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12/12/2010

OS PASTORINHOS DE SANTA BÁRBARA - PARTE V

CRUZ QUEBRADA
Uma Réplica da Cerca do Convento

Desengane-se aquele que pensar que isto é só “Mata”, é também muito estudo e dedicação. Quando pensamos que a investigação está concluída e pronta a publicar, costumamos entrar numa fase de maturação. Simplesmente a deixamos, passo a expressão, a “fermentar”, e não são poucas as vezes em que somos surpreendidos com novas pistas de investigação.

Com efeito, fomos surpreendidos com a notícia de que a Cerca do Convento em Tomar tem uma réplica em Cruz Quebrada, em Lisboa. Sem nos pudermos alongar no assunto, o artigo é extenso, deixamos aqui alguns apontamentos merecidos sobre o assunto.

Trata-se da Quinta de Santa Sofia, antiga propriedade dos Condes de Tomar, cujo Palacete é da autoria do Arquitecto José Luíz Monteiro, detentor de obra notável na região de Lisboa, autor de obras como a Estação do Rossio em Lisboa (1886) e o Chalet Biester em Sintra (1890), entre outras de referência arquitectónica. Foi o introdutor do Ferro Forjado em Portugal.

O Palacete de Santa Sofia

“Os magníficos jardins da Quinta de Santa Sofia, representam uma reprodução da cerca do Convento de Cristo (Tomar), que também foi propriedade dos Condes de Tomar, e complementam a beleza do Palacete em harmonia, realçando a sua arquitectura singular. A "cerca" mandada construir pelo 2º Conde de Tomar nos jardins do Palacete de Santa Sofia evoca assim a ligação histórica da sua família à cerca do Convento de Tomar. Dos terrenos originais ficou cerca de 1 hectare, onde se situa o Palacete, uma construção mais antiga e os jardins com árvores centenárias, onde se encontra a réplica da cerca do Convento de Cristo.”

O Palacete em estilo árabe atrás do muro

O Palacete e os Jardins atrás do Palacete – Ponte do Jamor do sec. XVII

Não somos fascinados por numerologias ou cabalas numéricas, muitas das quais forçadas, mas não deixa de ser curiosa, a presença do número 7 nas pesquisas que se fizeram ao redor deste local onde se insere a suposta “réplica” da Cerca Conventual da Mata dos Sete Montes (RTP), assim como a repetição do espírito bucólico presente na “Lusitânia Transformada”.

Se em Tomar os “pastores” são personagens de uma novela, não obstante ser possível as identificar na esfera real do quotidiano do autor, na zona do Vale do Jamor, no fim do qual se situa a Quinta em questão, em Cruz Quebrada, podemos encontrar uma linda Pastora, insólita toponímia de uma pequena povoação na margem direita do rio Jamor, Linda-a-Pastora, a qual pode muito bem conduzir-nos para antiquíssimos cultos relacionados com as religiões do período neolítico, se virmos que do outro lado do vale onde se situa esta povoação, podemos encontrar uma linda Velha, ou seja, Linda-a-Velha, possivelmente expressões ligadas a vestígios da Deusa Mãe pré-ariana, Deusa Tríplice, que se manifestava como “a Jovem”, “a Mãe” e “a Velha” ou “Anciã”, alegoria das fases da lua e do ciclo das sementeiras.

Antes de dedicar mais um parágrafo ao assunto anterior, há então que dar a conhecer a presença de mais um 7, os Sete "Montes" que rodeiam Cruz Quebrada, e glosando a obra do Padre Francisco da Silva Figueira de 1865, podemos dizer que “é monstruosa na maior parte, sendo as suas elevações principais a da serra de Carnaxide (1), cujo cimo se eleva a 150 metros do nível do mar, a da serra de Linda-a-Velha (2), 110 metros, a do Monte de Santa Catarina (3), 100 metros, a do Monte de Algés (4), 95 metros, a da serra dos Agodinhos (5), 90 metros, a da serra da Linda-a-Pastora (6), 90 metros, a dos Altos da Viagem(7), 80 metros, e a do Monte do Peito de Dama…”, desta última não chega a dar medição por não a ter em conta como tal, ou então, na esteira do Gabriel Pereira de Castro, que atribuiu a Lisboa sete colinas por forma a reconhecer-lhe origens sagradas, consolidá-la também como lugar consagrado, e que curiosamente também tem o seu rio de cinco letras como Lisboa (Jamor/Tagus). Todavia consideramos ser apenas uma coincidência feliz neste âmbito.

Ao passo que Fernão Álvares do Oriente “canta” a mata dos Sete Montes de Tomar, talvez único a fazê-lo e a dar-nos uma descrição do interior da Cerca, o Vale do Jamor e a Cruz Quebrada são enaltecidos pela “pena” de diversos escritores do período romântico, que chegaram mesmo arrendar casas de varaneio no local. Personagens como Cesário Verde, Tomás Ribeiro, Pinheiro Chagas, Bernardino Machado e Garret, este último, “chegando à ribeira do Jamor, parei exactamente no meio da sua ponte – a actual ponte construída em 1608 na Cruz Quebrada -, junto ao Palacete de Santa Sofia, porque a várzea que daí se estende, recurvando-se pela direita de Carnaxide e os montes que a abrigam em derredor, estava tudo de uma beleza verdadeiramente fascinante”

São também 7, os “moçoilos” que em Maio de 1822, no Vale Bucólico do J(amor)*, em perseguição de um coelho, descobriram uma gruta, cavidade dentro da rocha calcária, com muitos ossos humanos e um altar com uma imagem de Nossa Senhora com o manto muito desmaiado e “debruado de espiguilha de prata”. À aparição seguiram-se os milagres, criou-se um culto, estabeleceu-se uma romaria, e ficou o santuário erigido no sítio conhecido como Senhora da Rocha.


