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5/27/2015

GUIA TEMPLÁRIO DE PORTUGAL - Almourol/Cardiga.

Lançamento de novo livro do Prof. Manuel J. Gandra
Dia 30 de Maio -  Entrada livre - Em Almourol e Barquinha

Caríssimos,

Recordo que no próximo sábado, 30 de Maio realizarei uma visita guiada ao castelo de Almourol, a qual terá início pelas 14.30 h. Os interessados deverão dirigir-se para o cais de el-Rei, em Tancos, e não para o cais junto do castelo como antes noticiei. às 17.30 h terá lugar no Cntro Cultural da Barquinha a apresentação do volume do Guia Templário de Portugal sobre Almourol e Cardiga. Aos que desejem adquirir o livro sugiro que façam a sua reserva contactando-me para o e-mail manueljgandra@gmail.com, pois a edição é limitada a 102 exemplares e o ritmo das encomendas faz antever a possibilidade de não haver exemplares disponíveis no dia da apresentação. Aguardo-vos em Almourol, ou na Barquinha. Abraço.  
Manuel J. Gandra







5/22/2015

ALMOUROL LENDÁRIO I (versão draft )

Imagens antigas & raras 
Autores: Rui Gonçalves e Paulo Peixoto

"Parco em memórias militares, Almourol acha-se, contudo, envolto num halo de mistério e magia. Consoante a tradição oral das gentes da região, um complexo sistema de túneis ligavam-no a lugares circunvizinhos, o mais extenso dos quais (c.12 km) comunicava com a Vila Velha da Atalaia"
in "Guia Templário de Portugal" de Manuel J. Gandra






(carregar nas imagens para ampliar)

Várias têm sido as imagens publicadas no nosso grupo do Facebook Cethomar, quer por nós próprios, quer por terceiros. De forma a conceder-lhes alguma perenidade e a que não se percam nos confins do grupo para sempre, decidimos recolher as mais interessantes e aproveitar o momento para juntar várias outras que havíamos reservado para um futuro artigo. Não iremos informar mais do que a data de cada uma delas, se bem que existam dúvidas a respeito de várias. Todavia, em virtude do acervo ser constituído por algumas imagens raramente vistas, relativamente a essas não deixaremos de escrever breves considerações, de forma a que o leitor consiga perceber a sua proveniência, autor ou data concreta. Será o caso desta primeira publicação em que seleccionámos cinco do séc. XIX, data em que parece surgir pela primeira vez gravuras de Almourol, isto se excluirmos uma estilização do séc. XVIII, e à qual fazemos referência mais adiante.

Dividiremos as publicações por períodos cronológicos, desde o inicio do séc. XIX até 1965, privilegiando no entanto os anteriores a 1945. Visto o vasto espólio disponível e facilmente acessível a partir desta data, escusamo-nos a publicar mais do que meia dúzia de imagens, e estas apenas para que se tenha uma ideia das alterações ao monumento e à sua envolvente. 

Quer a DGEMN, a Torre do Tombo, o Arquivo Militar e o Municipal de Lisboa, entre outros, estão bem recheados de fotos a partir da década de trinta, pelo que o leitor ávido de ver mais fotos poderá socorrer-se destes mesmos arquivos públicos. Também a partir da década de quarenta, António Passaporte, dedica-se à produção de postais (ColecçãoLoty), desistindo em meados da década de sessenta em virtude do editor Centro de Caridade de N. Sr.ª do Perpétuo Socorro (Porto) ter-se lançado na produção massiva de postais coloridos. Colecções onde se pode encontrar muitas imagens de Almourol.


A primeira gravura apresentada, menos rara do que as restantes, é da autoria de Robert Ker Porter e surge inserida na sua obra “Letters From Portugal and Spain : Written During the March of the British Troops Under Sir John Moore :With a Map of the Route, and Appropriate Engravings”, publicada em 1809, data que tem sido atribuída à representação.

Ilustra esta, a carta n.º VI datada de 7 de Novembro de 1808 redigida na cidade de Abrantes. Se levarmos em consideração que a carta anterior indica o dia 19 de Outubro e com referência à cidade de Lisboa, podemos balizar a sua produção, ou pelo menos dos esquissos que lhe tiveram subjacentes, entre estas duas datas, ambas ainda em 1808.

Porter na carta n.º VI (pág.78), descreve todo o percurso efectuado entre Lisboa e Abrantes, indicando ter passado por Santarém, seguido para a Golegã, e atravessado para a margem contrária do rio Tejo no local de Punhete. Após passagem por Tancos avista então a ilha de Almourol, e descreve o local conforme excerto seguinte:

Excerto da carta VI de Porter escrita em 7.11.1808

De acordo com informação recolhida na obra “A Muse of Fire: Literature, Art and War”, de Arnold D. Harvey (pág. 15), Sir John Moore havia convidado Porter a acompanhá-lo numa expedição a Espanha (e Portugal) em 1808 e informa também que os originais das suas gravuras se encontram na Sala de Pinturas do British Museum.

Volta esta a surgir na obra “The Military Memoir and Romantic Literary Culture, 1780-1835” (pág.100) de Neil Ramsey, se bem que se trate de uma reprodução de qualidade inferior, onde chega a comentar a presença de soldados Ingleses na periferia do cenário, aliás é este o tema do livro.

Do lado esquerdo parece surgir representada a Vila de Tancos, à qual Porter se refere, destacando-se a presença de um edifício religioso e algum casario. Trata-se provavelmente da Igreja Matriz. A sua configuração e orientação parece-o reforçar, não obstante estar actualmente a torre sineira na sua frontaria e não na retaguarda.


Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Matriz de Tancos, em 5.07.1909.

Porter no texto, inclusive, informa que em Tancos existiria um ou dois edifícios religiosos: certamente a igreja matriz e a Igreja da Misericórdia, esta orientada na direcção do rio.


