protecção da alma, onde se insere São Cristóvão. Coincidência ou não, esta associação à alma, curiosamente liga-se à simbólica que atribuímos à ave que arrolou-se na árvore que São Cristóvão segura (ver o post Ave Oculta).

3/05/2011

A MARCA DE GUALDIM PAES - ÍNDICE

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)

ÍNDICE
S

1-4. A MARCA DE GUALDIM PAIS
O conto
 S((do Velho do Restelo e já publicado)
S
5. O MILAGRE DE GUALDIM PAES
O Dedo do Demónio

6. ARCA DO TESTAMENTO
Martelo das Heresias

7. EXUMAR O PASSADO
Nas profundezas de um terramoto

8. A MARCA DE GUALDIM PAES
Pedras que falam duas línguas

9. NEGROS VICENTES
Uma missão secreta

10. A RELÍQUIA DE GUALDIM PAES
Do Tesouro
(em colaboração com o Voltron)

11. OS SUBTERRÂNEOS REAPARECEM
Descrições e mapas
(em colaboração com o Voltron)
S
12. A CORREDOURA
Pequeno subsídio

13. GUALDIM PAES
O Fenómeno


Conto já publicado - Restantes capítulos a publicar

3/01/2011

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE IV

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)


A MARCA DE GUALDIM PAIS
(Última parte do conto)

Foi quando eu já estava absolutamente convencido de que nunca haveria uma resposta definitiva que me pudesse ajudar a resolver o mistério que deparei com algo que ao menos me fez compreender um pouco a natureza do que se poderia ter passado.
Depois da morte de Gualdim fui servir para o Castelo de Almourol e um dia, estando de passagem por Lisboa, resolvi passar novamente pela igreja de Santa Maria Maior e rever mais uma vez aquela cruz que me tinha fascinado durante tanto tempo. Foi quando estava a contemplá-la que me apercebi que não estava só. Não muito longe de mim, também a olhar para a cruz, estava um menino que não devia ter mais de seis anos. Olhava atentamente para aquela pequena cruz como se estivesse à beira de descobrir qualquer coisa. Chamei-o e ele inicialmente não me ouviu, foi preciso que lhe tocasse para que ele se libertasse da espécie de transe no qual parecia envolvido.

Descobri que o seu nome era Fernando Martins de Bulhão e que tinha nascido numa casa do outro lado da estrada, em frente à igreja. Descobri que passava ali muito tempo e ao falar mais tarde com o padre ele confirmou-me que não havia um dia que aquele menino não passasse ali para contemplar a cruz de Gualdim havia cravado na pedra. Tal como a mim a cruz fascinava-o. Perguntei-lhe se conhecia a história daquela cruz, ele respondeu-me que sim e contou-me como Gualdim tinha afastado o diabo apenas com o poder de algumas palavras. Foi um milagre, disse, e o homem que fez aquele milagre gravou aquela cruz. Confirmei-o e disse-lhe que estava presente naquela noite. Foi então que me inundou com perguntas acerca do milagre e de Gualdim às quais respondi o melhor que podia. Depois despedi-me do menino e parti.

Iam passar dez anos antes que o voltasse a ver mas o que encontrei não me deixou de surpreender. Estava mais uma vez de passagem por Lisboa e mais uma vez decidi ir até à igreja de Santa Maria Maior. Aproveitei para me confessar e rezar. Como não podia deixar de ser revi a cruz. E foi então que o voltei a ver, desta vez já quase um homem, aquele que tinha sido outrora o menino. Foi ele que me veio falar, disse que se lembrava de mim e contou-me como tinha entrado para a Ordem do Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e que antes tinha estudado ali mesmo naquela igreja. Dei-lhe os parabéns e ele sorriu e agradeceu. Depois perguntei-lhe se ainda ia ali diariamente ver a cruz ao que me respondeu que sim e foi então que me contou, tremendo, que tinha sido aquela cruz e a história à qual ela estava ligada que o tinha levado a seguir a vida religiosa. Em seguida mostrou-me uma outra cruz que ele próprio tinha cravado no interior da igreja, uma marca da sua fé, disse-me para depois me contar todos os seus planos e os seus sonhos, em como planeava defender e espalhar a fé com um fervor e uma coerência tal que me deixou espantado. Mais tarde despediu-se e viu-o partir em direcção ao seu mosteiro. Devo ter reparado em qualquer coisa naquele dia porque nas semanas seguintes mal conseguia pensar em outra coisa do que no encontro que tinha tido com aquele rapaz. Mas, em abono da verdade, se reparei só anos mais tarde é que essa revelação se tornaria consciente ao tê-lo encontrado novamente antes de partir para Marrocos numa missão de evangelização.

Vi-o, pela última vez, à porta da igreja de Santa Maria Maior, como não podia deixar de ser. Os anos já me pesavam e não o reconheci imediatamente. E foi ele que me veio falar. Disse-me que tinha mudado de nome, chamando-se agora António, que estava para partir e que tinha vindo pedir a bênção de D. Estêvão. Eu sorri e desejei-lhe boa sorte. E foi então que aconteceu o evento que me fez compreender um pouco o grande mistério que me tinha preenchido durante tanto tempo.

