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3/01/2011

A MARCA DE GUALDIM PAIS - PARTE IV

E os Misteriosos Subterrâneos
Autoria: CETHOMAR
(Degraconis)


A MARCA DE GUALDIM PAIS
(Última parte do conto)

Foi quando eu já estava absolutamente convencido de que nunca haveria uma resposta definitiva que me pudesse ajudar a resolver o mistério que deparei com algo que ao menos me fez compreender um pouco a natureza do que se poderia ter passado.
Depois da morte de Gualdim fui servir para o Castelo de Almourol e um dia, estando de passagem por Lisboa, resolvi passar novamente pela igreja de Santa Maria Maior e rever mais uma vez aquela cruz que me tinha fascinado durante tanto tempo. Foi quando estava a contemplá-la que me apercebi que não estava só. Não muito longe de mim, também a olhar para a cruz, estava um menino que não devia ter mais de seis anos. Olhava atentamente para aquela pequena cruz como se estivesse à beira de descobrir qualquer coisa. Chamei-o e ele inicialmente não me ouviu, foi preciso que lhe tocasse para que ele se libertasse da espécie de transe no qual parecia envolvido.

Descobri que o seu nome era Fernando Martins de Bulhão e que tinha nascido numa casa do outro lado da estrada, em frente à igreja. Descobri que passava ali muito tempo e ao falar mais tarde com o padre ele confirmou-me que não havia um dia que aquele menino não passasse ali para contemplar a cruz de Gualdim havia cravado na pedra. Tal como a mim a cruz fascinava-o. Perguntei-lhe se conhecia a história daquela cruz, ele respondeu-me que sim e contou-me como Gualdim tinha afastado o diabo apenas com o poder de algumas palavras. Foi um milagre, disse, e o homem que fez aquele milagre gravou aquela cruz. Confirmei-o e disse-lhe que estava presente naquela noite. Foi então que me inundou com perguntas acerca do milagre e de Gualdim às quais respondi o melhor que podia. Depois despedi-me do menino e parti.

Iam passar dez anos antes que o voltasse a ver mas o que encontrei não me deixou de surpreender. Estava mais uma vez de passagem por Lisboa e mais uma vez decidi ir até à igreja de Santa Maria Maior. Aproveitei para me confessar e rezar. Como não podia deixar de ser revi a cruz. E foi então que o voltei a ver, desta vez já quase um homem, aquele que tinha sido outrora o menino. Foi ele que me veio falar, disse que se lembrava de mim e contou-me como tinha entrado para a Ordem do Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e que antes tinha estudado ali mesmo naquela igreja. Dei-lhe os parabéns e ele sorriu e agradeceu. Depois perguntei-lhe se ainda ia ali diariamente ver a cruz ao que me respondeu que sim e foi então que me contou, tremendo, que tinha sido aquela cruz e a história à qual ela estava ligada que o tinha levado a seguir a vida religiosa. Em seguida mostrou-me uma outra cruz que ele próprio tinha cravado no interior da igreja, uma marca da sua fé, disse-me para depois me contar todos os seus planos e os seus sonhos, em como planeava defender e espalhar a fé com um fervor e uma coerência tal que me deixou espantado. Mais tarde despediu-se e viu-o partir em direcção ao seu mosteiro. Devo ter reparado em qualquer coisa naquele dia porque nas semanas seguintes mal conseguia pensar em outra coisa do que no encontro que tinha tido com aquele rapaz. Mas, em abono da verdade, se reparei só anos mais tarde é que essa revelação se tornaria consciente ao tê-lo encontrado novamente antes de partir para Marrocos numa missão de evangelização.

Vi-o, pela última vez, à porta da igreja de Santa Maria Maior, como não podia deixar de ser. Os anos já me pesavam e não o reconheci imediatamente. E foi ele que me veio falar. Disse-me que tinha mudado de nome, chamando-se agora António, que estava para partir e que tinha vindo pedir a bênção de D. Estêvão. Eu sorri e desejei-lhe boa sorte. E foi então que aconteceu o evento que me fez compreender um pouco o grande mistério que me tinha preenchido durante tanto tempo.