O livro “Travels through Portugal and Spain, during the Peninsular War” de William Graham, publicado por editor de Bridge Street em Londres na data de 1820, inclui um mapa desdobrável e seis gravuras, das quais, a segunda gravura apresentada é uma delas.

No prefácio existe indicação de que pelo facto da obra não ter sido escrita com intenções de publicação, lhe acrescenta valor relativamente a outras já com esse propósito. Descreve William Graham o itinerário percorrido desde Dublin, com intenções militares, serviu este o exército do General Wellington durante a guerra peninsular, até regressar a Inglaterra, tendo passado por Portugal, Espanha e França. "Chegado a Lisboa em 17 de Novembro de 1812 percorre o Norte do país, sobretudo a região das Beiras, passando em seguida por toda a zona litoral entre a Figueira da Foz e o Porto, atravessando depois as povoações entre Guimarães e Bragança e cruzando finalmente a fronteira para Espanha de 26 de Maio de 1813. São descritas, a par e passo, todas as terras por onde o autor se detém, bem como as distâncias entre elas, a sua localização geográfica e o tipo de paisagem. Devido ao objectivo da viagem e às funções específicas de W. Graham como membro da Comissão de Abastecimento das tropas britânicas, o relato é caracterizado por bastante precisão e objectividade e não são feitas grandes análises sobre as características da cultura e do povo de Portugal".

Posto isto, e apesar da obra só ter visto a luz do dia em 1820, a gravura ou o seu esboço, terá sido realizado entre o ano de 1812 e 1813, e se acreditarmos ter sido feita no local na altura em que passou por Almourol, podemos a datar como sendo do dia 9 de Dezembro de 1812.

A respeito de Almourol diz-nos o seguinte: “No dia 8 de Dezembro de 1812, continuámos para a Golegã, a catorze milhas, e no dia 9 para Punhete (Constância), a doze milhas. A estrada para estes lugares era excelente; pas­sámos por vários bosques de oliveiras e a cerca de meio caminho descemos uma grande encosta, onde a espessa folhagem das árvores quase fechava o caminho. Fomos obrigados a subir de novo, e depois de alguma dificuldade escalámos o topo, que era muito escarpado. Tendo andado cerca de uma centena de jardas, chegámos a uma curva da estrada onde a vista era extraordinariamente bela. Dando a volta, atingimos uma pequena ponte (em Tancos) sobre um riacho que corria para o Tejo. À nossa frente estava o Tejo, que se expandia num grande lago. No centro estava uma ilha verde, juncada com as veneráveis ruínas de um palácio mourisco (castelo de Almourol), do qual conseguíamos distinguir as torres que restavam em vários lugares. Estendia-se ao longo de um grande espaço. De um modo geral estávamos todos muito entretidos com o nosso passeio. A estrada torneava o lago até ao lado oposto, cerca de duas milhas, e era tão macia quanto a fina areia podia tomá-la. Por todos os lados aparecia uma diversidade de bosques, despontando aqui e acolá, e, para fechar e dar vida à cena, surgia na parte detrás uma linda aldeia onde quase todos eram pescadores. Isto oferecia a vista mais formosa que tínhamos visto desde que tínhamos deixado Lisboa” (tradução obtida no blog  Atalaia-barquinha de Fernando Freire, no qual podem ver a descrição, quer de Punhete, quer de Tomar)

Esta segunda gravura retrata Almourol de forma insólita, o que pode eventualmente indicar ter sido desenhada após a sua passagem por Almourol, mas nunca posteriormente a 1820, data da publicação. A inserção de uma ponte imaginária do lado esquerdo, pode demonstrar que existiu apenas uma intenção de ilustrar o texto quando se decidiu pela sua publicação. No entanto, em conversa com Manuel João Pedro Silva, ex-autarca da Câmara Municipal da Barquinha e ex-presidente da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo, exímio conhecedor da zona e de quem nos socorremos para fazer identificações,  levantou-se a hipótese de ter sido obtida a partir de uma memória visual onde se incluiu a ponte da Ribeira de Laveiros ou de Tancos. Não é de excluir que possa ser uma outra qualquer da região. São diversas as ribeiras e as pontes existentes na zona similares à representada. De sublinhar que o curso da Ribeira da Atalaia e de Tancos surgem no primeiro "Mapa de Portugal" desenhado por Fernando Álvares de Seco em 1560, o que demonstra a importância destas.


Aliás, parece que estas duas primeiras gravuras antigas da fortaleza perfilham dessa mesma estranheza. Terá sofrido substanciais alterações entre o início do séc. XIX e a data das gravuras produzidas pelo Conde de Mello em meados do séc. XIX e a publicada na "Ilustração Portugueza" em 1858? Serão estas duas últimas uma recriação do que Almourol teria sido, só se tendo eventualmente verificado intervenções no final do séc. XIX? Se levarmos em conta a gravura do Coronel Andrew Leith, datada provavelmente de 5 de Janeiro de 1809, ou seja, um ano após a primeira gravura apresentada e três anos antes da segunda, teremos de concluir por falta de fidelidade da parte destes artistas à realidade, não obstante, na de Leith ser possível avaliar a degradação que o monumento padecia à época. Sobre a imagem de Leith, perspectivada provavelmente do adro do extinto Convento do Loreto - local de uma vista pitoresca, segundo o autor - dedicaremos alguns parágrafos no artigo seguinte.

 in "A narrative of the Peninsular War"
by Sir Andrew Leith-Hay, London, 1839
(Sir Andrew havia estado em Almourol em 1809)

Voltando à questão das intervenções, a DGEMN apenas as refere a partir da data de 1939, mas Coronel Garcês Teixeira em artigo publicado na revista "Serões", em 1907, alude a intervenções que haviam ocorrido no Castelo há menos de meio século, por parte das Obras Públicas (MOP? criado em 1875). Eventualmente a obra “Renascença Artística e Práticas de Conservação e Restauro Arquitectónico em Portugal, Durante a I República, Fundamentos e Antecedentes" de Jorge Custódio, que no Vol. I apresenta uma resenha histórica, pode referir-se ao assunto, mas a escassez de tempo não nos permite folhear as suas aproximadas 2000 páginas e as notas de rodapé.  Seja como for, é conhecida uma campanha arqueológica no castelo em 1899, altura em que se descobre mais de duas dezenas de artefactos enterrados, alguns ainda da Era Romana.  


