Contacte-nos através do nosso email:
cethomar@hotmail.com

5/28/2011

QUINTA DO CONVENTINHO

HISTÓRIA LENDA E MISTÉRIO
Autoria: Paulo Andrade | Cethomar



A Quinta do Conventinho tem sido palco de encontro de alguns elementos do Cethomar nos últimos meses, não só para desfrutar da beleza dos seus jardins e cascatas mas também para discussão de alguns trabalhos que vieram a ser publicados no blog. São várias as motivações que levaram à escolha deste local e todas elas se relacionam com Tomar.
s
Encerra a Quinta do Conventinho algumas curiosidades que facilmente permitem estabelecer um termo de comparação com os mistérios Templários de Tomar, senão mesmo entendê-los. Exemplo disso é a existência de uma assombrosa cripta mesmo por debaixo da capela-mor e à qual se acede através da remoção de uma pequena tampa tumular, sendo a cripta coberta por uma grande pedra semelhante à que encontramos em Tomar na igreja de Santa Maria dos Olivais  designada como a pedra oblíqua, não obstante as reservas que temos quanto à suposta cripta de Tomar. Alias, são três as criptas existentes nesta antiga capela consagrada ao culto do Espírito Santo. Se existe local onde poderemos sentir o que eventualmente as lendas de Tomar ditam sobre a cripta de Santa Maria, esse sítio é a Capela da Quinta do Conventinho, não obstante ser de data posterior.

Mas não fiquemos apenas por aqui, pois não é de somenos importância a lenda que rodeia este local situado em Santo António dos Cavaleiros que refere a existência de um túnel que liga este convento masculino ao convento feminino de Odivelas onde D. Dinis encontrou a sua última morada terrena, e entre os quais se pode desenhar facilmente uma linha recta. Ideia semelhante existe em Tomar em relação ao antigo convento masculino que se situava em Santa Maria e o convento feminino de Santa Iria, todavia sem alguma vez se ter comprovado a existência desse mítico túnel.

Não pense o leitor ficarem por aqui as analogias que apontámos como as motivações para o consagrar aos nossos encontros, e antes de revelar o motivo que levou-nos a convidar o Paulo Andrade a escrever um artigo sobre o convento, há que dar noticia de que no claustro onde foram sepultados durante séculos os freis conventuais do Espírito Santo é possível perceber o que eventualmente se esconde debaixo do lajeado sepulcral do claustro do Cemitério do Convento de Tomar, os quais nunca foram expostos e estudados como os da Quinta do Conventinho.

Não é de excluir das nossas motivações o facto de ser um convento consagrado ao Espírito Santo, o que nos remete indirectamente para as ideias messiânicas partilhadas pelo nosso Rei Poeta e por D. Manuel I, assim como para as solenes festas de Tomar.

A título de curiosidade, há que referir um dos nomes incontornáveis da biografia deste espaço: Alves dos Reis, certamente o maior “burlão” da história portuguesa e possivelmente um dos maiores do mundo, tendo-se tornado numa espécie de cartão de apresentação a quem o visita actualmente.

Por fim, e de forma a não prender por mais tempo no “vestíbulo” deste artigo o leitor ávido por descobrir a Quinta do Conventinho, só nos resta dizer que foi este lugar adquirido, após a extinção das ordens religiosas, por um homem que de igual forma adquiriu parte do Convento de Cristo: António Costa Cabral, o primeiro Conde e Marques de Tomar.

                                                                                  Degraconis
                                                                               P’lo Cethomar

Parte I
Publicação prevista para o fim do mês de Junho.
Eventual possibilidade de visita do local, incluindo a cripta
Max: 30 pessoas. Reserva Obrigatória

5/21/2011

DO TOMBO DA ORDEM DE CRISTO

JÁ PUBLICADO NO BLOG
Informamos que já se encontra publicado no blog este novo trabalho, desta vez de iniciativa do Cetarquivo, encontrando-se dividida em quatro partes. Três dedicadas excluisivamente ao Tombo e uma outra sobre a data da fundação do Castelo, esta última da autoria do Cethomar. Será de todo conveninente lerem as introduções, do Degraconis e Sérgio Tavares, incluidas na primeira parte.





CAPITULARES - parte IV

in Tombo dos Bens, Rendas, Direitos...
Autoria: CETARQUIVO

Algumas das Capitulares do Tombo
S

UM TEXTO DESAPARECIDO - parte III

in Tombo dos Bens, Rendas, Direitos...
Autoria: CETARQUIVO


(uma tentativa de leitura do texto desaparecido)

………… que este livro … … … / o dossiê … … … …  que  o soubesse acabar pelo que ficou imperfeito … … (cartoreiras) esperamos sempre que viesse alguém que … … as escrituras que  fizesse dele a perfeição que a obra pede. Nunca se aplicara ao … … …. e … passados mais de cinquenta anos que o livro … um caderno: no qual tempo se perderam muitas folhas e outras se romperam até que no ano de … dois … cartoeiros (escriturários) que vendo a curiosidade do livro e quanto … … … antiguidade e da escrituras da fazenda que nele se …  do … … …  aumentou os cadernos que achou  e os  …  …  a … … modo que soube e o fez encadernar parece … que era … aproveitou o que achou inteiro. e que o autor não pedia nada em …  apresenta.  o convento ganha muito em haver memória de sua fundação e dos autores portugueses e mereces que os reis de Portugal sempre lhe fizeram   

DA DATA DA FUNDAÇÃO - parte II

in TOMBO DOS BENS, RENDAS, DIREITOS E ESCRITURAS DA
MESA MESTRAL DA ORDEM DE CRISTO NA VILA DE TOMAR
Autoria: CETHOMAR

 Data da edificação constante do tombo de Pedro Alvares de Seco (fólio 2)

Pedro Alvares de Seco aponta o dia 1 de Março de 1168 da Era de César como data da fundação do Castelo de Tomar, conforme depreendeu da leitura do letreiro inscrito numa pedra que se encontrava encastrada na parede dos paços designados por Henriquinos, colocando no entanto, em causa, a veracidade dessa mesma data, visto não se ajustar às outras datas referidas. Conforme o mesmo escreve, considerar a data de 1168 da Era de César como a da fundação, e ajustados os 38 anos da alteração do calendário ocorrida no séc. XIV, teríamos o ano de 1130 da Era de Cristo, data impossível para esse acontecimento, visto existir factos já conhecidos como sendo de data bem posterior, nomeadamente a nomeação de Gualdim como mestre da Ordem do Templo na província de Portugal, e então não terem encaixe em data ao recuada.

Passados aproximadamente duzentos anos, Frei Bernardo de Costa na sua obra “Historia da Militar Ordem de Cristo”, volta a invocar a mesma data conforme inscrito no letreiro citado, o qual leu e chegou mesmo a transcrever de igual. Alias, Frei Bernardo de Costa, além dessa data de 1168, em determinada passagem do seu tombo refere ainda a data de 1178, notoriamente um engano da sua parte induzido pela leitura do texto que podem ver no inicio deste artigo, onde o “s” do “cesenta” se assemelha a um “t”.