Devo ter tropeçado e caí. Foi tudo muito rápido e devo ter batido com a cabeça no chão. Senti uma dor violenta, vi sangue a correr pela pedra. Os anos pesavam nos meus ossos e nos meus músculos e por momentos senti-me completamente incapaz de me mover. Mas qual foi a minha surpresa quando senti que alguém me levantava e amparava. Era Fernando, agora António, que assim que me viu caído veio a correr na minha direcção e ajoelhando-se a meu lado colocou a minha cabeça nos seus braços e me disse, segredando-me ao ouvido, não te preocupes pois vai ficar tudo bem, não estás sozinho. E rodei a cabeça e olhei-o nos olhos para ver Gualdim, não o Gualdim que sempre tinha conhecido mas antes o Gualdim do milagre e o mesmo Gualdim que no fervor do seu êxtase tinha gravado a cruz na igreja. Santo Deus, pensei. Como não me tinha apercebido disto antes? Ou talvez me tivesse apercebido, anos antes quando tínhamos falado na igreja, quando o tinha ouvido falar com aquela mesma paixão que tinha visto em Gualdim nos dias que se seguiram ao milagre. Segurei-o pela mão, a ele: o António, a Gualdim. E vi-o sorrir enquanto me limpava o sangue que me cobria a face.

Já não me resta muito tempo de vida mas no entanto não tenho qualquer medo da morte. A verdade é que nunca recuperei completamente daquela queda mas agradeço todos os dias a Deus por ela ter acontecido. Hoje, no leito da minha morte, enfrento o meu destino final com novos olhos. Não com os olhos de um moribundo que teme a morte mas sim com os olhos de um homem que teve a sorte em vida de levantar um pouco o véu dos grandes mistérios.

É claro que fica muita coisa por responder, como por exemplo: Como é que Fernando Martins era Gualdim? Ou: Qual foi o papel da cruz em tudo isto e qual a origem do seu poder? Não tenho resposta para nenhuma destas perguntas nem tempo para as procurar. A minha sensação, e admito que possa estar completamente errado, é que de alguma forma Gualdim, o melhor dos Gualdins, através de um gesto de profunda compaixão conseguiu encontrar vida num homem que nasceu no ano da sua morte, conseguindo dessa forma transcendê-la. Eu olho hoje para a minha vida sem essa ambição. Compreendo que não fui um homem tão vil e mundano quanto Gualdim Pais mas que também não fui tão bom nem capaz de um gesto tão grande e nobre quanto o seu.

FIM




Estamos em crer que o conto publicado possa suscitar algumas reacções violentas entre alguns dos leitores assíduos dos nossos textos e que tenham a figura de Gualdim Pais como a de um Santo. Dificilmente o poderia ter sido, para mais, na sua condição de guerreiro que imponha constantes sangrias e atitudes muito pouco católicas aos olhos dos dias de hoje. Curiosamente, o texto acaba por ligar Gualdim Pais à santidade através de Santo António que nasceu no mesmo ano da morte de Gualdim e que também ele, desenhou uma cruz na mesma torre e teve ânsias de rumar para terras sarracenas a partir da igreja dos Olivais em Coimbra.

Recebemos o texto do Velho do Restelo, a quem tínhamos enviado alguns dados da nossa investigação, e ficámos, literalmente, chocados com a personalidade que este desenhou. Mas conhecíamos nós alguma coisa da sua personalidade que não fossem os seus feitos? Devíamos recusarmo-nos a publicar o texto em virtude da sua descrição não se ajustar minimamente à nossa ideia do Gualdim Pais? Mas afinal recordamos Gualdim Pais por este se ter entregue em momentos da sua vida à bebida e vícios menos próprios ou temo-lo no coração por feitos heróicos que não implicavam que este fosse um poço de virtudes.

O texto acabou por nos comover e quando o terminámos de ler já nem nos lembrávamos das hediondas palavras iniciais. O texto humaniza Gualdim Pais, rompendo com deificação da sua pessoa, permitindo elevá-lo então da sua condição humana à divindade, quer pelo seu gesto de homem sem medos, quer pela ligação que estabelece com um dos homens mais admiráveis de todos os tempos.

Tivemos que o publicar!!

(o post será publicado no decorrer dos próximos meses)

2/23/2011

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE III

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)

 A MARCA DE GUALDIM PAIS
(Terceira parte)

Durante muitos anos se falou daquela noite. Muitas foram as histórias, muitas foram as versões do que aconteceu. Uma das histórias contava que, enquanto ele segredava as palavras ao ouvido do homem, uma luz tinha descido sobre Gualdim, outros disseram que aquele não tinha sido Gualdim mas antes um anjo do Senhor que, tomando a sua forma, tinha curado o possesso, e outros ainda que Gualdim tinha usado uma relíquia que tinha trazido consigo das cruzadas, relíquia essa que, segundo Gualdim, era uma das mãos de S. Gregório. Muitas foram as versões daquela história que foi narrada em primeira mão por pessoas que naquela noite nem sequer estavam presentes.