Devo ter tropeçado e caí. Foi tudo muito rápido e devo ter batido com a cabeça no chão. Senti uma dor violenta, vi sangue a correr pela pedra. Os anos pesavam nos meus ossos e nos meus músculos e por momentos senti-me completamente incapaz de me mover. Mas qual foi a minha surpresa quando senti que alguém me levantava e amparava. Era Fernando, agora António, que assim que me viu caído veio a correr na minha direcção e ajoelhando-se a meu lado colocou a minha cabeça nos seus braços e me disse, segredando-me ao ouvido, não te preocupes pois vai ficar tudo bem, não estás sozinho. E rodei a cabeça e olhei-o nos olhos para ver Gualdim, não o Gualdim que sempre tinha conhecido mas antes o Gualdim do milagre e o mesmo Gualdim que no fervor do seu êxtase tinha gravado a cruz na igreja. Santo Deus, pensei. Como não me tinha apercebido disto antes? Ou talvez me tivesse apercebido, anos antes quando tínhamos falado na igreja, quando o tinha ouvido falar com aquela mesma paixão que tinha visto em Gualdim nos dias que se seguiram ao milagre. Segurei-o pela mão, a ele: o António, a Gualdim. E vi-o sorrir enquanto me limpava o sangue que me cobria a face.

Já não me resta muito tempo de vida mas no entanto não tenho qualquer medo da morte. A verdade é que nunca recuperei completamente daquela queda mas agradeço todos os dias a Deus por ela ter acontecido. Hoje, no leito da minha morte, enfrento o meu destino final com novos olhos. Não com os olhos de um moribundo que teme a morte mas sim com os olhos de um homem que teve a sorte em vida de levantar um pouco o véu dos grandes mistérios.

É claro que fica muita coisa por responder, como por exemplo: Como é que Fernando Martins era Gualdim? Ou: Qual foi o papel da cruz em tudo isto e qual a origem do seu poder? Não tenho resposta para nenhuma destas perguntas nem tempo para as procurar. A minha sensação, e admito que possa estar completamente errado, é que de alguma forma Gualdim, o melhor dos Gualdins, através de um gesto de profunda compaixão conseguiu encontrar vida num homem que nasceu no ano da sua morte, conseguindo dessa forma transcendê-la. Eu olho hoje para a minha vida sem essa ambição. Compreendo que não fui um homem tão vil e mundano quanto Gualdim Pais mas que também não fui tão bom nem capaz de um gesto tão grande e nobre quanto o seu.

FIM




Estamos em crer que o conto publicado possa suscitar algumas reacções violentas entre alguns dos leitores assíduos dos nossos textos e que tenham a figura de Gualdim Pais como a de um Santo. Dificilmente o poderia ter sido, para mais, na sua condição de guerreiro que imponha constantes sangrias e atitudes muito pouco católicas aos olhos dos dias de hoje. Curiosamente, o texto acaba por ligar Gualdim Pais à santidade através de Santo António que nasceu no mesmo ano da morte de Gualdim e que também ele, desenhou uma cruz na mesma torre e teve ânsias de rumar para terras sarracenas a partir da igreja dos Olivais em Coimbra.

Recebemos o texto do Velho do Restelo, a quem tínhamos enviado alguns dados da nossa investigação, e ficámos, literalmente, chocados com a personalidade que este desenhou. Mas conhecíamos nós alguma coisa da sua personalidade que não fossem os seus feitos? Devíamos recusarmo-nos a publicar o texto em virtude da sua descrição não se ajustar minimamente à nossa ideia do Gualdim Pais? Mas afinal recordamos Gualdim Pais por este se ter entregue em momentos da sua vida à bebida e vícios menos próprios ou temo-lo no coração por feitos heróicos que não implicavam que este fosse um poço de virtudes.

O texto acabou por nos comover e quando o terminámos de ler já nem nos lembrávamos das hediondas palavras iniciais. O texto humaniza Gualdim Pais, rompendo com deificação da sua pessoa, permitindo elevá-lo então da sua condição humana à divindade, quer pelo seu gesto de homem sem medos, quer pela ligação que estabelece com um dos homens mais admiráveis de todos os tempos.

Tivemos que o publicar!!

(o post será publicado no decorrer dos próximos meses)

9 comentários:

DEGRACONIS disse...

O post não será sobre Santo António obviamente, não deixando no entanto de dar a conhecer alguns factos interessantes que têm sido obscurecidos pela ampla divulgação do Santo como milagreiro. Foi muito mais que isso. Como já é habitual o post irá andar em torno de temas relacionados com Tomar. Em virtude da sua extensão será publicado em várias partes e deverá ser intercalado com outros posts que esperam vez de publicação, nomeadamente um resultante das interessantes pesquisas levadas a cabo pelo Voltrom. Um post, este do Voltron, que se adivinha como sendo de grande interesse no âmbito dos mistérios de Tomar, o qual tb terá que ser publicado em várias partes.