Antes de prosseguir, há que dar destaque à advertência de Oliveira Martins nas suas aulas quanto ao estudo dos livros produzidos no século. XVI, nomeadamente os conhecidos pelo nome de “Leitura Nova”, dizendo-nos que esses “volumes são preciosas obras de arte pela ornamentação que ostentam e pela perfeição caligráfica, mas nem sempre primam pela correcção das transcrições. Por isso, antes de fazer fé em qualquer documento da “Leitura Nova, deve o estudioso acautelar-se e averiguar da possível existência do original. Todavia, grande parte desses documentos só existe naquela colecção (…)”. Iguais reparos encontramos no presbítero secular Dr. João Pedro Ribeiro, um dos escritores mais eruditos de Portugal e verdadeiro precursor de Alexandre Herculano nas investigações históricas dos documentos existentes pelos arquivos e cartórios do reino, e que chega ao ponto de dizer que “os erros de data dos Livros Leitura Nova do Real Archivo são tão frequentes quanto o numero de datas que neles se transcreveu”.

Então mas a data inscrita é de facto a de 1168? Será possível que estes dois autores, que conviveram de perto com a sua presença no castelo, não conhecerem bem a data constante na pedra, que aliás é facilmente legível? Imiscuímo-nos de citar outros autores que tenham caído em semelhante erro por não serem tão relevantes para a história do castelo de Tomar.

Antes de explicar o engano da parte destes dois autores, iremos recuar até ao tempo de Gualdim Pais, e a partir dai explicar como surge a pedra que ambos leram erradamente, ou à qual não deram suficiente atenção na sua leitura.
No século XII, data da fundação do castelo, Gualdim Paes inscreveu a data do acontecimento num pedra que se encontra ainda hoje na torre de menagem. Trata-se de um lintel de uma porta para o primeiro piso da torre só acessível por meio de uma escada amovível, como ditavam as regras militares da altura. A inscrição, com o passar dos anos, foi-se degradando, chegando mesmo a perder parte do seu texto pela mutilação que sofreu na sua parte inferior. Pode o leitor, ficar a saber, a título de curiosidade, ser essa mesma pedra um aproveitamento de uma Ara funerária romana, onde é possível ler na sua parte voltada para baixo uma outra inscrição com mais de mil anos que a da comemoração da fundação do castelo.



Torre de Menagem onde está o letreiro do tempo de Gualdim Paes
 e onde o aspado é mais evidente – Inscrição romana virada abaixo.

A determinada altura, possivelmente no século XIII, por ordem de alguém foi o texto dessa pedra da torre de menagem, transcrito para uma nova pedra, constituindo-se como uma réplica da original. O motivo de tal acção não há maneira de o saber, mas possivelmente surge do facto da pedra da torre estar francamente em risco de se perder, ou eventualmente, uma forma de dar noticias da fundação do castelo em lugar mais central, visto a cópia ter sido colocada em local francamente mais visível e próximo do centro da vida social. Não só se fez uma cópia integral do texto como se acrescentou mais notícias da história daquele castelo. Foi colocada na fachada dos Paços da Rainha e só posteriormente assentou no local onde se encontra hoje.

Foi esta cópia que ambos os autores referiram como tendo sido aquela de onde tiraram a data que apontaram como a da fundação do castelo.


Aparentemente a data que se pode ver é a de MCLXVIII (1168) mas o “X” apresentado na data não é semelhante aos restantes que surgem no decurso do texto. Trata-se de um “X” “aspado”, o que multiplica o “X” (de valor 10) por 4, dando-lhe então o valor de 40 e não de 10. Portanto a leitura da data deveria ser de MCLXXXXVIII, ou seja, o ano de 1198, e se a essa data retirar-mos os tais 38 anos obtemos a data de 1160, actualmente considerada como a da fundação. (existe ainda a questão de ser 1160 ou 1161, mas essa é uma outra história para outra altura)

 Verifica-se mais facilmente o “X” “aspado” na pedra original, mas não deixa de ser verificável também na cópia, pelo menos para quem esteja familiarizado com textos antigos, pelo que muito nos causa admiração, Pedro Alvares de Seco não ter feito uma correcta contagem. Não temos neste momento a certeza se foi por não saber que o “X” “aspado” tem o valor de 40, ou se a causa se deve a descuido seu quando a viu, não tendo olhado atentamente para a original que estava nas proximidades. Mais nos admira, ter levantado muitas dúvidas quanto a essa data e não se ter dedicado a tentar perceber que erro poderia estar a ocorrer.

Quanto a Frei Bernardo de Costa, o qual não nos causa tanto espanto em ter cometido o mesmo lapso de leitura, pode muito bem ter sido influenciado pelo texto de Pedro Alvares de Seco, do qual se socorreu para elaboração do seu tombo sobre a historia do Ordem do Templo e da Ordem de Cristo. Todavia o facto de ter feito uma transcrição para o seu tombo do próprio texto constante na pedra duplicada, onde não “aspou” o “X”, pode levar-nos a pensar não ter dado conta ou não saber de tal prática antiga.


Transcrição do letreiro feita pelo Frei Bernardo de Costa
 onde não se verifica o “X” aspado

Se acreditarmos no que João Pedro Ribeiro afirma, poderemos crer tratar-se de facto de um desconhecimento da parte de muitos dos que estavam incumbidos de transcrever documentos antigos no séc. XVI e não só nesse século pelos vistos.


Resta-nos dizer que a inscrição original, em virtude da mutilação sofrida perdeu as ultimas palavras do texto, estando no entanto reconstituídas na copia que se fez.

DO TOMBO DA ORDEM DE CRISTO - parte I

Autoria: CETARQUIVO
Do Tombo dos Bens, Rendas, Direitos e
Escrituras da Mesa Mestral da Ordem de
Cristo na vila de Tomar.

Antes de dar lugar à publicação promovida pelo coordenador do CETARQUIVO, deixamos aqui uns pequenos reparos ao seu conteúdo para que o leitor perceba a sua importância.

As duas imagens conhecidas da Charola, anteriores ao século XVII, correspondem a iluminuras de dois livros quinhentistas. Uma das imagens, retirada dos designados livros "Leitura Nova" (Fig 1), dá-nos a conhecê-la pelas mãos de um anjo e talvez seja a mais difundida. A outra, menos divulgada, está reproduzida em alguma literatura, nomeadamente nos Anais da UAMOC, todavia, sempre a preto e branco e sem deixar perceber de que modo se insere no livro. Trata-se de uma iluminura de uma letra capitular e ao contrário do que se possa pensar, é bastante preenchida de cor. Estamos em crer ser a primeira vez que se publica esta imagem da Charola contextualizada no texto que a rodeia e colorida conforme está no original (Fig 2).

Fig 1                                  Fig 2

É necessário, antes de prosseguir, pedir algumas reservas quanto à sua representação: Trata-se somente de uma tentativa de reconstituição de como teria sido anteriormente a D. Manuel I e não como efectivamente era na altura, visto no decorrer dos séculos ter sofrido obras que alteraram o primitivo oratório da fortaleza. Já não possuía a porta que se vê na imagem, tendo dado lugar à janela que conhecemos actualmente e nem a cobertura era a mesma.