Artefactos descobertos em Almourol

Curiosa é a referência ao Castelo de Almourol, ou simplesmente "Torre d’almourol", conforme designa a "Carta das Correições de Tomar e de Coimbra..." de princípios do séc. XVIII, indiciando o eventual estado de degradação das restantes torres que ladeiam a torre de menagem, como sendo de origem mourisca. É sabido que muitos dos monumentos portugueses, antes de ter surgido uma verdadeira história da arte em Portugal nos finais do século XIX, com Joaquim Vasconcelos, eram abusivamente conotados com arquitecturas de feições orientalizantes, onde a arabizante se apresenta como uma sub-categoria, e muito próxima de nós culturalmente. Vários são os estrangeiros, e não só, que referem o Mosteiro dos Jerónimos como uma arquitectura de influência mourisa e a fachada da Janela do Capítulo do Convento de Cristo de feições orientais. Aliás o próprio William Graham refere-se a Belém como “the Moorish Convent” (pág.11).

No entanto Almourol está longe de apresentar qualquer característica Manuelina, estilo que pelo seu exotismo originou as catalogações referidas. Podem no entanto, estes autores, estarem influenciados por estas atribuições arquitectónicas, ou no caso de Almourol, terem sido informados por autóctones de que se tratava de uma fortaleza do período da ocupação sarracena, até porque era usual atribuir-se a estes tudo o que era desconhecido ou que tivesse antiguidade tal que não se lhe conhecesse a origem. O próprio nome é muito sugestivo e pode contribuir para essa atribuição, não obstante uma interpretação mais erudita como a de David Lopes na obra “Nomes Árabes de Terras Portuguesas” (pág.166). O próprio Joaquim Leite de Vasconcelos pensa o topónimo Almourol como derivado de “moura” ou “mouro” com o significado de “pedra alta”, conforme nos atesta Antónia Coelho e Alfredo Costa na obra "Imagens de Vila Nova da Barquinha". A Literatura lendária, e não só, que versa Almourol entre o séc. XVI e o séc. XIX, reflecte semelhante ideia, denotando-se uma reciprocidade de influências.

Também é curioso não existir quaisquer referências nestes autores estrangeiros às lápides que se encontram em Almourol e em locais bem expostos, onde se consegue extrair a sua autoria e datação.


A respeito da terceira gravura não conseguimos encontrar dados biográficos do autor que auxilie a resolver a questão da sua origem ou se eventualmente resulta de uma representação esboçada in locus.

A autoria do desenho e da litografia, conforme informa a gravura, é de I. Salcedo e o editor A. Ronchi. Do lado direito verifica-se a seguinte inscrição: “ Lit. Donon”, apesar de inscrição em lado oposto já indicar claramente o autor do “dijubo” e da “Litografia”. Tratam-se de Isidoro Salcedo y Echevarría, Achille Ronchi e Julio Donón, os quais na década de setenta parecem ter trabalhado por diversas vezes juntos em Madrid, onde a editora Ronchi y Cía estava instalada.

Conseguimos apurar a data de c.1860 mas quase todas as outras obras conhecidas de Salcedo estão datadas da década seguinte, estendendo-se até à década de oitenta, pelo que nos parece mais credível a datar como sendo de c.1870.

Porém, viemos a encontrar esta mesma imagem, com diferenças mínimas, já publicada em 15 de Maio de 1857 no “El Museo Universal", um periódico Espanhol, mas não colorida nem com a qualidade desta. A assinatura do desenho, ou do responsável pela xilogravura, no entanto não coincide com o indicado para a versão posterior e colorida. O texto referente à imagem, surge na edição seguinte datada de 30 de Maio, dedicando apenas um pequeno parágrafo a Almourol, cujo título é o de “Um prato de presunto”, resultado de um episódio ocorrido na altura.

Gravura do "El Museo Universal" de 15.05.1857

Não deixa o artigo de referir-se também às povoações das imediações, como sejam, Constância e Tancos, entre outras, estendendo-se na descrição de uma curiosa história recolhida no local relativa a um “palácio sumptuoso de belissima arquitectura e rodeado de grandes jardins e terras de trabalho", próximo da Barquinha. Certamente o Palácio da Quinta da Cardiga.

Quinta da Cardiga - Séc. XVIII 


Pelo interesse que o relato alcança, somos obrigados a tecer algumas considerações antes de prosseguir para a imagem seguinte. Diz-nos o autor que havia perguntado pelo proprietário do palácio a um dos marinheiros, que de imediato se apressa a informar de que o dono havia sido em tempos, pobre como ele era. De seguida conta então a história, tendo o autor tomado notas.Não há muitos anos, que o L...hoje por nome L...de C…(não conseguiu perceber os nomes ditados) passou por um convento que havia um quarto de légua (antiga) para baixo da Barquinha: e ele ia muito mal arranjado, era pobre, e diziam ser da província de Vailencia. Sentou-se de frente do dito convento, e dissera: ai! este convento ainda há-de ser meu. Todo o seu dinheiro e toda a sua riqueza eram seis vinténs que trazia no bolso. Finalmente embarcou para a Índia e negociando na escravatura de pretos, diz-se, que ainda de brancos, trouxe de lá muito dinheiro, mandou fazer do Convento a quinta; e hoje tem muito dinheiro e terras”

Segundo o relato, tratava-se inicialmente de um convento. Poderia ser o do Loreto, mas um quarto de légua para baixo da Barquinha (o que será para baixo?), parece indicar a Cardiga, apesar de não ter sido propriamente um convento, mas ter pertencido a uma ordem religiosa, à Ordem de Cristo. Os nomes que o autor não conseguiu registar devem ser o de Lamas e Lamas de Covacich.