Houveram também vozes contrárias. Foi levantada a suspeita de que tudo teria sido orquestrado pelo próprio Gualdim para aumentar a sua fama, o seu poder e a sua influência. Segundo alguns ele teria pago ao homem para simular a possessão e a sua consequente recuperação.

Quanto a mim não soube durante muito tempo o que pensar. Nutri durante algum tempo a hipótese da conspiração levantada pelos rivais de Gualdim. Eu conhecia o homem e sabia bem do que ele era capaz, ter simulado tudo aquilo era algo que estava bem dentro das suas capacidades.

Mas na verdade tudo aquilo parecia ter surpreendido tanto o próprio Gualdim quanto todos os outros. Durante os dias seguintes ao suposto milagre Gualdim parecia imerso em uma devoção sem paralelo na sua pessoa. Parecia acreditar que tinha realmente realizado um milagre e esta percepção tinha agido sobre ele levando-o a um reforço temporário da sua fé e à renegação de todos os seus erros e pecados. De facto, e aos olhos de quem conhecia Gualdim, poderia parecer que o seu próprio feito, em vez de ter aumentado a sua arrogância, tinha contribuído para aumentar a sua humildade, e durante uns dias viveu no fervor de uma estranha fé, em jejum e abstinência, enquanto muitas pessoas lhe traziam os seus enfermos com a esperança que ele os pudesse curar. E foi no momento em que o seu êxtase era maior que ele gravou uma cruz numa pedra no contraforte da torre da igreja. Eu observei-o à distância enquanto ele a gravava com martelo e cinzel e a ela regressei muitas vezes depois daquele dia, como se aquela cruz encerrasse algum segredo, como se aquela cruz pudesse responder à questão do mistério do milagre de Gualdim, um tema pelo qual vivi obcecado durante muitos anos e para o qual procurava avidamente uma resposta.

Após gravar a cruz naquela pedra Gualdim começou, gradualmente, a ser o mesmo de sempre. O seu grande fervor religioso acalmou e cessou e ele voltou à comida, à bebida, ao jogo e às mulheres. Nunca mais, em toda a sua vida, ele voltaria a falar daquela noite. Nem mesmo quando estava às portas da morte, quase vinte anos mais tarde, e eu lhe pedi que me contasse a verdade, o que tinha realmente acontecido naquela noite. Quando ele morreu em Outubro de 1195 qualquer resposta que ele pudesse ter desapareceu com ele.

Foi quando eu já estava absolutamente convencido de que nunca haveria uma resposta definitiva que me pudesse ajudar a resolver o mistério que deparei com algo que ao menos me fez compreender um pouco a natureza do que se poderia ter passado.


(Texto: Velho do Restelo - Investigação histórica: Degraconis)

(continua)
Parte IV

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE II

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)

 A MARCA DE GUALDIM PAIS
(Segunda parte)

Hoje apercebo-me que Deus não se preocupa com os defeitos e os erros dos homens. Os homens são homens, é assim que é suposto comportarem-se. O que interessa a Deus pode ser uma única acção em que um homem, superando a sua condição, toca a divindade. É esse o agente da transformação: uma acção.

Eu e Gualdim chegámos a Lisboa depois de termos saído de Tomar e passado umas semanas em Almourol a supervisionar a construção de uns túneis. Era o final do verão e quando entrámos nas muralhas era final de tarde: dois finais que se uniram para cobrir a cidade com um manto de luz dourada que atingiu o seu auge no momento em que o sol estava para cruzar o horizonte. O nosso objectivo era a igreja de Santa Maria Maior e depois de termos deixado os nossos cavalos nas cavalariças do castelo entrámos fazendo o sinal da cruz e murmurando uma curta prece ao Senhor. Não estávamos sózinhos, a ocasião era especial e fomos recebidos, com toda a reverência que Gualdim exigia, pelo deão da igreja D. Roberto e pelo cavaleiro D. Gonçalo Viegas. Gualdim perguntou se já tinha chegado e, visivelmente emocionado, D. Roberto disse que sim, que tinha chegado aquela manhã, que estava na capela contígua. Dirigimo-nos até ao local e foi então que vimos os restos do corpo do mártir São Vicente cuidadosamente colocados em cima de uma mesa. Caímos de joelhos aos pés do mártir cujas histórias contavam de milagres diversos e não menos extraordinários do que aqueles do Nosso Senhor Jesus Cristo. Confesso que a emoção tomou conta de nós. Aos pés do Santo confessámos os nossos pecados, pedimos perdão e um lugar no céu, local do eterno descanso após as provações da vida terrena.

