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12/29/2011

SANTA IRIA DE THOMAR – parte I

Introdução (carregue nas imagens para ampliação)
Autoria: Degraconis e Paulo Peixoto | Cethomar

A manifestação do fenómeno religioso, desde os tempos pré-históricos, tem privilegiado locais onde o profano e sagrado se possam tocar de alguma forma ou esconda em si características mistéricas, esfíngicas ou enigmáticas, e exemplo disso encontramos nos lugares que exprimem todo esse sentimento de distanciamento, seja o alto da montanha ou os cumes das serras, os bosques ou florestas nos sopés das colinas que se estendem por essas acima, a falésia escarpada de difícil acesso ou mesmo as grutas, penhas ou lapas onde a divindade se possa revelar numinosamente.

Nossa Senhora do Marão ou da Serra

Como nos diz Moisés Espírito Santo a “característica mais notável de qualquer santuário é a sua inacessibilidade” e “a maior parte deles situam-se nos montes, ou melhor, numa depressão da montanha ou de uma colina, num cenário natural “belo e horrível” que atrai e assusta”, constituindo-se como um “processo de domesticação” a colocação de um santuário nesses lugares selvagens, até porque a divindade mesmo ao longo da história do cristianismo sempre apresentou resquícios de sentimento pagão, daí muitas vezes se invocar a religião popular quase como em contradição à religião oficial.

 Nossa Senhora da Pena – Na serra de Sintra foi fundado um convento de frades Jerónimos, o qual deu lugar ao actual Palácio da Pena – No centro pode ver-se como D. Fernando em 1839 o viu antes de construir o palácio – Em cima, direita, pode ver-se  um outro templo conhecido como de Santo António ou das colunas. (qualquer uma das imagens estão recortadas para o efeito pretendido)

As origens dos santuários que pontilham mundo fora são frequentemente legendárias e de difícil cronologia ou percurso histórico, e perdendo-se disso lembrança, no decorrer dos tempos tende o homem a colmatar-lhe as falhas de que haja memória, sempre de acordo com a religiosidade vigente, e de pequenas alusões históricas ou simples acontecimentos acabam esses santuários por reivindicarem fabulosas histórias, as quais dificilmente poderão ter qualquer adesão à realidade inicial, situando-se quase sempre em momentos de tal modo longínquos que a história tem dificuldade em confirmar.

Rocha da Mina – local romanizado onde num passado longínquo se terão adorado
estranhas divindades das quais não existe hoje memória.

Decerto, a lenda de Santa Iria, não escapa a estas vicissitudes do fenómeno religioso, e mesmo não tendo origem numa manifestação teofânica, pois assume-se como um acontecimento real do quotidiano nabantino, assume a presença divina lugar central nessa história na medida em que Iria a invoca e, levada pelo rio Nabão, terão os anjos, emissários de Deus, a conduzido em segurança até Santarém onde lhe terão dado digníssima sepultura, hoje marcada por um monumento de lavra antiga.

 Dos painéis da Igreja de Santa Iria da Azóia | Padrão de Santa Iria em Santarém
ao qual dedicaremos a terceira parte deste artigo

Os santuários (e atenda-se ao facto do que veio a ser o Convento de Santa Iria já o era antes desse episódio segundo as antigas crónicas) quase sempre se revestem de carácter excepcional: nascem de invulgares factos ou estão marcados por fenómenos extraordinários, como tal considerados miraculosos, usualmente marcados por características naturais atípicas ou em função de um acidente de paisagem que reforce o seu estatuto de transcendente.


Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Soutelo  | Capela Anta na aldeia de Pavia

 Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Sernancelhe, Viseu.

Transpondo para a realidade Nabantina o dito e sabendo que a lenda de Iria é indissociável da designada “cisterna de Santa Iria”, outrora conhecida e referida como “Pego de Santa Iria”, excepção se faça à crónica dos monges franciscanos que no século XVIII a referem como cisterna, poderemos pensar ser esse o lugar por excelência, determinante para a localização da lenda e posteriormente, do recolhimento e convento das monjas de Santa Clara na planície de Tomar, ou seja, o sítio  que continha em si alguma particularidade que levou à sua consagração, tendo em conta que a lenda é falaciosa, não obstante eventualmente a lenda conter algum acontecimento real mas bastante diferente do que se veio a fixar muito tardiamente na hagiografia da Santa.
  
 Cisterna ou Pego de Santa Iria

Da procura de documentação que abordasse especificamente a cisterna, de forma a ilustrar o filme que apresentamos com um texto, resultaram relatos e textos que não foram possíveis aproveitar, tendo-se na altura optado pelo texto do Frei Isidoro de Barreira em consideração, quer à sua belíssima obra literária dedicada à biografia da santa, inundada de minuciosas descrições, quer pelo facto de ter sido monge conventual do Convento de Cristo em Tomar.