A informação dispersa encontrada na internet, no entanto sem fontes pelas quais possamos atestar absoluta credibilidade - apenas nos diz “segundo reza nas histórias da família" - permitiu-nos fazer a seguinte reconstituição: Maria Luiza Lamas Covachic em conjunto com o seu marido António Zagallo Gomes Coelho, herdou a Quinta da Cardiga, tendo-se este dedicado à sua gestão por tempo inteiro. Em 1892 venderam-na (aos actuais proprietários) e mudaram-se para a “Casa do Patriarca” na Atalaia, para onde deslocaram as mobílias da Cardiga. Isto indica-nos que havia pertencido, ou sido adquirida, por um dos ascendentes de Maria Luiza, ou a Emília Firmina Bigoti Covacich, sua mãe, ou a Nicola Kovačić (Covachic), seu avô, e pai de Emília. Este, natural de Ragusa, chegou a Portugal com treze anos sem saber uma palavra de português, tendo no entanto enriquecido com o fruto do seu trabalho. Emília teria casado com José Lamas, oriundo da localidade de Lamas d’Orelhão. Este em novo teria ido para Lisboa trabalhar, e por duas vezes se deslocou à Índia a serviço do seu patrão. Quando regressou investiu as suas economias numa pequeníssima loja onde vendia chá da Índia, ensinando a fazê-lo (a primeira loja em Portugal onde se vendia chá), tendo vindo a enriquecer consideravelmente. O apelido dele era Gonsalves de Sousa mas com o passar do tempo foi substituído pelo o de "Lamas".

Apesar da história contada pelo marinheiro estar romanceada, é possível encontrar na suposta "história da família", vários pontos de contacto, nomeadamente a questão da pobreza, da Índia e das próprias iniciais dos nomes dos proprietários, e obviamente, a ligação à história da Cardiga. Ficamos no entanto na dúvida se a questão ficou resolvida, mas deixaremos para outros mais próximos da realidade a validação.

De volta à gravura..a identificação da mesma com sendo do Castelo de Almourol não parece levantar muitas dúvidas, quer pela legenda “Castillo de Almorol” inscrita, quer pelas evidências representadas. Almorol é uma das várias grafias de Almourol ao longo dos séculos (Almoriol, Almourol, Amurol, Almorol, Almourel e Almoirel).E se isso não bastasse, a legenda e o texto da imagem de 1857, a original, ou a que serviu de modelo a Salcedo mais tarde, dissipa qualquer dúvida que possa subsistir.

Com respeito à povoação destacada do lado direito, inicialmente pensou-se tratar-se de Constância, apesar da perspectiva não corresponder à realidade, nem existir no cenário as ruínas da antiga torre, ou castelo, também assim designado, de Punhete, e que muitos artistas do século XIX não deixaram de incluir nos seus desenhos.

Imagens de Constância no séc. XIX

Ou seja, geograficamente não é possível avistar Almourol do local de Constância. Posteriormente, levantou-se a hipótese do aglomerado ser a povoação do Arrepiado, o que parece mais credível, e para isso contribuiu a legenda da quarta imagem apresentada que parece coincidir na perspectiva, assim como a opinião abalizada de Manuel José Pedro Silva.


Em 26 de Fevereiro de 1852, M. José Júlio Guerra, Brigadeiro Graduado de Engenharias e Obras Públicas, foi encarregado por portaria oficial de levantar planta do rio Tejo para se proceder às demarcações das suas margens e melhorar as condições de navegabilidade entre Abrantes e Vila Velha. Resultou deste processo moroso, a publicação da obra “Estudos chorographicos, phisicos e hidrographicos da bacia do Tejo comprehendida no Reino de Portugal, acompanhados de projectos e descrição das obras tendentes ao melhoramento da navegação dªeste rio e protecção dos campos adjacentes”, da sua autoria, e por Ordem do Governo em 1861.

Tal como indicado no título, acompanha esta obra, material suplementar, onde se encontra a quarta imagem publicada. Surge inserida como ilustração da “Planta do Rio Tejo desde o Porto da Cereja até Villa Nova da Barquinha”, onde também é possível verificar semelhantes imagens de outras localidades, destacando-se em primeiro plano, desenho da ponte do caminho de ferro sobre o rio Tejo na zona da Praia do Ribatejo. As outras são: a Vila de Tancos e a sua ribeira, possivelmente onde se situa a suposta ponte imaginária da segunda gravura apresentada, a Vila de Constância e a foz do rio Zêzere, marcando presença a antiga Torre de Punhete, e por fim a Vila da Barquinha. 



O ponto de perspectiva desta imagem é similar com o da terceira gravura e informando a legenda de que a povoação é a localidade do Arrepiado, não é despiciente deduzir que a povoação representada primorosamente na terceira gravura também o seja.

A nossa última gravura, assinada e datada, pertence à Fundação da Casa de Bragança. Encontra-se inserida na obra “English Art in Portugal” e informa-nos como data da sua produção o ano de 1874. O Autor: Isais Newton. 

Na verdade trata-se de Isaías Newton, um pintor romântico dos Séculos XIX e XX (1838-1921), discípulo de Anunciação. Cultivou a paisagem e a marinha. Figurou nas Exposições Trienais da Academia Real de Belas-Artes (1856), nas Exposições da Sociedade Promotora de Belas-Artes (1863), do Grémio Artístico (1891) e da Sociedade Nacional de Belas-Artes (1903), de acordo com a informação extraída do “Dicionário de Pintores e Escultores” de Fernando Pamplona. Participou em 1903 numa exposição na Sociedade Nacional de Belas-Artes ao lado de outros pintores, conforme informa a obra “Para a História do Club Setubalense (1855-2010)”.