Se desenhada com base em memorias ou porventura em algum desenho entretanto desaparecido não há maneira de o sabermos, não deixando no entanto de ser um valioso documento histórico, nem que seja pela ideia que se tinha da mesma em tempos anteriores.

Outro aspecto de interesse especial, e que está ainda mal explorado, é o que concerne ao Tombo de Santa Maria dos Olivais. São diversas as alusões ao dito tombo e para o qual o autor contribuiu com um texto, não obstante os seus autores mais profícuos terem sido Gaspar Garro (de letra gorda e grossa), que o iniciou, e Bartolomeu de Almeida que o finalizou. Denota-se deste modo, a relação que existe entre os dois tombos no que diz respeito a informações pertinentes sobre os assuntos tratados em ambos.

Ainda sobre o mítico Tombo de Santa Maria e sobre o qual muito se tem especulado quanto aos segredos que encerra, aproveitamos o momento para dizer que existe a ideia de que se tenha perdido, preocupação manifestada pela UAMOC quando se refere ao mesmo dizendo que anda por ai aos tombos já naquela altura. Não está perdido e encontra-se em relativamente bom estado.

A titulo de curiosidade, podemos realçar que no Tombo de Santa Maria, de 236 fólios, pode-se recolher informações relacionadas com os túmulos destruídos “sem aver disso necessidade”, segundo a opinião do autor, e é precedido de um texto ao qual atribui a designação de “Vestíbulo” do livro (16 fólios), claramente num sentido metafórico, porque tal como nos vestíbulos “se acha qualquer notável e preciosa matéria de que no livro se trata…”. Visto não ser esta a matéria de agora avancemos adiante.

Após esta introdução estar concluída e o trabalho do Cetarquivo pronto a publicar, o Sérgio Tavares, manifestamente surpreso (não era para menos), informa-nos que existe um texto escondido e aparentemente imperceptível no primeiro fólio, e que possivelmente iria conseguir dá-lo a conhecer. Até ao presente momento ainda não obtivemos notícias do seu teor, mas a certeza, da parte do Sérgio Tavares, de que, seguramente, irá conseguir publicar quase a totalidade do que se esconde nessas letras que nos passaram despercebidas. Poderia ser simplesmente o decalque da página seguinte ou a tinta da página anterior mas já nos foi garantido não o ser. Ficamos então muito ansiosos por tal, e para não tardar esta publicação, iremos o incluir muito brevemente num post no seguimento deste.
Na parte final deste texto inclui-se algumas das espectaculares capitulares do Tombo, onde alias se pode verificar duas interessantes imagens, a nosso ver, de D. Manuel I e D. João III, e para as quais se pede a vossa maior atenção, com realce para a primeira capitular do lado esquerdo, por ventura a de D. Manuel.

Não sendo uma publicação critica da parte do Cetarquivo optámos por fazer um pequeno reparo numa publicação à parte, guardando para outro post uma análise mais exaustiva em conjunto com as descrições de Frei Jerónimo Roman.

Só nos resta assim congratular o Sérgio Tavares por esta iniciativa e ficamos aguardar mais algumas publicações relacionadas com este Tombo, visto ter-nos sido dito haver outras partes de interesse superior para os estudos que o Cethomar vem promovendo através do Blog.

                                                                                           Degraconis
                                                                                        P’lo Cethomar

1. Introdução

O CETARQUIVO, cujo âmbito é o de apoiar os diversos núcleos de trabalho do CET (o CETHOMAR por enquanto é o único ainda divulgado publicamente), vem por meio deste post dar a conhecer a primeira de várias publicações cujo objectivo é expôr parte do importante acervo documental que têm vindo a reunir ao longo dos últimos anos, sendo o objecto deste agora publicado de especial interesse para o CETHOMAR o qual agradeço, na pessoa do Degraconis, o apoio na sua elaboração.

No momento de entregar ao público o presente texto, cumpre-me mencionar que obra tão vasta e complicada não se afigurou obra fácil. Conhecedor das limitações em termos de recursos e habilitações em paleografia para semelhante tarefa, não espero como tal, ser isento de críticas, incluindo-me nas primeiras fileiras dos leitores que possam tecer ásperas críticas a este trabalho de actualização de um texto arcaico de caligrafia e pontuação bastante diferente do nosso português corrente, o qual deve obedecer a regras convencionadas por mim desconhecidas.

Humildemente, estimo no entanto, aparte do proveito que seja possível do trabalho realizado, que o leitor lhe traga correcções que lhe pareçam aproveitáveis para a dignidade que o texto merece. Caso já tenho sido feito semelhante trabalho, o qual não conheço, muito agradeço indicação do seu paradeiro.

Não pretendo tecer considerações sobre o seu conteúdo e autor, visto ser apenas uma publicação com o intuito de divulgar.

Convém no entanto informar os leitores, tratar-se de um Tombo encomendado por D. João III, administrador do Mestrado da Ordem de Cristo, ao Pedro Álvares (1492-1581), cavaleiro da Ordem, por Alvará dado em Tomar em 1542, conforme escrito no fólio inicial, aqui transcrito, não obstante a sua feitura ser bastante posterior.

Acompanha esta publicação um apêndice com algumas das belíssimas capitulares que surgem ao longo do texto. Este tema será aprofundado futuramente. O CETARQUIVO publicará em forma de catálogo a totalidade das capitulares que se encontram patentes neste tombo. Lembro que o pdf inclui notas minhas de rodapé ao texto que não foi possível colocar no blog. O pedido do pdf deverá ser efectuado por email.

                                                                           Sérgio Tavares
                                                                  Coordenador do Cetarquivo


2. Tombo dos Bens, Rendas, Direitos e ...


(carregar 2x para alta resolução e possível leitura)

"De El Rei faço saber a vós doutor Pedro Alvares do meu desembargo e juízo das causas do convento desta vila de Tomar que por meu regimento vos tenho mandado que fizésseis demarcação das heranças e propriedades do dito convento e igrejas desta vila e dos bens e heranças que pertencem à mesa mestral na dita vila e seu termo / e porque agora serão informado que a dita demarcação é feita vos mando que façais tombo de todas as ditas heranças e propriedades do dito convento e igrejas e da mesa mestral / os quais tombos fareis em livros encadernados apartados sobre e no principio de cada livro será trasladado este alvará para se saber como os ditos tombos se fizeram por meu mandado, e assim mesmo fareis tombo dos bens que pertencem à vigaria desta vila de Tomar e às comendas do convento pela dita maneira, e este alvará mando que se cumpra posto que não seja passado pela chancelaria sem embargo da ordenação em contrário, Jorge Rodrigo o fez em Tomar a seis de Maio de mil e quinhentos e quarenta e dois anos.
S
(na parte inferior da página descobri um texto apagado que consegui reconstituir
 em algumas das suas partes. Está públicado no post seguinte)

Da invocação da igreja do convento e do seu fundador. Folio 2


(Fólio onde se insere a imagem da Charola)