Perguntaram-nos pelo o da leitura das inscrições que estão na pintura mural na charola. Incrivelmente já nos estávamos a esquecer dele. Será publicado este mês.

Antonio disse...

Grande Gualdim!
É cá dos meus!
Put..s e vinho verde!
E uma boa esfrega de espada nos cafras!
Eh pá como eu gostava de ter o endereço dele de email ou o do facebook!

Anónimo disse...

O que é que vocês andam a fumar?
Papoila?

Anónimo disse...

Vinho verde! Papoila! lol É vinho da zona pah e não é papoila, é erva da mata dos sete montes. Que vanham mais umas bebedeiras que eu curto bué esta merda.
Cláudio

Anónimo disse...

*Venham
Cláudio

Anónimo disse...

Excelente tributo ao fundador de Tomar.
Os meus parabens.
Estão todos convidados para a tasca do Aurélio.
A primeira rodada é minha.
As ganzas levam voces!

Luis de Matos disse...

No final desta 4ª parte não entendo qual é a polémica. Sinceramente não entendo. É uma leitura ficcionada, válida como qualquer outra, com uma ou duas passagens a precisar de revisão histórica, mas muito coerente. Seria Gualdim putanheiro e bêbado? Eu pessoalmente não creio (no seu caso) porque a obra que deixou indica um corte pessoal diferente. Mas qual dos seus companheiros não o seria? Hoje mistifica-se muito a imagem do Templário medieval, quando ele estava sujeito às mesmas tentações dos outros soldados e religiosos. Putanheiros? Sim, muitos o foram. Onde isto é uma revelação é que me deixa perplexo!

Raskolnikov disse...

Caro Luís - e restantes leitores,


de modo algum querendo desrespeitar a sua opinião, poderei dizer que compreendo perfeitamente a polémica.

No entanto, essa, tem que ver com a compreensão do que é ciência e do que arte é, e também do que de mesquinho se consegue tirar dessa mescla.

Para um fundamentalista de Lisboa, António Lobo Antunes será um alucinado; para um fundamentalista de Tomar, Umberto Eco será um desconhecedor; para um fundamentalista do Vaticano, Dan Brown será da sua planificação ignorante; para um fundamentalista de Sintra, será o mísero Caminheiro de Sintra um obcecado com morte e fantasmas; enfim, para quem quer que queira, será a realidade o que esse quiser, tal como assim realmente o é.

(nota necessária: por mencionar os autores que mencionei, não quer dizer que o gosto por eles seja vivo, exceptuando o gosto pelo próprio)

O que aqui se confunde, é a criatividade de autor - e a liberdade desse e dessa - com os factos históricos.

Para factos históricos, temos os factos da história; para a apreciação literária, temos a arte de literatura que hoje - feliz ou infelizmente - se consegue encontrar em qualquer beco ou avenida.

Quem quer conhecer a história, poderá fazê-lo conhecendo seus factos; quem quer conhecer a arte literária, poderá fazê-lo conhecendo qualquer texto que da alma tenha surgido.

(nota necessária: por o mencionar ainda que indirectamente, não estou a fazer qualquer tipo de apreciação do texto em si, positiva ou negativa que seja, que originou esta celeuma, na internet e nos Tomarenses)

Se existe alguém que confunda fantasia com realidade, será porque as suas bases da realidade não estão bem fundamentadas, e aí, qualquer frase que mencione o que procura, será por quem procura engolida sem qualquer tipo de questionamento.

No entanto - e aqui sim: infelizmente - a grande maioria dos Humanos assim o faz, quer em textos, atitudes, ou circunstâncias.

Aquele que procure a realidade presente ou passada tendo consciência do que faz, questionar-se-á sempre, das primeiras coisas que encontra, pois o seu conhecimento não se limitará a dizer que viu em algum sítio, ou "li num livro", para mera vaidade pessoal. Fá-lo-á para a sua evolução, e assim sendo, para a evolução do seu conhecimento, e posterior ajuda - indirecta ou não - da sua comunidade, pátria, ou Humanidade.