Acompanha a legenda da pintura o seguinte texto: "The setting for Robert Southey's "Palmerin of England" was a romantic stop along the upper tagus river for English travellers."

Nota: As datas inscritas nas imagens são da nossa autoria e sempre que possível reflectem a data da passagem do autor pelo local e não a data de publicação, independentemente de ter sido esboçada na altura ou posteriormente por memória visual.

Iremos em breve publicar artigos dedicados aos seguintes períodos cronológicos:
Anterior a 1900: 15 imagens
1901-1920: 30 imagens
1921-1945: 25 imagens
1946-1965: 15 imagens



4/06/2015

HISTÓRIA DA ARTE COMPARADA

Janela do Capítulo Vs Janela do Tabernáculo 


Convento de Cristo (inícios do Séc.XVI)
(imagem retirada do blog  tomaradianteira)

Convento de Santo Wolfgang (1496 ?)
Também a Janela do Capítulo apresenta dois baldaquinos
nas laterais. 

3/30/2015

GUIA TEMPLÁRIO DE PORTUGAL

Lançamento de novo livro do Prof. Manuel J. Gandra.
Dia 11 de Abril - 15.30 hrs - Entrada Livre - Em Sintra.

Caríssimos, 
Há mais de quatro décadas, quando encetei os meus estudos sobre a Ordem do Templo, logo me ocorreu, tendo decidido, depois, instado por Juan Atienza, companheiro da Filosofia, que havia de conhecer em Tomar, quando da realização ali de um Encontro Internacional sobre Ovnilogia, e com quem fiz profícua amizade, organizar um Guia Templário de Portugal.




A dimensão hercúlea da tarefa, de que não me apercebera ainda, tornou o projecto moroso e inviabilizou a edição conjunta do Guia Templário da Península Ibérica que Atienza me propôs desenvolver em parceria com ele, e já deveras adiantado na parte (Espanha) que lhe competia.
Vários títulos de Juan Atienza versam a temática em apreço. Falecido em 2013, deixou o tema explorado quase até à exaustão com a minúcia e o engenho que se lhe reconhecia.



Quanto à minha parcela deste projecto, complexo e transdisciplinar, avançou lenta mas consistentemente, sem, porém, jamais ter sido objecto de escrutínio público, salvo no que concerne à cidade de Tomar e ao Convento de Cristo e pouco mais (insígnias, literatura, doutrina secreta, regra, etc.).

Considero, agora, chegada a ocasião, até porque o terreno se acha pejado de “vendilhões do templo”, de proceder a essa divulgação, contribuindo para a justa, porque fundada, ponderação de tão magno caso de estudo.



O primeiro volume da empreitada será apresentado no próximo dia 11 de Abril na Quinta do Relógio (Sintra), pelas 15.30 h. Sugiro aos interessados em adquiri-lo que procedam à reserva do seu exemplar, uma vez que a edição será limitada a 102 exemplares, muitos dos quais já cativos.

Deixo-vos as capas da série.

Abraço.
MJG


Volumes extras:





3/19/2015

GUIA TEMPLÁRIO DE PORTUGAL

Novo livro da autoria de Manuel J. Gandra
Lançamento e apresentação 11 de Abril 2015








9/18/2012

NOSSA SENHORA DA LUZ DA ORDEM DE CRISTO

CONVENTO E HOSPITAL DA ORDEM DE CRISTO (Lisboa)
Visita guiada e palestra


O culto a Nossa Senhora da Luz em Carnide, inicia-se no século XV e tem como principal fomentador Pêro ou Pedro Martins, um habitante local que, segundo conta a história, estaria na Argélia, pelo ano de 1463, onde foi capturado pelos árabes. Durante o tempo que ficou preso, desesperado, terá começado a rezar a Nossa Senhora para que o livrasse daquele tormento pelo que durante trinta dias lhe apareceu uma imagem da Virgem. Em troca da sua liberdade a imagem ter-lhe-á anunciado que em Carnide junto a uma fonte, onde havia algum tempo aparecia uma luz (que muito intrigava os locais), acharia uma imagem sua à qual deveria erguer uma ermida. Pêro Martins foi “miraculosamente” libertado, regressou a Carnide e junto à Fonte do Machado que estava em “hũ espeso bosque[1] terá descoberto a imagem de Santa Maria por baixo de uma pedra. A população local, naturalmente animada com esta revelação, oferece-se para ajudar na construção de uma ermida no sítio onde foi encontrada a imagem, junto à Fonte do Machado e consagrada a Nossa Senhora da Luz, pelas circunstâncias que conduziram à sua “descoberta”.

Na realidade pouco ou nada se conhece da primitiva ermida, da qual nos chegaram muito poucos elementos históricos e materiais sabendo-se no entanto que “...é de muito grandíssima romagem, assim de gente de Lisboa e seu termo, como de todo o Reino, e de estrangeiros que à dita cidade vêm...”[2]

Durante o reinado de D. João III, a ermida de Nossa Senhora da Luz foi doada à Ordem de Cristo dando lugar à construção de uma igreja de maiores dimensões[3], patrocinada pela Infanta D. Maria (1521-1577), irmã do monarca, que conhecedora das virtudes do local, das propriedades benéficas da fonte do Machado e com particular devoção a Nossa Senhora da Luz, irá destiná-la para seu mausoléu. Afirmando o seu poder económico, político e social, a Infanta delineia para o sítio da Luz um projecto que parece assentar claramente na criação, em conjunto com a Ordem de Cristo, de um verdadeiro núcleo espiritual e de auxílio à população local e distante, reiterado quando edifica à sua custa, a construção de um Hospital[4] para acolher enfermos pobres e peregrinos.