Naquela noite abrimos as portas da igreja aos devotos para mostrar São Vicente à cidade. Foi rezada uma missa em nome do santo, uma espécie de boas vindas para aquele que a partir daquele momento iria ser o protector da cidade. Lisboa compareceu em massa, muitas foram as pessoas que ficaram fora da igreja à espera de poder entrar para ver e tocar no santo. Coxos, paralíticos, zarolhos, manetas, cegos, mudos, surdos, gagos, doentes e miseráveis de toda a espécie entraram na capela, alguns pelos braços de familiares e amigos, outros sózinhos. Eu e outros estávamos na capela na vígilia do corpo, o Bispo abençoava com água benta aqueles que iam entrando. Naquele momento Gualdim percorria os subterrâneos e as passagens internas da igreja que tanto o intrigavam e que, segundo contava a lenda, precediam a igreja e estendiam-se nas profundezas da terra.

Ao fim da noite, quando a capela estava para ser encerrada e as ultimas pessoas entravam na esperança de serem abençoadas pelo santo, estava à porta um homem que não queriam deixar entrar. Corriam umas vozes que era um possesso, outras diziam que era um impostor, mas havia o medo geral que este homem tivesse intenção de danejar o corpo. Discutimos entre nós mas foi Gualdim quem interviu, vindo das catacumbas, e defendeu que o homem devia ter o direito, como todos os outros, a estar na presença do santo. Não havia como contradizê-lo, todos aqueles que conheciam a reputação de Gualdim sabiam que seria melhor ficarem calados e assim o fizeram.

O homem não era velho mas também não era novo. Caminhava lentamente tremendo e arrastando as pernas e ao entrar na igreja tirou o capuz que lhe cobria a cabeça e fez o sinal da cruz ajoelhando-te e beijando o chão de pedra. Ajudámo-lo a levantar-se e acompanhámo-lo até ao corpo. E por duas vezes caiu no caminho e por duas vezes colocámo-lo de pé segurando-o com força para que não caísse enquanto soltava gritos que ecoaram pelas paredes e pelos nichos da igreja levando os devotos ainda presentes a fazerem o sinal de santa cruz procurando com ele afastar o diabo. Olhámos uns para os outros e murmurámos preces pedindo protecção ao Cristo redentor. E foi perante o corpo do santo que o homem caiu pela terceira vez e se deixou ficar no chão a tremer no mais feroz de todos os seus ataques. O bispo ordenou que todos se afastassem e que ninguém lhe tocasse pois o diabo poderia passar para um de nós e assim o fizemos, com alívio é verdade, porque ninguém queria qualquer contacto com aquele miserável. O homem continuou a contorcer-se no chão. No auge do seu ataque começou a engolir a própria língua, parecia que ia sufocar. Alguém gritou que alguma alma piedosa o ajudasse mas o bispo avisou que apenas Deus o poderia salvar, que ninguém se deveria aproximar. E foi então que Gualdim apareceu e empurrou o padre e todos aqueles que se estavam entre ele e o homem e, ajoelhando-se, meteu-lhe a mão na boca e desembrulhou-lhe a língua. Em seguida colocou a sua cabeça entre os seus braços, todo o corpo do homem ainda tremia, e foi então que lhe começou a segredar alguma coisa ao ouvido.

Durante muito tempo muitas das pessoas que estavam presentes ali naquela noite disseram que ouviram Gualdim dizer isto ou aquilo. É mentira. Eu era uma das pessoas mais próximas dos dois homens naquela noite e posso assegurar que não se ouviu mais do um ténue murmúrio imperceptível.

O que se passou a seguir foi falado e repetido pelas sete colinas de Lisboa nos dias e nas semanas seguintes.

O homem parou de tremer e, levantando a cabeça, olhou em redor para todos os que olhavam para ele e perguntou o que se tinha passado. Foi então que alguém gritou milagre e outras vozes seguiram a primeira. O homem levantou-se e depois dele Gualdim para o qual todos olharam com uma expressão de assombro. O homem começou a caminhar e todos se afastaram para o deixar passar e depois Gualdim, a quem muitos chamavam de milagreiro e de santo. Alguém se aproximou dele e perguntou-lhe o que tinha ele dito mas Gualdim recusou-se a responder. Muito dias depois também eu haveria de tentar a minha sorte mas sem qualquer sucesso. O homem possesso afirmou não se lembrar de nada, nem sequer de ter entrado na Sé.

(Texto: Velho do Restelo - Investigação histórica: Degraconis)

(continua)
Parte III

2/14/2011

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE I

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)
S
Como intróito publicamos uma história, dividida em quatro partes, e que servirá de mote ao texto do post propriamente dito. Fazemos agora uma pré-publicação desse texto de introdução, o qual foi desenhado conforme a realidade histórica que apurámos no âmbito da investigação em causa. Naturalmente algumas partes são ficcionadas mas no seu geral está de acordo com os documentos que iremos apresentar como conteúdo do texto da investigação.


A MARCA DE GUALDIM PAIS
(primeira parte)

"Não é possível falar do nascimento de Fernando Martins sem antes falar de Gualdim Pais, já que ambos os homens estão ligados por um nexo de causalidade tão grande que a existência do primeiro sem o segundo parece-me impossível.