A igreja deste convento é da invocação do bem-aventurado São Tomás Arcebispo Cantuáriense (de Cantuária) do Reino de Inglaterra e ao fazer deste tombo não se achou nem pôde saber quem a edificou nem em que tempo/ pode ser que foi por negligência e descuido do Dom prior que era ao tempo que se mudou o portal principal dela que sabia estar da parte do levante entre a torre da capela de São Jorge e a dos sinos em cujo lugar agora está a fresta grande rasteira de vidraças por não guardar ou mandar trasladar o letreiro que devia estar sobre ela / como está o nome do edificador e tempo em que se edificou o castelo sobre o portal grande dos arcos debaixo da sala dos paços. E posto que ao presente não se saiba ao certo de quem a edificou nem em que tempo / pudesse crer por prováveis razões e conjecturas que o mesmo edificador do castelo que foi o mestre D. Gualdim a edificou / o que não pode ser senão depois de feito o castelo muitos anos / porque este castelo foi começado de edificar pelo dito mestre no primeiro dia de Março da era de mil e cento e sessenta e oito / que fora o ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo mil e cento e trinta, tirados os trinta e oito anos que a era de era de César precedeu o dito nascimento: ao qual tempo não era, nem dai a mais de trinta anos foi canonizado este bem-aventurado santo / a cuja honra e sob cuja invocação se fez esta igreja / porque o papá Alexandre terceiro que o canonizou foi eleito no ano do nascimento do senhor de mil e cento e cinquenta e oito e canonizou-o no sétimo ano de seu pontificado / e não se podia dedicar igreja à sua  honra e sob sua invocação senão depois de ser canonizado / pelo que está manifesto que depois de se começar de edificar o castelo se passaram trinta anos ou mais antes que se pudesse edificar esta igreja, e que o mesmo Dom Gualdim que edificou o castelo a edificasse parece porque era vivo ao tempo que se o dito santo canonizou e viveu depois vinte e nove anos porque faleceu na era de mil e duzentos e trinta e três segundo se mostra pelo epitáfio da sua sepultura que está em Santa Maria do Olival que foi no ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo mil e cento e noventa e cinco / e é bem de crer que homem tão grande edificador que tantos castelos edificou quis dar fim e remate à sua inclinação de edificar juntamente com sua vida em fazer e acabar o mais nobre edifício de todos quantos fez assim por ser dedicado ao culto divino como por a obra ser muito melhor na forma e fortaleza que todas as outra que fez,

Primeira parte do tombo do convento.


Forma e fortaleza desta casa,
A capela desta igreja está em meio dela e é uma charola oitavada e em cada oitavo fica seu arco vão / e parece que se fez assim para o altar estar no meio dela e se poder ver Deus de todas as partes ao redor / e sobre cada arco está uma fresta para claridade do alto da capela e cada um dos oito pilares que estão entre arco e arco têm incorporadas quatro colunas / as duas que estão de frente uma da outra em cada arco não sobem mais que até à volta deles e as outras duas que estão uma da parte de dentro da capela e outra de fora sobem até as voltas das abóbadas da capela e do corpo / o corpo cerca a capela de redor e é de tanta largura sua circunferência quanta é a do diâmetro da capela / e fez-se o corpo com engenhosa e graciosa invenção em dezasseis vãos sendo a capela em oitavos / e a cada um dos oitavos da capela respondem dos dezasseis do dito corpo / cada um dos quais e tamanho como cada um dos oitavos nem mais nem menos / e em cada canto destes dezasseis vãos está meio pilar com sua coluna incorporada do modo e forma dos da capela e sobe até à volta da abóbada e de cada coluna nasce seu arco sobre que se firma a abóbada: dos quais oito respondem às outras oito colunas da capela / os outros oito acabam em represas sobre as frestas da mesma capela / e nos panos de entre pilar e pilar do corpo estão oito frechas em sua proporção e altura / um dos panos com fresta e outro sem ela e algumas destas frestas do corpo estão agora tapadas por causa das obras que depois se fizeram / as paredes são de onze palmos em grosso / afortelezadas com 16 fortes botareos da parte de fora em que estribão os dezasseis arcos da abobada. Foi feita esta igreja sem coro e só com dois portais / dos quais o mais pequeno fica dentro do cerco que vêm do castelo a esta igreja e à mão direita da entrada deste portal vai pelo grosso da parede uma escada para o andar de cima da abobada / o outro portal era o principal e estava contra o levante para fora do dito cerco entre a torre de São Jorge e a dos sinos onde agora está a frecha de vidraças rasteira de que fica dito / e desta maneira e forma deixou o edificador esta casa e formoso e muito gracioso templo / esperando pelos prósperos e claros tempos D’El Rei D. Manuel da gloriosa memória que os tem / e D´El Rei D. João nosso senhor seu filho para o adornar como fizeram espiritual e temporalmente com tão religioso e devoto culto divino e tão sumptuosas e tais obras que assim aos naturais como aos estrangeiros que as vêem alevantam os espíritos à contemplação dos bens da glória divina.

Para que foi edificada a igreja do convento. Fólio 3


Que esta igreja não foi edificada para ser mosteiro e convento de religiosos como agora é senão para oratório privado e fortaleza.
Manifesto está que esta igreja não foi edificada para ser convento dos religiosos do Templo que o castelo e cerca desta vila e edificaram e povoaram de começo / porque tinham nela seu convento que era a igreja de Santa Maria do Olival como tenho dito no tombo dela / mas as causas e fim porque se podiam mover o dito mestre D. Gualdim e religiosos a edificá-la / deviam ser para os que estivessem em guarda deste castelo / em tempo que disso houvesse necessidade tivessem oratório em que ouvissem missa e orassem e juntamente fortaleza / a qual no lugar onde esta igreja está edificada lhe era necessária por ser muito mais alto que o lugar onde está o castelo que lhe fica sujeito / em tanto / que tomado este lugar / com pouca dificuldade se tomaria o castelo / e pode ser e assim parece que nesta necessidade de terem fortaleza neste lugar se viram o mestre D. Gualdim e seus cavaleiros no ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo mil e cento e noventa / no qual tempo os mouros os tiveram cercados por seis dias neste castelo como se mostra pela segunda parte do letreiro que está sobre a porta dos arcos debaixo da sala dos paços e por mim dito no tombo de Santa Maria do Olival e daquele tempo parece muito conforme a verdade que se o dito mestre Dom Gualdim foi o edificador desta casa (como é de crer) a começou de edificar e teve tempo para a acabar antes do seu falecimento / porque viveu depois cinco anos como se mostra pelo epitáfio de sua sepultura já atrás dito. E a dedicá-la à honra e sob nome e invocação deste santo o moveriam à santidade de sua vida e os milagres que o Senhor Deus por ele fez depois de sua morte cuja a fama por toda cristandade resplandecia em vida do dito mestre …

4/29/2011

DO LIBRO DE LA YNCLITA CAVALLERIA DE CRISTO

De Fray Hieronymo Roman
Autoria: CETHOMAR | CETARQUIVO


 1. DO CETARQUIVO

O Cethomar como centro de estudos acerca de Tomar e do seu património edificado e cultural, tem como instrumento de trabalho, entre outros, um arquivo particular com mais de um milhar de obras sobre temas relacionados.
S
Apesar de ser um arquivo de índole particular, pelo facto de ser um acervo na sua maioria em formato digital, irá mais tarde, permitir ao público em geral, aceder ao mesmo e requisitar obras que necessite no âmbito das suas pesquisas. Alias, têm sido vários os pedidos da parte de investigadores, nomeadamente do IPT, e que têm ficado surpreendidos com a quantidade de material que conseguimos disponibilizar.