O conjunto edificado constituído por Convento e Hospital e a total delegação da sua administração na Ordem de Cristo, atribui-lhe uma função renovada, na medida em que não assumindo os contornos militares de outrora, tornava-se fundamental conceber novos objectivos. Portugal continuava na sua expansão pelo mundo, nomeadamente na Índia e no Brasil, facto que levava muitos mareantes e navegadores a rumarem aqui antes de embarcarem, dada a sua grande devoção por Nossa Senhora da Luz.

Em 1755, os edifícios do Convento e Hospital sofreram graves danos. O Convento é extinto em 1795 calculando-se que, até 1807, terão aí residido religiosos que assegurariam o funcionamento do culto e da eucaristia. Com a instalação do Colégio Militar no edifício do Hospital, em 1814, passaria o restante conjunto monástico a fazer parte das suas instalações.

O culto a Nossa Senhora da Luz que nasce em Carnide, é fortemente assimilado no restante país e no resto do “mundo ultramarino português” através da Ordem de Cristo que o propaga e implementa. Este conjunto insere-se numa nova dinâmica da Ordem, ainda pouco estudada, com a reestruturação do Convento de Tomar e a construção de duas novas casas em Coimbra (Colégio de Tomar) e Lisboa (N. Sr. Da Luz). Com a destruição do Colégio de Coimbra, Nossa Senhora da Luz torna-se a segunda casa da Ordem de Cristo ainda existente, assumindo um papel primordial na história do seu património arquitectónico, urbano, histórico, monumental e etnográfico.

       (Iremos ainda colocar mais dois textos neste espaço de apresentação da visita)



[1] Soveral, Frei Roque do, Historia do Insigne Aparecimento de Nossa Senhora da Luz e Suas Obras, p. 12.
[2] Araújo, António de Sousa, ob. Cit., p.14.
[3] Início das obras a 13 de Junho de 1575 e conclusão em 1626.
[4] Início das obras em 1601 e inauguração a 23 de Abril de 1618.

4/30/2012

SEMINÁRIO THOMAR ARQUEOLÓGICO

2 & 3 de Junho | Inscrições Limitadas
s
Cartaz oficial
(click para ampliar)
a
A construção e o conhecimento da História de Tomar nos últimos séculos não se cingiram apenas a pesquisas nos velhos códices que chegaram até aos dias de hoje. Impulsionados, de principio, pelo fervoroso espírito religioso – os Santos Mártires - várias foram as campanhas de intervenção arqueológica realizadas no concelho de Tomar ao longo dos últimos séculos com o intuito de registar vestígios que pudessem contribuir para a sua historiografia, quer comprovando-a, quer reescrevendo-a, de forma a conferir a esta cidade a devida dimensão histórica de que se revestiu no passado. 

Com efeito, o tema proposto para o 14º evento do Cethomar – Círculo de Estudos de Thomar, é uma abordagem da história de Tomar sob uma perspectiva arqueológica, alicerçada em convidados que estiveram envolvidos em diversas campanhas de investigação nas últimas décadas. 

Pretende-se com este evento, o qual se assume como um Seminário, dar a conhecer, não somente o que resultou das escavações dos períodos anteriores, mas também o contributo que as mais recentes campanhas trouxeram para o conhecimento da sua história, o que permitiu à cidade de Tomar, reencontrar-se com o seu passado, o qual recua muito além da nacionalidade e subsequente instalação da Ordem do Templo e colonatos cristãos.


2/22/2012

O PEGO DE SANTA IRIA - PARTE II

Do artigo “Santa Iria de Thomar” 
Parte I - Parte II

Iremos ao longo deste artigo fazer uma digressão pelos diversos textos que recolhemos durante as pesquisas que levámos a cabo no encalço das mais antigas descrições que abordassem a Cisterna de Santa Iria (também conhecida como Pego), na altura com o intuito de apresentar um vídeo sobre esse local e que em simultâneo deixasse prespassar ao espectador o sentimento do qual sempre se revestiu e que pode considerar-se estar na génese da própria lenda de Santa Iria.


Como já havemos dito, elegemos as descrições de Frei Isidoro de Barreira para contextualizar o vídeo historicamente, não porque fossem as mais remotas, mas sim porque seriam as que melhor condensavam todo o espírito que presidiu durante séculos o culto e veneração que o povo lhe dedicava.

Não nos querendo repetir, voltamos apenas a dizer que Vieira Guimarães foi um precioso guia nesta viagem ao passado pela compilação de textos que reuniu, apesar de serem apenas excertos e nem sempre apresentarem as passagens que nos interessavam conhecer. De igual forma mas a um outro nível, Pe. Miguel de Oliveira e Pe. Avelino de Jesus Costa foram os mais ilustres eruditos acompanhar-nos nesta incursão na literatura hagiográfica medieval, assim como todo o trabalho que temos vindo a desenvolver neste blog e nos tem levado a conhecer cada vez melhor as obras onde sabíamos poder encontrar seguramente referências de interesse. Luís Mata, não sendo um timoneiro nesta viagem, foi uma agradável surpresa a meio do caminho, visto tecer algumas considerações sobre os trabalhos publicados pelos dois eruditos citados, sem contudo trazer continuidade ao trabalho de ambos apresenta-nos uma nova visão quanto à questão etimológica das personagens da lenda, já abordada, mas agora numa tendência diversa. Outros nos acompanharam nesta viagem mas foram estes os vultos que cobriram durante bastante tempo as nossas mesas-de-cabeceira, e obviamente, as obras que passaremos adiante a citar.