 Obra de Frei Isidoro de Barreira
Capa da biblioteca de Ruy Barbosa

Por excelência, é a cisterna, doravante designada por Pego, o local que maior fascínio exerce sobre quem se debruce sobre a história do Convento de Santa Iria, uma espécie de Santo dos Santos, não tivesse sido esse o local onde Iria foi brutalmente assassinada por uma sombria personagem, que no seu próprio nome de Banam(/ão) parece encerrar um mistério.

Da obra “Historia das vidas e feitos heróicos e obras insignes dos sanctos” 
de Frei  Diogo do Rosário - Ano de 1585. Sobre esta falaremos mais adiante.

Procurámos então, a partir dos textos que já havíamos seleccionado, saber ainda mais sobre esse local, recolhendo para o efeito os mais antigos textos que o descrevessem, de preferência antes da edificação do edifício quinhentista que hoje todos conhecemos, de forma a tentar perceber se apresentaria esse local alguma característica extraordinária ou constituísse algum “acidente” de paisagem nas margens do rio Nabão que justificasse a edificação de um santuário naquele sítio.

Algumas das obras que iremos abordar, entre muitas outras.

Não foi empresa fácil, até porque alguns deles estão em língua erudita, ou seja, em latim, e não os encontrámos traduzidos para português, já para não invocar a sua escassez e aridez descritiva; não tinham os autores preocupação em dar-nos conta do espaço envolvente, tão só da história e da lenda.

Antes de terminar esta introdução queremos deixar aqui a nossa prestada homenagem a Vieira Guimarães que na sua obra “Thomar Santa Iria” incluiu uma parte que designou por “Excertos documentais” relativos à lenda da santa, recolhidos por si e seus companheiros de pesquisas e em parte, confessa dever ao erudito investigador Pedro de Azevedo.

Diz-nos Vieira que foi um trabalho difícil e demorado – como o sabemos -  e que constitui o contributo que melhor conseguiram para o edifício histórico da cidade dos Gloriosos Templários e dos imortais Cavaleiros de Cristo, terminando por dizer que, outros,  de melhores qualidades poderão conseguir melhor, e se forem vivos, com muitos aplausos os louvarão. Não saberemos se alguma vez poderíamos ser dignos de tais aplausos, mas quisemos também dar um contributo para o seu legado documental e iremos trazer mais algumas obras, tão antigas quanto as suas – algumas mais ainda – para esse “Excerto documental” que é de homenagear.
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12/28/2011

SANTUÁRIO MARIANO EM THOMAR

A desaparecida Capela da Nossa Senhora dos Anjos



“E a velha Calcada de Paialvo, onde tanto peregrino de pé e de joelhos passou em penitência e oração à idolatrada Senhora dos Anjos, desapareceu! Sic transit gloria mundi! E Nossa Senhora, agora, jaz, quase olvidada, numa altar lateral da Igreja de São Francisco.” (Amorim Rosa)

Faz precisamente um ano que publicámos o artigo “Os Pastorinhos de Santa Bárbara” no qual dedicámos no capítulo nono algumas palavras à antiga Capela de Nossa Senhora dos Anjos desaparecida por completo no ano de 1865, tendo a sua pedraria sido empregue nos concertos da Rua da Graça que na altura se levavam a cabo em virtude do desterro da estrada de Paialvo.
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Não sendo propósito desse artigo debruçarmo-nos sobre esta capela, limitámo-nos nessa altura a tímidas descrições informando que era de “alpendres de boa architectura assentes sobre colunas de pedra, casas para recolherem os romeiros e para residência do ermitão, hoje já d’ella nem restam vestígios (…)”, e que a imagem da Nossa Senhora dos Anjos já havia desaparecido, ficando da mesma, uma imagem divulgada na “História de Tomar” de Amorim Rosa do ano de 1965 e a citada descrição do inicio deste pequeno artigo. 


De forma a recordar esse nosso trabalho, nomeadamente o capítulo em questão, vimos acrescentar uma descrição mais alongada da capela e da própria imagem da Nossa Senhora dos Anjos, socorrendo-nos para isso do Tomo III do “Santuário Mariano” do Frei Agostinho de Santa Maria do ano de 1711, o qual na última parte dedica-se à descrição de todos os santuários da Prelasia de Tomar.
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Fica então aqui recorte nosso da obra na parte que interessa ao tema em questão, não se achando por necessário transcrever para português actual por ser de fácil leitura e eventualmente deliciar quem goste de ler no original.



Carregue em cima das imagens para ampliar
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12/26/2011

A CISTERNA DO CONVENTO DE SANTA IRIA

Pêgo de Santa Iria | Thomar
Edição de imagem: Paulo Peixoto | Cethomar
Texto: Degraconis | Cethomar

Foi apresentado este vídeo no nosso grupo privado do Facebook no último dia da feira de Santa Iria, em Outubro. Não querendo deixar de o divulgar ainda dentro do mesmo ano aqui fica agora no blog. No seguimento iremos publicar um artigo dedicado a este local, o do martírio, e ao do sepultamento em Santarém.

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