O autor destas linhas é um exemplo vivo disso, visto as requisições feitas pelo mesmo ao responsável pelo Cetarquivo raramente serem infortuitas, mesmo quando este julga ser impossível encontrar determinada obra, tendo sido caso disso as obras dedicadas a Gualdim Paes, de Silva Viana e de Virgínia de Castro e Almeida, que por serem obras raras, foram em Março reeditadas pelo Turismo de Tomar em edição fac-smile. A existência das suas primeiras edições no Cetarquivo, permitiu enriquecer bastante o último capítulo da Marca de Gualdim Paes, precisamente a ele dedicado.


Duas biografias de Gualdim Paes dos anos 1895 e 1944 respectivamente
(a de 1895 do Viana surge no âmbito das comemorações dos 700 anos)

É de salientar que o acervo é constituído na sua maioria por obras anteriores à segunda metade do século XX, e não se confina à língua portuguesa.

2. DE FREI JERÓNIMO ROMAN E SUA OBRA

Umas das obras que tem sido estudada e consultada pelos participantes no círculo de estudos do Cethomar é um dos livros de Frei Jerónimo Roman do séc. XVI (constituído por três livros) que, em Portugal não tem um único exemplar completo. Os próprios ilustres que participaram na UAMOC, apenas conheceram alguns fragmentos da obra, e aproveitando-os, deram a conhecer algumas partes dos mesmos.


A edição da designada "Colecção Pombalina", adquirida a descendentes do Marquês de Pombal, e hoje na Biblioteca Nacional, tem início na página 51, dizendo-nos os Anais da UAMOC que “a parte existente começa no final do capitulo 21. Os capítulos que faltam tratavam muito provavelmente da Ordem do Templo e da instituição da Ordem de Cristo”. De facto assim é, e sendo essa parte da qual essa edição está carenciada, a relativa à Ordem do Templo, especula-se que tenha sido deliberadamente extraída, destruída ou ocultada, numa tentativa de obstrução às verdades que deviam permanecer apagadas da memória da história.

Não se exclui essa hipótese, ou eventualmente o interesse de algum arrojado leitor que quis ler comodamente em casa esses vinte e um capítulos na ânsia de encontrar respostas ou tesouros lendários que já deviam povoar a imaginação de muitos.

Contudo, em Portugal existem mais edições e apesar de não estarem completas, contemplam esses capítulos iniciais, exemplo disso é a do Arquivo de Tarouca, adquirida pela biblioteca nacional em 1971, pelo que os Anais não lhe podem fazer qualquer referência nos inícios dos séc. XX.

De todas as versões conhecidas, a que se encontra em Madrid é a que melhor se apresenta organizada e completa, não obstante parecer não ter sido publicada, visto faltar-lhe as licenças que as de Portugal apresentam. Tem esta versão alguns fólios com imagens, não tendo acontecido o mesmo com a versão da Livraria de Tarouca, apesar de terem sido deixados em branco os espaços para integrar as ditas imagens. Visto a versão Madrilena só estar catalogada a partir de 1958, também os colaboradores dos Anais da UAMOC não podiam ter acesso à mesma.

A obra de Frei Jerónimo Roman é de valioso interesse para o conhecimento da Ordem do Templo em Portugal e da Ordem de Cristo, tendo sido amplamente explorada por Vieira Guimarães, Gracez Teixeira e outros que constituíam a UAMOC, todavia apenas as partes que eram conhecidas pelos mesmos. A par de Pedro Álvares de Seco, ao qual daremos destaque em futuros posts, Frei Roman apresenta-se como alguém que conheceu de perto muitos dos documentos existentes no Convento de Cristo, que entretanto desapareceram, aproveitando-se desses para nos dar muitas informações, queixando-se no entanto, por vezes, da falta de muita informação disponível. Podiam já não existir muitos documentos no Convento que relatassem histórias antigas, mas o facto da sua obra ser de data tão recuada e este ter convivido com os Freires da Ordem de Cristo, muitas eram ainda as memórias possíveis de registo.


As descrições do Convento e da Charola são preciosas, dado serem escassas noutras obras, excepção faça-se a Pedro Álvares de Seco, tendo sido algumas publicadas nos Anais, todavia em espanhol antigo, o que torna o texto de muito difícil leitura. Foi precisamente no âmbito do nosso trabalho de tradução desses textos dados a conhecer nos Anais que conseguimos uma versão actualizada e para nosso espanto, o livro completo.

Iremos então a partir de agora dedicar vários posts aos dois primeiros livros da “História da Ínclita Cavalaria de Cristo na Coroa de Portugal”, uma espécie de edição anotada (ou critica) de algumas passagens que consideramos autênticos tesouros para quem se interessa pelas duas Ordens Militares citadas, com mais incidência, obviamente, sobre aspectos relacionados com a cidade de Tomar.


Excerto do “Capítulo 25 - Da Sacristia, relíquias e coisas preciosas que existem no convento de Tomar”
(Traduzido)

Detalhes como os acima extratados; procissões com a mão de São Gregório, segundo consta trazida da terra santa por Gualdim, relíquias de São Sebastião e uma pedra com o sangue da venerada Santa Iria, são exemplos claros de quão preciosas informações se conservam nesta obra. É certo que muitos capítulos repetem notícias já amplamente divulgadas por outras crónicas e manuscritos já hoje conhecidas, mas não deixa de ser mais um documento a reforçar o material histórico existente. Aliás, Augusto Cardoso Pinto, em 1932, produz uma obra de título “Frei Jerónimo Román e os seus inéditos sobre a história portuguesa” onde se debruça precisamente sobre informações que considerava inéditas na historiografia existente nos documentos dos arquivos portugueses.


Oportunamente contamos dar mais informações sobre o homem e a sua obra, ficando desde já aqui, a nossa disponibilidade para enviar aos interessados em ter já a obra completa, visto estar disponível, a própria obra e mais uns quantos livros relacionados com tema, assim como excertos críticos dos anais, bastando para isso enviar o pedido para o nosso email do cethomar.

(disponível em pdf - pedir por email)


4/15/2011

NOVA PUBLICAÇÃO

NOVOS SUBSÍDIOS SÃO CRISTÓVÃO
Análise Critica da pintura mural


Foi publicada a IV parte do post
Ver no final do texto a parte 4. Da Iconografia

4/07/2011

CANAL CETHOMAR

Autoria: CETHOMAR

Decidimos inaugurar o canal do CETHOMAR no youtube com este pequeno vídeo inédito sobre os míticos túneis de Tomar, aproveitando o momento para prestar homenagem ao J.M. de Sousa, sobejamente conhecido pela autoria do livro "Noticia descriptiva e histórica da cidade de Thomar" de 1903, e onde num trecho o autor nos descreve um episódio relacionado com os subterrâneos que tem inflamado muitas imaginações. Pedimos para que estejam atentos ao canal visto estarmos em fase de criação e carregamento de filmes.