A mais antiga referência litúrgica a Santa Iria que se conhece encontra-se no calendário de um livro litúrgico da catedral de Leão conhecido como Antifonário (colectânea de cânticos litúrgicos), do ano de 1066/1069, e onde se regista para a data de 20 de Outubro: “Sancte Erene Virginis in Scallabi Castro”. Embora seja uma referência muito sumária, reveste-se de sublinhada importância por indicar um dos focos de culto a Santa Iria: Santarém, e que até à publicação da comunicação “Santa Iria e Santarém” por Pe. Miguel de Oliveira à Academia Portuguesa da História em 1963 nunca ninguém tinha colocado em causa o topónimo Santarém derivar do nome da Santa (Sancta Herene. Será este assunto desenvolvido em capítulo avançado).


Página do calendário do Antifonário onde se lê “Sce erene urg in scallabi castro”
 no dia 20 de Outubro (falta-lhe os travessões)

Este livro não foi recolhido por Vieira Guimarães no seu “Excerto documental”, mas Pe. Miguel cita-o e posteriormente Pe. Avelino no seu artigo “Santa Iria e Santarém – Revisão de um problema hagiográfico e toponímico”, inserindo este, uma foto do fólio do Antifonário onde se verifica a legenda citada.

Quisemos por acaso ver mais do livro – o qual não está facilmente acessível – e fomos surpreendidos com um santo cinocéfalo a emoldurar uma outra página. Trata-se sem muita margem para dúvida de um São Cristóvão representado conforme o era no cristianismo bizantino, visto estar colocado na página referente a Julho, data em que era celebrado no ocidente (no oriente é celebrado em Maio. Não queremos desenvolver o assunto mas há que dizer que o Antifónario de Leão está relacionado com o rito moçárabe). Muitas foram as nossas considerações dedicadas ao São Cristóvão que se encontra numa antiquíssima pintura mural da Charola do Convento de Cristo em Tomar, e na qual alguns estudiosos destas temáticas reconhecem também uma representação cinocéfala (cabeça de canídeo).

Calendário do Antifonário onde se verifica um santo cinocéfalo.

Parece derivar este Antifonário de Leão de um outro anterior do tempo do Rei Wamba (séc. VII), o qual seria de grande interesse conhecer para verificar se a referência a Santa Iria não seria então muito anterior ao séc. XI nos livros litúrgicos, acontece porém, ter o vento dos tempos feito o desaparecer. Todavia, o culto a Santa Iria no actual território português parece ser muito mais antigo do que a data do Antifónario apontado, visto ser mencionada no ano de 985 num documento do convento de Moreia relativo a uma venda de um boi avaliado em quinze soldos vindo de Santa Iria (?): “bove que veno de Sancta Eiren in XV.

 Documento do Convento de Moreira

Teremos porém que colocar algumas ressalvas na interpretação deste documento. Pode eventualmente estar mal lido ou confundir o nome da Santa com o de Santarém, ou mesmo ser uma apenas referência a outra localidade de igual topónimo, visto este convento ficar em Vila do Conde, muito distante da Santarém Scalabintana.

Seja como for, não deixa de ser curioso o documento mais antigo que se conhece sobre a Santa Nabantina – se o for – se centre na venda de um animal que parece estar bastante relacionado com Tomar. Curiosamente encontra-se na lápide junto da estátua da Santa na parte exterior do Convento a deitar para o rio uma representação de um boi, e da qual não se conhece datação.


                                            Convento de Santa Iria (Pego)

Também inscrito em outras tantas pedras encontradas em Tomar ao longo do séc. XIX se encontrou a presença do mesmo animal, nomeadamente nas padieiras de muitas portas conforme relata João Maria de Sousa. Aliás existe em Tomar um provérbio que denuncia essa intima relação: "Pela santa Eyreia, lavra e semeia"

Exemplos de pardieiras com curiosas inscrições
 A foto central é nossa e localiza-se no concelho de Sintra.

Mas é do inventário de descrições do Pego que procuramos por agora tratar, e nada sobre isso nos diz referência tão breve, o mesmo acontecendo com todos os calendários portugueses posteriores até chegarmos aos breviários do século XV. Nem mesmo a Inquirição realizada em Tomar em 1317 aborda o local, tão-somente informa que ali existiam duas igrejas que vinham de “tempo antigo”, uma chamada São Fins e a outra Santa Iria, devendo a primeira corresponder à de S. Pedro Fins.

 Pedra que se julga ter pertencido
 à capela de São Pedro Fins

Dos diversos Breviários do séc. XV só conseguimos verificar o Bracarense de 1494, o único impresso, e no qual aparece a lenda quase completamente desenvolvida até ao ponto de incluir a bebida maléfica, a falsa maternidade e a morte de Iria e a consequente ocultação no rio, o que não se verifica nos breviários anteriores, compostos de mais compostura e menos romantismo, segundo nos informa Pe. Mário Martins nos seus “Estudos de Literatura Medieval”, e dos quais falaremos em outro capítulo. Porém não existe uma alusão ao local em concreto tão só nos informa que “ut eam latenter gladio preimeret: et in fluvium deiiceret: ut tantum facinus melius occulteteur”, ou seja, que Santa Iria foi trespassada por uma espada e lançada ao rio para que este ocultasse tal crime, referindo-se então ao Pego sem dele nos dar descrição. (afinal conseguimos ver os anteriores, nomeadamente o Breviário do Soeiro mas não coloca em causa o parágrafo)


Não foi nossa ideia recolher em literatura tão tardia descrição do local à data do martírio da santa no séc. VII, mas sim registar o que nessa época ainda a memória colectiva pudesse conservar. Aliás só após a publicação deste breviário e a de algumas obras que a seguir abordaremos vai surgir a cisterna com as feições que hoje conhecemos.

Por ordem cronológica a obra que se segue é o “Flos Sanctorum” de 1513, a qual fixa definitivamente os elementos biográficos de Iria, constituindo-se como ponto de partida para desenvolvimentos romanceados em obras posteriores, sem contudo fugirem aos seus elementos centrais.