Hoje, há luz de todos os anos que vivi e de tudo o que presenciei, posso dizer que fui o homem que melhor conheci Gualdim Pais embora não fossemos particularmente amigos ou íntimos. De facto, não nutria pelo homem nenhum sentimento de profunda estima e amizade nem, em algum momento, abstive-me de criticá-lo por qualquer coisa que possa ter dito e feito. Mas quis Deus que eu estivesse presente em grande parte da sua vida e, neste momento, não posso desejar que assim não fosse.

Gualdim Pais era um homem. Não era extraordinário nem grande nem particularmente generoso e, se não fosse a posição que um dia veio a ocupar e que mais tarde exigiu que se fizesse dele um símbolo, podia perfeitamente ter passado incógnito pela história, como tantos antes e depois dele. Claro que tinha algumas qualidades que lhe valeram o título de Mestre da Ordem do Templo em Portugal. Era um bom guerreiro que tinha alguns conhecimentos de estratégia militar e tinha fé, coragem, ambição e alguns amigos poderosos, entre os quais o Rei D. Afonso Henriques. Mas os amigos nem eram muitos, ou pelo menos amigos que pudessem ser considerados verdadeiramente como tal.

Desenganem-se, eu não fui seu amigo. Porque haveria de o ser? Era um homem gordo e insolente cuja única coisa que gostava mais que combater era comer. E também de beber e de jogos de azar, e de mulheres. Gualdim adorava mulheres. E com o passar dos anos e à medida que aumentava o seu poder ele ia piorando. Os seus ataques de ira iam-se tornando cada vez mais desmedidos e mais frequentes. Não sabia perder e não sabia beber. E depois de qualquer excesso tinha por hábito ir até à capela com a esperança de remendar os seus erros. Tinha um medo terrível do inferno e à medida que a morte se ia aproximando maior era este medo.

No entanto os poucos amigos que tinha eram-lhe completamente fiéis e desculpavam o seu comportamento atribuindo-o às vicissitudes de um temperamento incompreendido que apenas lhe servia para mascarar a sua verdadeira natureza. Ele retribuía essa fidelidade. Estava sempre presente quando um dos seus amigos tinha necessidade e sempre pronto a defendê-los numa luta quer a razão estivesse do seu lado ou não e independentemente do perigo que pudesse correr. Era generoso com eles, à sua mesa nunca faltava comida nem bebida. Era um bom organizador e sabia gerir o dinheiro e expandir o património.

A maior parte dos homens que comandava tinham uma confiança irrealista nas suas capacidades. Corriam histórias das suas façanhas na batalha de Ourique e na Palestina, a maior parte delas inventadas e, quase seguramente, espalhadas por ele. Queria inspirar temor e respeito, queria que os seus amigos o admirassem e inspirar terror nos seus inimigos. Ninguém lhe pode tirar o mérito de ter conseguido o que queria.

No fundo o semblante de Gualdim Pais mudava conforme a posição de quem olhava para ele e o tamanho das suas sombras dependiam da hora do dia. Era difícil ter uma visão completa daquele homem que suscita em mim, simultaneamente, um sentimento de repulsa e de atracção.

Mas a questão que se segue é qual é a sua ligação com Fernando Martins, já que ambos nunca se cruzaram nem nunca se conheceram. Já que ambos os homens são tão diferentes que têm apenas em comum o facto de comungarem da mesma fé e que esta crença os levou em viagens pelo mundo fora embora um tenha lutado com a espada e o outro com a palavra.

A ligação é muito subtil e é normal que escape ao olhos de alguém que não tenha presenciado de tão perto os acontecimentos que a criaram e que eu tive a fortuna de observar. Uma ligação tão importante quanto fundamental para desvendar os segredos quer de um quer de outro e talvez compreendê-los melhor.


Parte II

(Texto: Velho do Restelo - Investigação histórica: Degraconis)

1/28/2011

1/26/2011

UMA INESPERADA TESTEMUNHA

Dois testemunhos de quem viu o São Cristóvão na Ponte
Autoria: CETHOMAR Círculo SC
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Ninguém ignora que as nossas investigações, por vezes vastas e complicadas, são instigadoras de novas descobertas. Vários foram os postes dedicados a São Cristóvão: ao que se encontra na pintura mural da Charola, por vezes interpretado como cinocéfalo; à estátua que podemos ver no claustro do cemitério e que estaria outrora na ponte velha, mas que julgamos ter demonstrado, a nosso ver, ser uma equívoca identificação, vindo este artigo reforçar os argumentos anuídos; e ainda ao São Cristóvão que de facto permaneceu na ponte velha entre o século XVIII e XIX.


É deste último que daremos novas notícias, sem contudo fazer grandes reparos, visto já o termos feito em local próprio no Blog. Todavia fazemos aqui uns parênteses:

Todas as referências conhecidas publicamente, e também as que acrescentámos anteriormente no post  dedicado-lhe, reportam-se a testemunhos orais relativos à estátua que teria estado num dos extremos da ponte velha. J. M. Sousa não a viu pessoalmente mas conheceu-a pela tradição oral dos que ainda lhe conheciam referências, e que talvez até a tivessem conhecido, acreditar nas descrições deste e, Vieira Guimarães, também não teve contacto com a mesma, limitando-se a repetir o que teria apurado junto aos antigos Tomarenses da sua época.