Mais que imberbe será aquele que tudo absorve sem o questionar, e válido isto é quer para o que está em causa, quer para as relações sociais, quer para aquilo que percepcionado pelos seus sentido é - ou não existisse tanta gente em tanta coisa crendo, não compreendendo sequer os pólos opostos que são as Teorias da Relatividade e a Mecânica Quântica, ou sequer o conceito de Joule.

Creio que o que aqui se passa, nada tem que ver com História ou Literatura, mas sim com a ainda não alcançada percepção da realidade, ou simplesmente com o refinar da percepção da compreensão da realidade.

Espero com este comentário não ter deixado ninguém ofendido, e caso assim não tenha sido, que esse tente compreender as palavras que aqui expressei - e que tão raramente expresso - antes de se deixar levar por qualquer atitude meramente reactiva, e necessária para a sua valorização por outrém.


Com os melhores cumprimentos

O Caminheiro de Sintra

DEGRACONIS disse...

Ora bem vindo a esta humilde casa. É sempre um prazer ler umas linhas suas, que aliás tendem a ser raras publicamente. Oh como o entendo, meu caro.

A questão passa precisamente por fundamentalismos e não pelo que a realidade é em si, ou possa ter sido. Recebemos vários emails sobre o conto, e dessa dúzia que recebemos, apenas um se indignou com o texto. Alguns, e vindos de quem vieram até nos surpreenderam, visto serem indivíduos que cultuam a deificação de Gualdim Pais, acredite que chegou-se ao ponto de alguém dizer que “sentiu algo de supra físico” na leitura. Outros disseram “gosta de mulheres? ainda bem”. Outros julgaram ver uma reencarnação de Gualdim Pais em Santo António, o que não corresponde à ideia expressa no conto, mas que também não fechou essa possibilidade. O texto é o que as pessoas quiserem que ele seja e isso não nos preocupa.

No entanto, fora desses emails e do blog, houve quem nos insultasse veementemente, mas que afinal acabou-se por perceber que tinham segundas intenções e que surgiram a partir de ideias que não se entendem. Como se fossemos incapazes de fazer o que temos feito ao longo destes anos, e precisássemos de apoios de outras organizações ou pessoas. Sinceramente acabámos por receber esses comentários com alguma satisfação sendo assim, porque na verdade, o Cethomar, os seus elementos mais activos, resumem-se praticamente a três pessoas, uma delas o autor destas linhas.

O Cethomar e o blog é o que se vê. É transparente. São os nossos trabalhos. Somos nós os que damos a cara e os nomes sem medo algum.

A ideia de que estamos associados a movimentos de cariz espiritual não tem jeiteira nenhuma. Basta ler os trabalhos que produzimos, onde é nítida alguma aversão nossa a conteúdos que se relacionem com movimentos secretos ou iniciáticos. Associaram-nos já a vários, o do Luís de Matos não é o único a que nos tentaram colar, e nem o mais fantasioso visto o Luís ser amigo do Blog desde o tempo do Azul. Até já fomos associados a coisas que tivemos que investigar para saber em concreto o que é.

Se estamos associados a alguns movimentos ou pessoas relacionadas com o mundo das maçonarias ou templarismos, acho que o texto prova precisamente o contrário. Ninguém nos daria cobertura a tal texto julgo eu. O próprio Luís no seu comentário diz que Gualdim não podia corresponder ao descrito, talvez os seus colegas no entanto.

Não somos especialistas em coisa alguma e muito menos em Templários. Gostamos e amamos Tomar.. é isso que nos move, e somos os primeiros a perceber as nossa limitações e até eventuais erros. Devemos parar por isso? Só lê as nossas coisas quem quiser e não tentamos impor nada a ninguém.

Não respondemos algo no facebook ou em qualquer outro local porque não temos que provar quem somos ou deixamos de ser. Os nossos trabalhos e tipo de eventos dizem tudo. As nossas fotos de T-Shirts do Cethomar dizem quem somos.

Ameaçaram-nos no facebook que se apagássemos os comentários iriam escrever noutro sítio e noutro e noutro… será que não percebem que nunca censuramos nada a não ser a má edução? O nosso facebook, o nosso fórum e o nosso blog está aberto a todos os anónimos… ainda não terão percebido isso? (os comentários do facebook excedem tudo o que temos visto e é de uma má educação excessiva mas deixaremos ficar mais uns tempos, não por causa da ameaça mas porque nós decidimos por nós o que fazemos e não fazemos) Ninguém nos irá parar e acreditem que temos muito muito para escrever ainda, quer queiram quer não.

Agora deixem-nos trabalhar…