Canal

4/04/2011

TEMPLÁRIOS PORTUGUESES

Autoria: CTP | Etálides Produções

O curto filme que agora apresentamos reflecte ideias, predominantemente Portuguesas, quanto à saga da Ordem dos Templários e a sua continuação no espírito da Ordem de Cristo criada logo após a sua extinção, culminando na epopeia dos descobrimentos. Criado pela Etálides Produções, presença assídua nas nossas confraternizações, destinou-se a fazer a abertura da conferência “Memória e Espiritualidade da Ordem dos Templários em Sintra e Colares” organizada pela CTP - Comunidade Teúrgica Portuguesa no dia 26 de Março. É com muito prazer que vos damos a conhecer este filme, visto muitos dos nossos leitores, eventualmente, estarem de acordo com a mensagem expressa. Aconselha-se a ouvir com o volume no máximo e a aumentar o ecrã de forma a ler as legendas.


(podem os interessados em ver a conferencia na integra obter link nos comentários)

3/14/2011

NOVOS SUBSÍDIOS SÃO CRISTÓVÃO

Análise Critica da pintura mural
Autoria: Círculo SC do Cethomar
(Degraconis, Voltron , Cluny)


No decorrer do presente ano muitos foram os ensaios que dedicámos à presença de São Cristóvão em Tomar, e estando a terminar o ano, ainda em redor deste tema gravitamos, apresentando-se este último texto – se o vier a ser -, a nosso ver, portador de notícias que até à pouco tempo nos eram totalmente desconhecidas, não obstante as várias tentativas que fizemos para as conseguir trazer ao blog na altura. Trata-se da “decifração”, digamos leitura, do texto que faz parte da pintura mural do São Cristóvão que se encontra na Charola, assim como, uma hipótese de datação.

Obviamente, e constatadas as nossas logradas hipóteses de leitura desse texto, tivemos que nos socorrer de terceiros, consubstanciando-se este ensaio nas hipóteses avançadas pelos mesmos. Todavia, outras ideias expressas neste texto, que não se relacionem directamente com a leitura do texto e datação da pintura mural, são ilações dos elementos do Cethomar que têm vindo a desenvolver trabalhos nesta área.

1. DA CRONOLOGIA

A cronologia mais provável para esta pintura deve-se situar entre o período de 1475 e 1500 apesar da maior parte dos investigadores lhe atribuir maior antiguidade, possivelmente iludidos pelo aspecto arcaico de desfigurado da pintura – mais de 90% da pintura perdeu a sua policromia.


Dagoberto Markl julga esta pintura ser dos finais do Séc. XIV e Sílvia Leite propõe uma data de princípios do Séc. XV, todavia o que nos resta ainda da superfície que não perdeu por completo a sua policromia, faz sobressair claramente, ser esta uma obra de grande tratamento e apuro plástico que dificilmente poderia ser alcançado nas datas propostas. A qualidade do trabalho técnico, verificável no curto fragmento da indumentária, junto à inscrição, denota técnica de pintura que ainda não se havia manifestado na pintura em datas anteriores ao último quartil do séc. XV. Repare-se nas diversas tonalidades de vermelho e diversos jogos de luzes e sombras presentes nesse pequeno pedaço da pintura que ainda mantêm as suas policromias de origem, para se ter uma ideia da riqueza da obra original.


Devemos fazer aqui uma justa ressalva; a cronologia proposta pelos dois investigadores atrás referidos remontam a período anterior ao da intervenção de restauro realizado na última década, o que limitaria, de certo, a correcta leitura do fresco, “fazendo com que parecesse não ser mais do que um conjunto de manchas cromáticas desprovidas de modelação e intervaladas por algumas linhas de desenho marcadas com bastante rigidez.”

A data sugerida não decorre somente do estilo e apuro artístico verificável, mas também, do facto de não ser mencionado no documento de 1499 que manda “(…) pintar a charola do convento de dentro e de fora a saber os verdugos desda chave de cima ate baixo e os campo dazul com suas rosas e estrelas de douro (…), ou seja, seria anterior a esta data.

Por outro lado, como algumas das pinturas em tábua realizadas em 1510/1515 vieram tapar as pinturas murais dos mesmo espaços da charola, não poderia o São Cristóvão ser posterior a essa data. Sabe-se que essas tábuas só foram fixadas nas paredes por volta de 1530, pelo que deve ter estado a nossa pintura mural a descoberto durante aproximadamente cinquenta anos se tivermos em conta a cronologia avançada, o que poderia implicar algumas repinturas, estas ainda hoje reconhecíveis. Depreende-se das diversas visitações levadas a cabo em igrejas das ordens militares, que era comum ao fim de duas décadas de existência as pinturas murais estarem necessitadas de repintura ou reavivo de cores.

O facto do referido painel funcionar em estreita ligação com a primitiva porta da entrada da Charola (pela natureza do Santo devia este ser visto de imediato, mesmo ainda antes da Virgem ou de Cristo) situar-se-ia a sua encomenda em período anterior à abertura da porta sul, argumento a anuir a ideia de cronologia avançada de 1475/1500.

2. DAS INSCRIÇÕES OU LADAINHAS - parte I
Da Legenda


Das poucas pinturas murais de São Cristóvão conhecidas, como sejam, a de Adeganha, Évora, Santa Leocádia, Gondar, Outeiro Seco e Serzedelo, a de Tomar é a única que apresenta inscrições, apesar de se encontrar muito esvanecida, é ainda possível identificar o que possivelmente estaria escrito, segundo Luís Urbano Afonso.

Apesar de não se ter conseguido ler a totalidade das treze linhas da legenda que acompanha a imagem, a qual foi claramente retocada em alguns caracteres, pode-se a partir das letras legíveis perceber que estamos diante de duas ladainhas complementares dedicadas ao Santo. A primeira remete para um formulário latino em verso, sobejamente difundido que visava protecção contra a morte súbita, função à qual já tínhamos aludido noutro post, “Christofori sancti speciem quicumque tuetur, illo nempe die nullo languore tenetur”, o qual pode ser lido como “Todo aquele que é visto por São Cristóvão, para os lados de lá seguramente que nesse dia não cairá”, assumindo aqui o “visto” como protegido ou guardado por São Cristóvão.

No que diz respeito à segunda frase, é esta de mais fácil apreensão, mas em todo o caso, segundo Luís Urbano Afonso, talvez se consiga reconhecer algumas palavras, como seja, “CORPUS”, “CHRISTO (X~), “FUSTI”, “(M)ANNOS” e “DOLORE, as quais curiosamente integravam um outra ladainha associada ao Santo, “CHRISTO VISA FORI MANUS EST INIMICA DOLORI”, o que leva a concluir que a segunda frase da legenda deve-se aproximar muito desta formula apotropaica.