Pois bem, posto a carência de descrições directas de quem a tivesse conhecido no respectivo local ou mesmo noutro, vimos com este pequeno post, visto o próximo a ser publicado ser excessivamente longo, dar-vos a conhecer menções a essa estátua por quem a viu pessoalmente e escreveu algumas impressões quanto à mesma.

Ponte Velha – 1780

Poderão achar estranho, os ilustres autores Tomarenses, os quais, J. M. Sousa e Vieira Guimarães, não terem mencionado esses testemunhos, quando dedicaram-lhe algumas considerações, e aos quais podemos acrescentar Amorim Rosa por também não os ter usado para ilustrar a descrição que fez dessa antiga presença de São Cristóvão na ponte. Na verdade, os dois primeiros, não poderiam ter conhecido esses testemunhos, e quanto ao último autor, talvez não tivesse tido a sorte de cruzar-se com esses escritos. Adiante irão entender o motivo.

Apresentemos então a nossa testemunha inesperada: Robert Southey, um dos mais notáveis escritores ingleses da época. Poeta e escritor, nasceu em Bristol em 1774 e morreu em Greta Hall, Keswick, em 1843. Amigo de Samuel Coleridge, esteve em Portugal em 1795 - seu tio, o reverendo Robert Hill, era capelão em Lisboa - e depois novamente em 1800 e 1801. Grande admirador de Portugal e da nossa literatura, possuía uma notável biblioteca de livros portugueses. Foi ainda autor de outras obras, como The History of Brazil (1810-1819) e History oh the Peninsular War (1823-1832).


Robert Southey tinha por hábito tomar notas sobre as suas viagens, e no dia 1 de Março de 1801, esteve em Tomar, tendo registado no seu diário impressões sobre o que viu e sentiu nesta terra Templária, que aliás conheceu relativamente bem. Não só dá-nos conta dos notáveis monumentos, mas refere também um pouco do seu quotidiano nas curtas passagens por Tomar.

Interessa-nos por agora, dar-vos conhecer as suas menções quanto à estátua, escusando-nos por agora às considerações que tece sobre a designada Adega da Iniciação do Convento de Cristo – serão essas informações motivo para um outro post.

“(…) junto à ponte e na mesma margem do rio, ainda se vê a janela de onde lançaram Iria, depois de assassinada. A sua estátua está junto dela. (…). Há uma estátua numa das extremidades, tão desgastada pelo tempo, que a tosca aparência da criança que está nos seus braços seria insuficiente para identificá-la como São Cristóvão sem a ajuda da tradição. As pernas estão esburacadas sem piedade, porque se considera que alguns dos grãos da perna de S. Cristóvão, tomadas num copo de água, são um remedo excelente para as sezões. (…)” in “Journals of a Residence in Portugal, 1800-1801”

Inédito ficou este diário até 1960, pelo que, estariam os autores anteriores a esta data, vedados a tal informação. Deve-se a sua publicação ao Dr. Adolfo Cabral, o qual devemos congratular conforme descrito no documento seguinte:


Mas não fiquemos por aqui. A nossa compulsiva leitura do seu legado literário, após conhecermos estas referências, através do Prof. Dr. Carlos Veloso e Prof. Doutor António Ventura, que não se debruçando sobre este tema, divulgaram esta publicação do Dr. Adolfo Coelho, levou-nos a identificar mais uma referência por parte do Robert Southey à ponte e à estatua num outro seu escrito, este no entanto publicado em 1865:


“Em Tomar está uma estátua de St. Cristóvão na ponte: três grãos da sua perna, tomados num copo de água, são a cura certa para a “ague” (malária); e a pobre perna de St. Cristóvão está bastante gasta por esta repetida prática” (nossa tradução –The Life and Correspondence of Robert Southey – publicado em 1865).

Estas valiosas e importantes informações – pela primeira vez estamos na presença de um testemunho de alguém que terá mesmo tocado a estátua – leva-nos a ir buscar uma parte que excluímos dos anteriores postes dedicados a este tema, dado que agora poderemos refutar a ideia enunciada por J. M. Sousa no livro “Noticia descriptiva e histórica de Thomar” de 1903, um dos melhores livros já feito sobre Tomar.


Já o tínhamos citado a propósito da estátua que se encontrava na ponte das Ferrarias, visto este tecer considerações em redor desta, considerando-a de período bastante afastado, romana talvez, mas excluímos as referências que o mesmo faz à estátua de São Cristóvão, visto a sua inclusão no post citado, poder suscitar algumas dúvidas no leitor.

Diz-nos que essa estátua que se achava na ponte seria a de São Estêvão, mas apontando as nossas investigações para ideia contrária e consequentemente negar essa atribuição, não a tomámos em consideração na altura.