“(...) Um dos gaiatos, o mais pequeno, conseguiu entrar, e ao ver que se tratava de uma gruta, grande, chamou os outros. Uma vez entrados todos, viram no chão uma laje e quando conseguiram erguê-la, a muito custo, descobriram duas caveiras, ossos humanos (...)”

 
Santuário Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Do lado direito pode-se ver a entrada para a gruta, acessível também  através do altar. Não temos autorização para publicar foto .

“Esse Templo que alveja sobre a rocha na margem do Jamor
Tem por baixo uma gruta escura e fria
Onde uns moços da aldeia, acaso, um dia,
Encontraram a Mãe do Salvador”
De Tomás Ribeiro

Para os conhecedores da gruta na Mata dos Sete Montes em Tomar, não existirá dificuldade em imaginar semelhante epifania nessa concavidade, também esta, escavada na rocha e junto a uma linha de água. E se em Tomar não temos Capela, temos Charolinha.

A esta aparição precede os topónimos já citados, assim como um outro relacionado, como sinal premonitório do milagre da Rocha, Carnaxide, de radical “Car/Kar” , pré-romano, que no entender de M. J. Gandra se parece ligar a locais onde a “pedra” ou pedras se assumem como sagradas. A. de Almeida Fernandes no seu dicionário de Toponímia, editado no concelho de Lamego, confirma a significação do étimo “car(r)” como rochedo ou acervo rochoso. Alias são diversos as localidades com este étimo que manifestam a presença neolítica, Carenque, Carnak, etc, ou então fenómenos sobrenaturais claramente ctónicos, onde nitidamente se estabelece uma intima ligação do homem com a Terra ou uma união do telúrico com o celestial. Tal é também o caso de Carnide (car), no concelho de Lisboa, onde igualmente a Grande Deusa arcaica, se manifesta como salvífica e oracular, dentro de uma gruta a um Cavaleiro da Ordem de Cristo. Caso para dizer que no seio do infernal surgiu a Luz dos céus. Sobre este lugar nasceu uma das mais importantes igrejas da Ordem de Cristo, dedicada precisamente à Nossa Senhora da Luz.

Teríamos muito apreço em alongarmo-nos neste tema, mas apenas queríamos dar notícias da “réplica” da Cerca e enquadrar a Quinta de Santa Sofia para que se pudesse entender o cenário idílico onde se insere, sem todavia ainda encarecer-mos esta parte com a informação, de que também, este vale foi assento de um Convento, cuja primeira fundação deve remontar a 1171, e onde “aquellas paredes de mesquinha architectura, que denunciavam a todos os que viam a pobreza dos seus moradores, encerravam o mais rico Thesouro que havia em Portugal confiado à guarda das ordens monásticas, ou de quaesquer corporações religiosas. Esta circunstância é hoje, talvez, bem pouco sabida (… )(do Archivo Pittoresco séc. XIX). Com estas palavras somos capazes de ter reabilitado a visão de muitos sobre o Vale do Jamor, tão fustigado por má memória nas últimas décadas.

São diversas as toponímias de ruas no perímetro que
 se relacionam de uma forma ou outra com Tomar

* a origem do nome é outra 

Próximo Capítulo
A 2ª INCURSÃO
A exploração

6 comentários:

DEGRACONIS disse...

Resposta a uma questão: Fica Carnaxide junto a Linda-a-Velha e Linda-a-Pastora. Todas estas localidades ficam perto da Cruz Quebrada. O Jamor passa entre estas povoações e vai terminar na Cruz Quebrada. Será fácil verificar no google maps as suas localizações.

DEGRACONIS disse...

Resposta a uma questão: O nome Senhora da Rocha não esta relacionado directamente com o facto e ter aparecido dentro de uma gruta, mas sim por essa zona ser antigamente designada como Casal da Rocha. Se forem ao local irão perceber esse nome. Amnhã tentarei colocar no forum links para sites que tenham informação adicional. Quanto aos livros não os iremos publicar como é evidente, visto fugir ao tema Tomar, mas qualquer um deles limita-se a fazer a transcrição em detalhe, na altura, da descoberta. Não se encontra na internet. Talvez os possamos digitalizar e colocar como anexo ao pdf.

Outra resposta a uma questão: Tivemos muita dificuldade em descobrir de onde derivaria o nome Jamor. Apenas o conseguimos descobrir numa uma obra de Toponomia das Beiras. Iremos colocar no blog o seu conteúdo visto nem o Vasconcelos no seu dicionário o incluir, nem termos encontrado no Noticias históricas da Cruz Quebrada.

DEGRACONIS disse...

Um desabafo: Tenho pena que as questões não tenham sido sobre a réplica da cerca ou mesmo sobre o palácio, afinal de contas o post é sobre isso, apesar de não conseguirmos dizer muito mais quanto a isso. Quanto ao resto teriamos que escrever mais umas quantas dezenas de páginas, mas não se enquadra na filosofia editorial do blog.

Anónimo disse...

TEMOS PENA

Cristiano Ferronato disse...

Fiquei muito feliz em encontrar este blog. Tomar é um dos lugares mais espetaculares que já visitei no mundo existe neste local um mistério no ar. Espero um dia voltar para ficar mais tempo e aprender mais sobre tais mistérios enquanto esse dia não chega fico a ler vosso blog.

Anónimo disse...

Adorei este vosso texto.
FP