3. DAS INSCRIÇÕES OU LADAINHAS II
Da Filactéria


Filactéria junto à mão do Cristo

Além da legenda, já abordada sumáriamente, encontra-se na pintura, duas filactérias, uma junto à mão direita de Cristo, e outra junto ao designado ermitã. Da segunda nada se poderá dizer, em virtude do seu excessivo desgaste, mas da primeira, apesar de bastante esvanecida, deveria o texto corresponder à tradicional frase colocada na “boca” de Cristo neste tipo de iconografia: “EGO SUM LUX MUNDI” ou, na versão mais longa, “EGO SUM LUX MUNDI, VIA, VERITAS ET VITA”, contudo, não se consegue identificar qualquer umas destas palavras no texto, o que leva a pensar, ser esse insólito texto diferente do habitualmente gravado em cenários idênticos.


Filactéria junto à mão do ermitã


4. DA ICONOGRAFIA
Pequeno reparo

Embora só dediquemos aqui umas curtas linhas à iconografia associada ao episódio retratado, não é tema que se esgote neste espaço, e visto já o termos abordado noutro post, e ser tema bastante convidativo a elucubrações, desviar-nos-ia dos objectivos deste artigo tecer substanciais considerações acerca do mesmo.

Da leitura da tese a que tivemos acesso, refere o autor, a presença de uma palmeira reverdecida. De facto, reverdecida é imagem que não levanta dúvidas, mas de uma árvore que não uma palmeira. Todavia julgamos ser apenas um equivoco derivado do pouco enfoque que o autor deve ter dado a esse detalhe, interpretando a imagem a partir dos típicos elementos cénicos que costumam fazer parte da maioria das pinturas do tema que reflectem a lenda.

São Cristóvão além de ser o santo da “boa morte”, poder salvífico atribuído à visualização da sua imagem, não permitindo o fiel nesse dia morrer sem bênção, razão pela qual era a sua localização privilegiada ou desmesuradamente representado, era também invocado para a recuperação de tesouros perdidos e protecção das árvores de fruto - segundo Louis Réau - sendo então no caso de Tomar, protector das Laranjeiras, árvore que julgamos estar ali representada, e sendo a palavra Laranja – ver anteriores postes – traduzida em diversas línguas como “Portugal”, numa lógica dedutiva, mas não menos fantasiosa da nossa parte, assume-se nesta pintura, como protector da nossa nação. Nesta lógica, e para a qual pedimos as maiores reservas, podemos contextualizar a ideia prematura do Cluny, que viu naquela representação uma alusão à missão dos Portugueses no âmbito da epopeia dos Descobrimentos, visto estar representado no mais importante bastião da Ordem de Cristo, responsável por levar o mundo europeu, nas suas caravelas, à outra margem do grande “rio” que é o mar Atlântico.

De facto, está essa imagem representada em lugar de destaque na sede da mais importante instituição religiosa e política de Portugal do século XV, o que lhe confere importância suficiente para não descurar-mos agora a ideia do Cluny, para mais se virmos que a imagem de São Cristóvão aparecia muitas vezes associada aos mapas de navegação do século XIV/XV, como se pode ver no capitulo das Considerações Finais e onde avançamos com uma datação alternativa para a pintura.

São Cristóvão no topo do mapa

Também não podemos deixar de sublinhar o facto de estar inserida na Charola, possivelmente o local mais sagrado e reservado do Convento de Cristo, porventura interdito aos profanos segundo alguns autores, colocando assim em causa, essa mesma interdição aos leigos, ou a ideia, de que a sua invoção para a morte súbita, ser apenas uma superstição popular de iletrados, visto a sua representação ser elucidativa a respeito do reconhecimento oficial que era conferida a este santo.

A ave que o Voltron descobriu entre o emaranhado dos ramos da árvore que constitui o bastão florido – atente-se na rapidez dessa transformação que até já atraiu um pássaro – foi alvo de muitas ideias controversas entre nós. Identificada como abutre, pomba, andorinha, ou mesmo como Fénix segundo o Cluny, visto a Palmeira ser designada também como Fénix, significando neste caso o renascimento da alma de São Cristóvão, concluímos que à margem destas ideias, ter-lhe-iamos que conferir um sentido mais geral por via das más ou forçadas interpretações que podíamos estar a fazer, ou seja, significaria simplesmente a alma do homem do ponto de vista simbólico, se lhe quisermos conferir algum significado a nível do símbolo.


Curiosamente no decurso das nossas pesquisas verificámos que no calendário litúrgico e no tempo cíclico, os santos do dia-a-dia, dividem-se em função da sua invocação. Teríamos assim os Santos associados à protecção do corpo (São Sebastião, Santo Antão, São Roque, etc), os santos curandeiros (São Brás, São Mauro), os milagreiros (Santo António, São Martinho, etc), os institucionais (São Pedro, São Paulo, São Bento, etc) e os da protecção da alma, onde se insere São Cristóvão. Coincidência ou não, esta associação à alma, curiosamente liga-se à simbólica que atribuímos à ave que arrolou-se na árvore que São Cristóvão segura (ver o post Ave Oculta).

3/05/2011

A MARCA DE GUALDIM PAES - ÍNDICE

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)

ÍNDICE
S

1-4. A MARCA DE GUALDIM PAIS
O conto
 S((do Velho do Restelo e já publicado)
S
5. O MILAGRE DE GUALDIM PAES
O Dedo do Demónio

6. ARCA DO TESTAMENTO
Martelo das Heresias

7. EXUMAR O PASSADO
Nas profundezas de um terramoto

8. A MARCA DE GUALDIM PAES
Pedras que falam duas línguas

9. NEGROS VICENTES
Uma missão secreta

10. A RELÍQUIA DE GUALDIM PAES
Do Tesouro
(em colaboração com o Voltron)

11. OS SUBTERRÂNEOS REAPARECEM
Descrições e mapas
(em colaboração com o Voltron)
S
12. A CORREDOURA
Pequeno subsídio

13. GUALDIM PAES
O Fenómeno


Conto já publicado - Restantes capítulos a publicar

3/01/2011

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE IV

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)


A MARCA DE GUALDIM PAIS
(Última parte do conto)

Foi quando eu já estava absolutamente convencido de que nunca haveria uma resposta definitiva que me pudesse ajudar a resolver o mistério que deparei com algo que ao menos me fez compreender um pouco a natureza do que se poderia ter passado.
Depois da morte de Gualdim fui servir para o Castelo de Almourol e um dia, estando de passagem por Lisboa, resolvi passar novamente pela igreja de Santa Maria Maior e rever mais uma vez aquela cruz que me tinha fascinado durante tanto tempo. Foi quando estava a contemplá-la que me apercebi que não estava só. Não muito longe de mim, também a olhar para a cruz, estava um menino que não devia ter mais de seis anos. Olhava atentamente para aquela pequena cruz como se estivesse à beira de descobrir qualquer coisa. Chamei-o e ele inicialmente não me ouviu, foi preciso que lhe tocasse para que ele se libertasse da espécie de transe no qual parecia envolvido.