As descrições que nos levaram a escrever este post, são então, argumento suficiente para refutar a ideia de tratar-se de São Estêvão, dado que Robert Southey, apesar de não conseguir identificar a estátua pelo estado em que se encontrava, nos informar que o povo a tomava como São Cristóvão. Poderemos pensar que a estátua, por eventualmente ser muito antiga, possa ter sido simplesmente rebaptizada pelo povo, mas não teria J. M. Sousa meios para conseguir afirmar a sua ideia e, apesar de não estar a figura de São Cristóvão associado a curas, ao contrário de São Estêvão, é de iconografia muito diferente, a qual não inclui menino algum. Por este motivo não será inverosímil tratar-se do Santo que nos tem guiado durante tantos postes.

Artigos do Blog relacionados:
SÃO CRISTOVÃO DA CHAROLA
Parte I - Uma história com pés e cabeça
Parte II - O santo que não se aguentou nas pernas
Parte III - Um insólito São Cristóvão

A SAGA DE SÃO CRISTÓVÃO
Parte IV - Uma estátua de fazer perder a cabeça
Link 

A AVE DE SÃO CRISTÓVÃO
Uma Ave Oculta
Link

12/31/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE XV

ENIGMA POR RESOLVER
Thomar esquecido

Os dados recolhidos não nos permitiram concluir acerca da ruína. A dimensão do edifício, eventualmente com alpendre, bem lajeada e o facto de se encontrar no cimo de uma colina, fizeram-nos ponderar tratar-se da desaparecida Capela de Santa Bárbara, todavia outros elementos e descrições faz-nos recear nessa atribuição, se não mesmo veementemente negá-la.

Seja como for, revelámos para o público em geral, um novo espaço edificado, que tem escapado a quase todos, esquecido talvez, e que à par da Charolinha pode inflamar imaginações e preencher o imaginário da “Lusitânia Transformada”.

Já habituados os nossos leitores às nossas investigações, onde o fim não é condição essencial, aproveitámos o momento para dar a conhecer mais alguns aspectos da História de Tomar; a Cerca e Mata dos Sete Montes, a obra "Lusitânia Transformada", a descrição e localização exacta da desaparecida Capela da Nossa Senhora dos Anjos, a Capela de Santa Bárbara, uma suposta réplica da Mata no sítio da Cruz Quebrada, os "demónios" do Convento de Cristo, entre outros, assim como imagens de colecções privadas e inéditas, ficando no entanto o pardieiro descoberto a ser um enigma quanto ao que teria sido no passado.

Os Pastorinhos: Semrosto, Cluny, Voltron e Degraconis

Notas de rodapé:
Alguns dos temas abordados irão ser tratados autonomamente em post a publicar mais tarde, não só em virtude de existirem mais informações, que não importavam à investigação em causa, mas porque existe mais fotos para dar a conhecer, não obstante termos conseguido publicar muitas sem retirar a estética ao texto apresentado. Algumas das fotos que vimos e temos, não obtiveram autorização de publicação o que nos deixou bastante tristes. 


Agora que o ensaio chegou ao fim iremos de seguida enviar a versão pdf a todos os que estão na mailing list do Cethomar, o qual não é inteiramente igual ao que foi publicado.

FIM

12/30/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE XIV

FAI – FOI ANTIGAMENTE IGREJA
Feira Agrícola e Industrial de Tomar

Da análise e confrontação dos documentos aos quais tivemos acesso, muitos dos quais aqui publicados, ficámos com a noção de que a Capela de Santa Bárbara, possivelmente se localizaria mais próxima do Convento de São Francisco – pertencia a estes – nos terrenos da FAI, do que certamente no local onde fica a ruína de que se tem vindo a dar notícias.

Ao fundo vê-se os terrenos onde se instalou a FAI (e também...x)

A instalação da Feira Agrícola e Industrial de Tomar (FAI) em anteriores terrenos do Convento de São Francisco e da Cerca Conventual da Mata dos Sete Montes, já na segunda metade do século XX, terá sido então o derradeiro golpe ao direito de existência de mais uma antiga capela Nabantina. Hoje a FAI é uma sombra do que foi à umas décadas atrás – veja-se o documentário do Miguel Spiguel de 1972 de 9 minutos. Hoje aquele local não faz justiça ao que foi à uns séculos atrás, o que podem sentir pelos testemunhos que trouxemos até aos leitores.


 Vistas sobre Tomar a partir dos terrenos onde se veio a instalar a FAI

 Próximo Capítulo
ENIGMA POR RESOLVER
Thomar esquecido

12/29/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE XIII

SANTA BÁRBARA DOS CAVALEIROS
De João Amendoeira©  especialmente para o nosso ensaio
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SANTA BÁRBARA 
DOS CAVALEIROS

Quantos mais segredos guardas?
Tuas mãos teus pés seus seios,
serão teus sermões tuas armas?
Tua história a inspiração de guerreiros?

Tomar guarda-te e tu guardas Tomar
entre sete montes pedras e segredos
guardas esotérica a fórmula para amar
mais valiosa que o ouro mais forte que os medos

e na voz de um trovão cospes o fogo
que faz tua sede e de ti guardiã de cavaleiros
água de mística e sol demagogo
num anel eclíptico e tons segredeiros.