Insolitamente, Vieira Guimarães não insere esta obra nos seus excertos documentais e Amorim Rosa, que deve ter seguido Vieira à risca, também não lhe faz qualquer referência no seu “Santa Iria – Padroeira de Tomar”. Dizem-nos ambos que o nome Nabão atribuído ao rio de Tomar só aparece em 1254 e depois passados 286 anos no Breviário de Évora de 1548.


Na verdade encontrámos o rio designado como Nabão 35 anos antes, precisamente no “Flos Sanctorum”, onde pela primeira vez se dá nome ao hediondo assassino: Banãm (Banão), possivelmente um anagrama da palavra Nabam (Nabão), mas a este assunto nos dedicaremos mais adiante. Aliás é precisamente esta a obra que André de Resende aproveitou para compor o "Breviário Eborence" de 1548, segundo nos informa Pe. Miguel de Oliveira.


“Flos Sanctorum”

No “Flos Sanctorum” também não se recolhe qualquer descrição da cisterna mas acrescenta à lenda a localização do martírio ao dizer-nos que Santa Iria estava em oração “acerca da ribeira do rio” quando foi surpreendida pelo perverso Banãm, sem dúvida uma alusão ao local do Pego sem porém o descrever.

No "Breviário Eborense" de 1548 e no Bracarense do ano seguinte também não se verifica qualquer passagem em concreto sobre a cisterna, apenas e novamente, referência ao local do seu martírio “ocorrido durante a reza das matinas e junto ao rio para o qual é lançada despojada de suas vestes”.


Breviários

Após passar pela “Chorografia de alguns lugares…” de Gaspar Barreiros do ano de 1574 que nada acrescenta ao já recolhido, teremos que chegar ao ano de 1567 (1590) para encontrar na “História das Vidas e Feitos Heroicos e Obras Insignes dos Santos” do Pe. Diogo de Rosário preciosa informação, desta vez, visual, visto a descrição reflectir apenas as que já havemos transcrito. Pela primeira vez estamos diante uma representação – xilográfica - do acontecimento no Pego, podendo-se ver como pano de fundo o que seria o edifício conventual, possivelmente uma reconstituição mas muito de acordo com a realidade do edifício que hoje se conhece.

Da obra “Historia das vidas e feitos heróicos e obras insignes dos sanctos” 
de Frei  Diogo do Rosário - Ano de 1585

É pelas mãos de Frei Rosário que os “Flos Sanctorum” alcançam grande divulgação, conhecendo-se diversas edições que vão desde 1567 até 1590, ao contrário da edição 1513, da qual só se conhece um exemplar (mutilado). Não conseguimos ver a edição de 1567 nem a de 1577, apenas a terceira edição citada no parágrafo anterior, mas estamos em crer ser possível nas duas edições anteriores encontrar-se também a mesma xilogravura. O “Flos Sanctorum” de 1513 também deveria conter ilustração – como acontece para as restantes hagiografias descritas - mas faltam-lhe duas páginas da lenda de Santa Iria, nomeadamente a primeira onde se costuma inserir a gravura, a qual seria porventura a mais antiga representação pictórica da lenda de Santa Iria na literatura.


“Flos Sanctorum” de 1513
Primeira página da lenda de Santa Iria e última (pag.241 a 243)
Curiosamente na marca de água da pag. 241 pode-se ler “Prado” (voltaremos a este assunto, visto também aparecer “Thomar” em outras páginas em branco)

A respeito do local da desgraça de Santa Iria apenas repete o que já havemos dito, ou seja, que “depois de matinas… estar orando na praia do rio, encomendando a sua alma a Deus…e a lançou ao rio”.

Do “Martyrologio dos sanctos de Portugal, e Festas geraes do Reino / recolhido de alguns auctores e informações por alguns padres da Companhia de Jesus” de António de Maris, do ano de 1591, menos ainda se obtêm para conhecer esse local onde Santa Iria padeceu. Quanto à “Monarchia Lusitana”, encontramos no segundo volume, de 1609, eco das obras anteriores chegando mesmo a referir Frei Diogo do Rosário como fonte histórica.

Não existe dúvida de que a forma definitiva da lenda com toda a sua panóplia de personagens e enredo encontra-se já de forma consolidada no “Flos Santorum” de 1513, mas apenas em 1618 encontrámo-la verdadeiramente amplificada e desenvolvida como se de um romance se tratasse. Os novos acrescentos e adições até então desconhecidos na literatura devem resultar de informações puramente verbais que se foram desenvolvendo com o correr dos séculos e aos quais se dá forma narrativa e consistente nesta belíssima obra produzida no Convento de Cristo pela mão de Frei Isidoro de Barreira, à qual confere o extenso título “Historia da vida e martirio da gloriosa Virgem Santa Iria ...” .


Iremos deter-nos um pouco nesta obra já que de caudalosas informações com respeito ao Pego se carrega, antes porém há que debruçar-nos sobre o que pode ser um inédito para a colecção de representações do Pego de Santa Iria (cisterna).

Para surpresa nossa, além do texto propriamente dito, parece existir na imagem da capa uma representação desse local que vimos perseguindo. Esta descoberta, acidental, dá-se à última da hora quando pensámos digitalizar a imagem da Santa e ampliá-la para efeitos de apresentação neste artigo. Não podemos peremptoriamente garantir trata-se de facto da entrada do Pego (cisterna) mas existe forte probabilidade de o ser, não só porque a sua entrada de arco perfeito é idêntica a que hoje se verifica, mas também porque pode ser um dos atributos iconográficos da Santa, afinal de contas está esse espaço intimamente associado ao seu martírio. A janela que se vê não existe hoje em dia mas pode ter existido ou então ser um acréscimo de iniciativa própria do artista para reforçar a ideia da presença do convento como imagem de fundo. Aliás parece ser visível do lado direito o que julgamos ser o amuralhado que divide esse espaço do rio Nabão ainda hoje.




(continua)
Parte I  - Parte III

 Nota: Será a partir desta data que vai começar a surgir referências abundantes à cisterna