Descobri que o seu nome era Fernando Martins de Bulhão e que tinha nascido numa casa do outro lado da estrada, em frente à igreja. Descobri que passava ali muito tempo e ao falar mais tarde com o padre ele confirmou-me que não havia um dia que aquele menino não passasse ali para contemplar a cruz de Gualdim havia cravado na pedra. Tal como a mim a cruz fascinava-o. Perguntei-lhe se conhecia a história daquela cruz, ele respondeu-me que sim e contou-me como Gualdim tinha afastado o diabo apenas com o poder de algumas palavras. Foi um milagre, disse, e o homem que fez aquele milagre gravou aquela cruz. Confirmei-o e disse-lhe que estava presente naquela noite. Foi então que me inundou com perguntas acerca do milagre e de Gualdim às quais respondi o melhor que podia. Depois despedi-me do menino e parti.

Iam passar dez anos antes que o voltasse a ver mas o que encontrei não me deixou de surpreender. Estava mais uma vez de passagem por Lisboa e mais uma vez decidi ir até à igreja de Santa Maria Maior. Aproveitei para me confessar e rezar. Como não podia deixar de ser revi a cruz. E foi então que o voltei a ver, desta vez já quase um homem, aquele que tinha sido outrora o menino. Foi ele que me veio falar, disse que se lembrava de mim e contou-me como tinha entrado para a Ordem do Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e que antes tinha estudado ali mesmo naquela igreja. Dei-lhe os parabéns e ele sorriu e agradeceu. Depois perguntei-lhe se ainda ia ali diariamente ver a cruz ao que me respondeu que sim e foi então que me contou, tremendo, que tinha sido aquela cruz e a história à qual ela estava ligada que o tinha levado a seguir a vida religiosa. Em seguida mostrou-me uma outra cruz que ele próprio tinha cravado no interior da igreja, uma marca da sua fé, disse-me para depois me contar todos os seus planos e os seus sonhos, em como planeava defender e espalhar a fé com um fervor e uma coerência tal que me deixou espantado. Mais tarde despediu-se e viu-o partir em direcção ao seu mosteiro. Devo ter reparado em qualquer coisa naquele dia porque nas semanas seguintes mal conseguia pensar em outra coisa do que no encontro que tinha tido com aquele rapaz. Mas, em abono da verdade, se reparei só anos mais tarde é que essa revelação se tornaria consciente ao tê-lo encontrado novamente antes de partir para Marrocos numa missão de evangelização.

Vi-o, pela última vez, à porta da igreja de Santa Maria Maior, como não podia deixar de ser. Os anos já me pesavam e não o reconheci imediatamente. E foi ele que me veio falar. Disse-me que tinha mudado de nome, chamando-se agora António, que estava para partir e que tinha vindo pedir a bênção de D. Estêvão. Eu sorri e desejei-lhe boa sorte. E foi então que aconteceu o evento que me fez compreender um pouco o grande mistério que me tinha preenchido durante tanto tempo.

Devo ter tropeçado e caí. Foi tudo muito rápido e devo ter batido com a cabeça no chão. Senti uma dor violenta, vi sangue a correr pela pedra. Os anos pesavam nos meus ossos e nos meus músculos e por momentos senti-me completamente incapaz de me mover. Mas qual foi a minha surpresa quando senti que alguém me levantava e amparava. Era Fernando, agora António, que assim que me viu caído veio a correr na minha direcção e ajoelhando-se a meu lado colocou a minha cabeça nos seus braços e me disse, segredando-me ao ouvido, não te preocupes pois vai ficar tudo bem, não estás sozinho. E rodei a cabeça e olhei-o nos olhos para ver Gualdim, não o Gualdim que sempre tinha conhecido mas antes o Gualdim do milagre e o mesmo Gualdim que no fervor do seu êxtase tinha gravado a cruz na igreja. Santo Deus, pensei. Como não me tinha apercebido disto antes? Ou talvez me tivesse apercebido, anos antes quando tínhamos falado na igreja, quando o tinha ouvido falar com aquela mesma paixão que tinha visto em Gualdim nos dias que se seguiram ao milagre. Segurei-o pela mão, a ele: o António, a Gualdim. E vi-o sorrir enquanto me limpava o sangue que me cobria a face.

Já não me resta muito tempo de vida mas no entanto não tenho qualquer medo da morte. A verdade é que nunca recuperei completamente daquela queda mas agradeço todos os dias a Deus por ela ter acontecido. Hoje, no leito da minha morte, enfrento o meu destino final com novos olhos. Não com os olhos de um moribundo que teme a morte mas sim com os olhos de um homem que teve a sorte em vida de levantar um pouco o véu dos grandes mistérios.

É claro que fica muita coisa por responder, como por exemplo: Como é que Fernando Martins era Gualdim? Ou: Qual foi o papel da cruz em tudo isto e qual a origem do seu poder? Não tenho resposta para nenhuma destas perguntas nem tempo para as procurar. A minha sensação, e admito que possa estar completamente errado, é que de alguma forma Gualdim, o melhor dos Gualdins, através de um gesto de profunda compaixão conseguiu encontrar vida num homem que nasceu no ano da sua morte, conseguindo dessa forma transcendê-la. Eu olho hoje para a minha vida sem essa ambição. Compreendo que não fui um homem tão vil e mundano quanto Gualdim Pais mas que também não fui tão bom nem capaz de um gesto tão grande e nobre quanto o seu.

FIM




Estamos em crer que o conto publicado possa suscitar algumas reacções violentas entre alguns dos leitores assíduos dos nossos textos e que tenham a figura de Gualdim Pais como a de um Santo. Dificilmente o poderia ter sido, para mais, na sua condição de guerreiro que imponha constantes sangrias e atitudes muito pouco católicas aos olhos dos dias de hoje. Curiosamente, o texto acaba por ligar Gualdim Pais à santidade através de Santo António que nasceu no mesmo ano da morte de Gualdim e que também ele, desenhou uma cruz na mesma torre e teve ânsias de rumar para terras sarracenas a partir da igreja dos Olivais em Coimbra.

Recebemos o texto do Velho do Restelo, a quem tínhamos enviado alguns dados da nossa investigação, e ficámos, literalmente, chocados com a personalidade que este desenhou. Mas conhecíamos nós alguma coisa da sua personalidade que não fossem os seus feitos? Devíamos recusarmo-nos a publicar o texto em virtude da sua descrição não se ajustar minimamente à nossa ideia do Gualdim Pais? Mas afinal recordamos Gualdim Pais por este se ter entregue em momentos da sua vida à bebida e vícios menos próprios ou temo-lo no coração por feitos heróicos que não implicavam que este fosse um poço de virtudes.

O texto acabou por nos comover e quando o terminámos de ler já nem nos lembrávamos das hediondas palavras iniciais. O texto humaniza Gualdim Pais, rompendo com deificação da sua pessoa, permitindo elevá-lo então da sua condição humana à divindade, quer pelo seu gesto de homem sem medos, quer pela ligação que estabelece com um dos homens mais admiráveis de todos os tempos.

Tivemos que o publicar!!

(o post será publicado no decorrer dos próximos meses)