Viva em ti o nosso coração,
a voz das espadas
o grito de uma nação
o saber em mãos de salvas.


Próximo Capítulo
FAI – FOI ANTIGAMENTE IGREJA
Feira Agrícola e Industrial de Tomar
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12/28/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE XII

A 3ª INCURSÃO
Onde vais, ó Santa Bárbara?

Aproveitou-se esta terceira ida ao local para fazer uma tentativa de reconstituição visual da ruína. Diga-se de passagem que nenhuma das duas que se fez, ficou em conformidade, mas o traço assim se manifestou. Foi uma incursão descontraída e visto na altura estarem convencidos ser o local da antiga forca e da Capela de Santa Bárbara, onde gostariam de levar a Santa em Procissão com o apoio do povo, visto já lhe conhecerem o paradeiro, levaram umas quantas orações que recolheram para entender quem de facto tinha sido Santa Bárbara e quanto devoção o povo lhe teve no passado. Nada mais adequado do que as orações para entender o sentir dos antigos, orações essas que são autênticos tesouros da literatura religiosa e popular. Surpreendeu-os!

A sua “especialidade” é abrandar, desarmar, desmanchar ou espalhar as trovoadas, como o atestam as versões que ora publicamos.


Tentativas reconstituições

ORAÇÕES E HINO


Recolhida na zona de Tomar




Próximo Capítulo
SANTA BÁRBARA DOS CAVALEIROS
De João Amendoeira

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE XI

ENCONTRO COM SANTA BÁRBARA
Um intenso olhar


Junto a pessoa antiga da cidade de Tomar, no decurso das investigações que encetámos pela cidade à procura do eventual paradeiro de objectos sacros que tivessem pertencido à dita capela, obtivemos a informação de que esta imagem, tida como Santa Bárbara, teria vinda da arruinada capela à Santa dedicada. Encontra-se onde obviamente deveria encontrar-se, no Convento de São Francisco. Foi alvo de mau restauro tendo as mãos sido mal colocadas. Falta-lhe um atributo que entretanto deve ter-se perdido.

Próximo Capítulo
A 3ª INCURSÃO
Onde vais, ó Santa Bárbara?

12/26/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE X

UMA ANTIQUÍSSIMA IMAGEM DE TOMAR
A mais antiga da urbe completa

De volta à imagem que dá a conhecer o que parece ser uma capela no cimo do monte, sabemos ser uma aguarela com vista geral sobre Tomar, da autoria de um pintor italiano, membro do séquito dos Médicis, do período de 1660/1670.

Aguarela de Tomar Séc. XVII – Em tamanho reduzido mas em
toda a sua extensão (carregar para aumentar)

Insere-se esta num vasto conjunto de outras imagens de Portugal, permitindo identificar vários monumentos e ruas de Tomar em data tão recuada. De realçar que, além dos notáveis monumentos, poderemos apreciar o arco de Santa Iria e o Padrão Sebástico. Aproveitamos o momento, dado o valor que as suas imagens têm, e visto não estarem amplamente divulgadas, para dar a conhecer mais algumas que retratem locais sobejamente conhecidos. Em algumas poderão apreciar as antigas muralhas que cercavam as cidades.
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(após carregarem e abrirem a foto podem carregar novamente para sua ampliação)
Se alguém quiser pedir imagem de alguma localidade em especial pode enviar-nos email. Não é aqui lugar para uma publicação excessiva de imagens que fuja do tema. Junto à imagem de Tomar vem outra imagem que não conseguimos reconhecer. Se alguém quiser ajudar agradeciamos.

A primeira vez que tivemos contacto com esta gravura de Tomar, no “Roteiro Histórico”, ficou-se com a ideia de tratar-se de uma imagem do século XX, visto o nome da cidade impresso na paisagem ser Tomar e não Thomar como seria de esperar. A capela ou casa existente, seria então, uma recriação do autor, talvez inspirada no “Tomar Lendário” de Antónia Guerra, que dá notícias da existência da capela naquele local.

Todavia, posteriormente, conseguimos ter contacto com o livro que contém todas as aguarelas do pintor, e verificou-se, para nosso espanto, ser a imagem de data bastante afastada, de tal forma, que a capela nessa altura ainda nem devia ter sido consagrada a Santa Bárbara, mas ainda devotada à imagem do Cristo crucificado, e onde nasceu misteriosa árvore nas suas configurações, em cruz. Portanto, e visto a acuidade do pintor nas representações, não temos dúvidas que o edifício representado seja real: a Capela de Santa Bárbara.
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Imagens mais tardias, como seja esta de 1780, já não permite aquilatar com segurança a existência da capela naquele tempo, contudo pode ter sido descurada a sua representação pelo pintor, porque pelas informações já dadas à estampa, sabemos nos inícios do século XX as ruínas desta ainda serem perfeitamente visíveis.
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(continuação) Monte de Santa Bárbara
Apud “Tomar Lendário” 1932

Próximo Capítulo
ENCONTRO COM SANTA BÁRBARA
Um intenso olhar